Pároco das Sete Cidades e Ginetes

Padre Ricardo Toste é filho de terceirenses, nasceu no Rio de Janeiro mas ansiava regressar a São Miguel, que considera ser sua casa

Passou a ser o responsável pelas paróquias das Sete Cidades e dos Ginetes, a partir de Setembro do ano passado. Como foi a adaptação à nova realidade?
A adaptação foi fácil, porque gosto muito do povo de S. Miguel, uma vez que já aqui tinha estado, nomeadamente em Santa Bárbara e na Ribeirinha, na Ouvidoria da Ribeira Grande, onde tive uma experiência de quatro anos, que posso descrever como muito intensa e muito positiva. Desta forma, ansiava por retornar a S. Miguel, que considero como minha casa, e aonde me agrada sobremaneira exercer o ministério sacerdotal.

Daquilo que já conhece, que parecenças têm ambas as freguesias, do ponto de vista social e religioso?
“As pessoas com quem contacto nas minhas paróquias são muito devotas do Senhor Santo Cristo, do Senhor Espírito Santo, de Nossa Senhora de Fátima, devoções que me são particularmente caras, e que levo sempre comigo para onde vá. São pessoas alegres, que gostam muito das suas festas, das suas procissões, nomeadamente a de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, e as do Verão, S. João nos Ginetes, e S. Nicolau nas Sete Cidades. São pessoas calorosas, simpáticas, simples e sinceras na sua fé e costumes religiosos. São pessoas que convivem muito umas com as outras, que se relacionam bem com as suas comunidades, onde estão bem integradas, e onde se sentem bem.

Entretanto, veio a pandemia da Covid-19. Sentiu a população preocupada? 
Sem dúvida que sim. Os grupos de risco ainda mais. Estava acostumado a ver os meus doentes, e as pessoas idosas que iam à missa, e todas estas pessoas se encerraram nas suas casas. Não se tratava de apanhar uma constipação, ou uma gripe, nem mesmo uma pneumonia. Tratava-se de um vírus desconhecido, potencialmente mortal, contra o qual não há vacina, tratamento ou cura. Foi muito difícil para mim e para todos os meus paroquianos. 

Como viveu os dias de confinamento devido à pandemia?
O meu primeiro sentimento interior foi este: «já não sou mais padre!». Não podia celebrar a missa (pública, mas só em privado), não podia confessar, baptizar, casar. Os funerais consistiam simplesmente na encomendação do corpo e na despedida. Não havia também a Missa de Sétimo Dia. Deixei de ver e de contactar pessoalmente com os meus paroquianos. Tudo isto gerou uma enorme solidão. Uma frustração enorme. Um sentimento de impotência. E comecei a pedir a Deus o fim da pandemia, nas missas privadas que celebrei. 

Durante esse tempo, muitos dos seus colegas aderiram às ferramentas On-line para transmitir as celebrações. Aconteceu o mesmo consigo, ou nem por isso?
Foi a solução que encontrei. Criei uma página no Facebook, «Padre Ricardo Toste», para ser a página das paróquias de S. Sebastião dos Ginetes e de S. Nicolau das Sete Cidades. A página tem também o Grupo S. Sebastião dos Ginetes e de S. Nicolau das Sete Cidades. Ambos são públicos. O que aconteceu foi que as Missas eram gravadas com o telemóvel, que era novo, para substituir o antigo, já obsoleto, e a câmara muito boa e nítida. Toda a gente gabava a qualidade da imagem da gravação. O mérito é do telemóvel. A partir daí, os comentários dos paroquianos e da comunidade açoriana da diáspora romperam a sensação de isolamento que todos nós sentíamos, e passámos a estar em comunhão uns com os outros, através da internet. É claro que as pessoas idosas mantiveram-se isoladas, por não terem acesso à ferramenta da internet, por não a saberem utilizar, ainda hoje, em que já temos as missas, muitas não estão a participar, por serem do grupo de risco de contágio, e perdi o contacto com vários paroquianos idosos até hoje. Já fui visitar os doentes, de luvas e máscara, e com o gel desinfectante, para quebrar o seu jejum eucarístico, que já durava seis meses, desde o Natal...

Foram três meses sem poder celebrar as Eucaristias com a presença de fiéis nos templos. Após a reabertura das igrejas, o número de presenças manteve-se ou aumentou?
A minha preocupação era se a redução dos lugares sentados iria impedir a participação dos fiéis na Missa. Mas como já disse, os fiéis mais idosos e vulneráveis continuam nas suas casas, com medo do contágio. Como sabe, já apareceram novamente casos em S. Miguel, após o desconfinamento. A pandemia ainda não acabou, não é verdade? Entre os que vão e os que não podem ir, as igrejas ficam cheias aos domingos, mas não tem faltado lugares sentados. Se fosse o caso, teríamos de aumentar o número de Eucaristias, mas não foi necessário. Quando há funerais ou Missas de Sétimo Dia, há pessoas que permanecem fora das igrejas. 

Confirma que este ano não deverão realizar-se as festas em ambas as freguesias?
Nos Ginetes tivemos a Festa de S. João celebrada no Pico das Camarinhas, Domingo passado, 28 de junho, com uma Missa Campal. O andor percorreu todas as ruas da freguesia, numa carrinha, e os mordomos do Império de S. João coroaram na Missa Campal. Não houve a procissão. Foi assim a festa. S. Nicolau será em Agosto, e será celebrado dentro da igreja, ou com uma Missa Campal, e pronto. É o que podemos fazer...”.

Versículo da Bíblica que mais gosta?
“Da Epístola de S. Paulo aos Romanos, versículos 35 e 37-38: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada?... Mas, em tudo isto, somos nós mais que vencedores por Aquele que nos amou. É que eu estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os Principados, nem o presente, nem o futuro, nem as Potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, Senhor Nosso».”

Que mensagem poderia deixar aos nossos leitores, nestes tempos, que são indubitavelmente diferentes, pelas razões que se conhecem?
“A hora em que mais sentimos a presença de Deus é quando enfrentamos a morte. Deus tem o poder de manter as nossas almas vivas, porque só Deus sabe como amar-nos na parte mais profunda, interior e desconhecida de nós próprios. O amor de Deus por nós é mais forte do que o amor de um pai, ou de uma mãe, porque é maior do que o amor humano. Até os demónios perdem o seu poder, diante do amor de Deus por nós. Na hora da morte iremos saber o quanto Deus nos ama. É a hora da confiança total. É a hora da entrega total. Devemos ensaiar esta entrega total e esta confiança total todos os dias da nossa vida. Para estarmos preparados quando morrermos. Porque não sabemos quando iremos morrer, nem se estaremos preparados... “.
 

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Autor: CA

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