NRP Setúbal prepara-se para regressar a Lisboa

Entre o auxílio à população após o furacão Lorenzo e as missões de busca e salvamento efectuadas, marinheiros sentem “que fizeram a diferença”

Atracado no porto de Ponta Delgada, o Navio Patrulha Oceânico Setúbal passa agora os seus últimos dias no arquipélago dos Açores antes de regressar a Lisboa, terminando assim a segunda comissão ao serviço da Região.
O navio da Marinha Portuguesa, comandado por Zambujo Madeira desde Dezembro de 2018, chegou inicialmente a Ponta Delgada em Setembro de 2019, com o objectivo de apoiar a população açoriana conforme as necessidades existentes, algo que viria a colocar-se quase de imediato à guarnição composta por 45 militares.
Desde logo, com a chegada do furacão cujo nome os açorianos não esquecerão facilmente: Lorenzo, aquele que ao passar pela Região em categoria 2 provocou centenas de milhões de euros em prejuízos, fez desalojados e deixou sobretudo as ilhas do Grupo Ocidental em situação de carência de meios e de recursos.
De acordo com o comandante, o NRP Setúbal foi “a primeira unidade a chegar à ilha para fazer uma avaliação da situação”, levando consigo, da Graciosa, uma embarcação de porte mais pequeno porque “uma das que havia nas Flores tinha sido destruída” com a ondulação forte que acabou, inclusive, por destruir o porto das Lajes das Flores.
Naquela que descreve como “uma missão cansativa”, Zambujo Madeira salienta que o navio começou por ficar no cais comercial da Terceira por ser o local onde que lhe conferia maior protecção e possibilidade de sair em caso de emergência mesmo com condições adversas.
Depois de avaliadas as necessidades do Grupo Ocidental com a passagem do furacão, o navio da Marinha seguiu novamente para o Grupo Central, para a ilha do Faial, de onde viria a embarcar com 25 toneladas de mantimentos destinados para a ilha das Flores e outras dez toneladas de bens essenciais destinados à ilha do Corvo.
No entanto, e apesar de considerar que este foi um momento de muito prestígio quer para a Marinha, quer para a guarnição do NRP Setúbal, aquela que caracteriza como “a missão” viria a acontecer em 2020, na segunda comissão do navio especialmente equipado para acudir em missões de busca e salvamento, depois da sua chegada ao arquipélago em Abril de 2020.
Nesta segunda ronda de serviços nos mares dos Açores, a primeira missão surgiria precisamente no Domingo de Páscoa, altura em que o navio patrulha se encontrava atracado na ilha Terceira, recebendo o alerta de que haveria um indivíduo, um cidadão indiano, que caíra ao mar a uma grande distância a sudoeste da ilha das Flores.
Esta missão, conforme conta o comandante, teve “um significado especial” para o si e para a restante guarnição, porque a probabilidade do indivíduo ser encontrado, “à noite e ainda com vida, naquelas circunstâncias, quando já havia 11 navios a fazer a busca e quando já lá havia um meio aéreo” eram reduzidas.
No entanto, com o apoio do Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada (MRCC Delgada), o NRP Setúbal acabou por ser o primeiro a cobrir a área onde se viria a avistar, por intermédio de binóculos nocturnos, “uma pequena luz” que viria a revelar o náufrago procurado há mais de 30 horas.
“Uma pessoa sozinha no mar não sobrevive facilmente, e ele sobreviveu 30 horas no mar porque fez uso dos equipamentos de protecção adequados para se conseguir manter no mar durante tanto tempo. 
(…) Foi uma missão em que sentimos efectivamente que fizemos a diferença por termos salvado uma vida, ainda que o apoio às Flores tenha sido igualmente uma missão muito importante, mas não estava ninguém em risco de vida imediato. Isto acaba por galvanizar a guarnição e acaba por criar um sentido para as famílias também”, adiantou Zambujo Madeira ao recordar o episódio.
No decorrer dos restantes meses a guarnição interveio também noutras missões, tendo acompanhado três veleiros que tiveram problemas no mar e um outro que perdeu a sua capacidade de navegação a mais de 100 milhas.
“Era um veleiro de um holandês que se encontrava a navegar em solitário, e que não tinha capacidade de navegar porque tinha partido um cabo do mastro e porque o motor não pegava e vinha mau tempo, a combinação perfeita para as coisas correrem mal.
Enviámos dois técnicos a bordo, esses técnicos avaliaram e repararam o motor, e depois fizemos o acompanhamento do veleiro até ao Faial. Se não tivéssemos chegado a tempo, com o mau tempo que se avizinhava, a probabilidade do mastro partir completamente era grande”, o que podia originar uma situação semelhante à do cidadão indiano que teve que ser resgatado.
Outro momento marcante sucedeu na primeira missão, a que decorreu no último trimestre de 2019, quando um veleiro com dois homens a bordo virou a cerca de 280 milhas de Ponta Delgada num momento em que se avizinhava mau tempo para a Região.
“Na fase inicial tínhamos a noção de dois indivíduos estavam num veleiro que tinha virado e que eles estavam numa balsa, mas as comunicações não se percebiam bem. Apanhámos oito a nove metros de ondulação, e isto implica correr contra o tempo para lá chegarmos o mais rapidamente possível. Por sorte as condições melhoraram ligeiramente e foi possível o C295 da FAP descolar e fazer com que o helicóptero os detectasse”, relembra.

Os principais desafios 
do mar dos Açores

São as condições adversas do mar, em conjunto com as grandes distâncias que têm que ser percorridas em quase todas as missões de busca e salvamento que para o comandante, que entre o ano de 2013 e 2015 foi chefe da secção de operações do Comando da Zona Marítima dos Açores e gestor de operações do MRCC de Ponta Delgada, se tornam nos principais desafios estendidos aos militares que servem o arquipélago através da Marinha portuguesa. 
“O mar dos Açores tem a característica de não ser exactamente um lago. A maioria dos acidentes ocorre quando as condições de mar estão mais adversas, o que dificulta a nossa capacidade de estar no mar, a navegação, a visibilidade, reduz o tempo de permanência – com vida – de qualquer náufrago que esteja no mar.
Por isso, a nossa maior dificuldade é efectivamente ir contra o tempo quando as condições meteorológicas estão adversas, acrescendo que a área de busca e salvamento de Santa Maria é tão vasta que qualquer acidente que ocorra é quase sempre longe”, diz.
Em acréscimo, apesar de ser sempre difícil passar longos meses longe da família e dos amigos, esta missão da qual se despede a guarnição foi particularmente difícil devido à pandemia.
“Esta missão foi particularmente exigente por aquilo que representou em termos de exigência psicológica dos militares que aqui estão e que, felizmente, reagiram bem. Não tivemos casos de familiares que estivessem infectados e que suscitasse o regresso de algum militar, mas também porque nós logo no início de Março desenvolvemos uma série de procedimentos e de cuidados dos quais as pessoas estavam muito cientes”, refere.
Apesar de agora se retirar dos Açores, a guarnição encontra-se já a planear a sua próxima missão, a iniciar no mês de Agosto: “A seguir vamos para o Canadá durante um mês e meio. É muito mais longe, muito mais tempo a navegar, pouco tempo atracado e a fazer fiscalização com inspectores da Direcção Geral das Pescas. É a primeira vez que o navio vai fazer esta missão e já nos estamos a preparar em termos logísticos e administrativos”, conclui.

 

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