Padre João Maria Brum despediu-se da paróquia de São Pedro e tem outra missão

“Os dias de pandemia foram autênticas férias, com muita dor, por não ter sentido o cheiro do povo”, e só agora é que os fiéis vão retomando a normalidade”

Foi educado nos princípios da religião católica e sem pejo nenhum diz que foi “Menino de Coro” ou Acólito da Igreja do Bom Jesus, tendo ainda pertencido ao Grupo da Juventude Agrária Católica (JAC), em que Américo Natalino Viveiros foi um destacado dirigente local e regional.
Mais tarde ingressa no Seminário de Angra, “por influência de Dom Paulo José Tavares, Bispo de Macau”, que era amigo da família e onde a mãe do nosso interlocutor tinha sido sua catequista, mas até também por intermédio do seu padrinho, o padre José Fernandes.
No Seminário de Angra cursou Filosofia e Teologia, ordenando-se a 29 de Maio de 1975.

Fajã de Baixo: “Os anos mais belos 
da minha juventude”

Nesse mesmo ano foi colocado na paróquia da Matriz de Ponta Delgada durante um ano. Só que depois, o Bispo Dom Aurélio Granada Escudeiro perguntou-lhe se queria ir para São Jorge, fazer uma experiência, uma vez que a ilha tinha poucos padres. João Maria Brum para lá foi e gostou. Ia por cinco anos, mas esteve um ano em Santo Amaro da ilha de São Jorge, isto porque o problema da Matriz não se resolveu. A solução encontrada foi a colocação do padre Ribeiro, na Matriz, e o padre João Maria Brum, na Fajã de Baixo. “Diria que foram os anos mais belos da minha juventude, aqueles que passei na Fajã de Baixo. Por natureza, dou-me bem com todos, mesmo com aqueles que não frequentam a própria eucaristia dominical”.

São Pedro: “Gostei muito”

Ao fim de 19 anos, o Bispo Dom Aurélio volta a propor que fosse colocado na paróquia de São Pedro e assim aconteceu, conjuntamente com o padre Gilberto, da Fajã de Cima.
Os dois párocos das “fajãs” foram substituir duas grandes “colunas” da Igreja Católica açoriana, nomeadamente o padre José Constância e o padre Cipriano.
E assim João Maria Brum paroquiou São Pedro durante 25 anos, onde também se deu “maravilhosamente com as pessoas”, não se recordando que se tenha dado mal com alguém. “Gostei muito de trabalhar em São Pedro, onde fundamos um agrupamento de escoteiros”, tal como tinha acontecido na Fajã de Baixo.

Com alguma fragilidade física

No entretanto, o padre João Maria Brum é apanhado por uma enfermidade que o deixou com alguma fragilidade física. “Não muito intelectualmente, mais ao nível da mobilidade, de maneira que achei por bem expor estas razões ao senhor Bispo, que aceitou”.
Despediu-se da paróquia no dia de São Pedro. “Na vida tudo tem o seu início e fim. Custou-me tomar esta opção, mas teve de ser”.
A data, 29 de Junho, coincidiu com o 45.º aniversário da ordenação sacerdotal do Cónego Capitular da Sé de Angra, João Maria Brum, até então pároco da Igreja da Freguesia de São Pedro e capelão do Estabelecimento Prisional de Ponta Delgada.

Uma nova missão

A partir de agora, João Maria Brum prepara-se para a sua nova missão. Não vai para a paróquia da Fajã de Baixo, mas vai para muito perto, mais concretamente para a Casa de Saúde de S. Miguel, para junto do seu padrinho, o padre José Fernandes. “Vou para lá para um ambiente que bem conheço. Conheço a mentalidade dos utentes daquela casa e o carisma, digamos assim, dos irmãos de São João de Deus, que infelizmente, já não estão lá, mas cujo espírito se mantém na equipa de trabalho que ali está, mas vamos restaurar muito do espírito que orientou a Casa de Saúde de S. Miguel”. Isto deverá acontecer “a partir de Setembro ou Outubro, uma vez que agora só presido à missa e nada mais”.
“Os utentes, empregados, colaboradores e os voluntários, merecem todos, um carinho e um respeito motivador, e sobretudo uma atenção muito especial”, relevou. 

Pandemia: Descansar e reflectir 
na palavra de Deus

Virando as agulhas para os dias de confinamento devido à pandemia da Covid-19, o padre revelou que viveu esse tempo a descansar e a reflectir na palavra de Deus. “Foram autênticos dias de férias, com muita dor, por não ter sentido o «cheiro» do povo”. Inclusivamente, a Páscoa foi celebrada sem a presença de fiéis na Igreja.
Questionado se sentiu a população preocupada, respondeu positivamente. “Sobretudo aquelas pessoas mais chegadas à igreja, que me perguntavam: «Quando é que vamos principiar? Quando é que a igreja vai abrir?» As pessoas mostravam-se francamente preocupadas e queriam que, de um momento para o outro se abrisse a igreja. Naturalmente, que isso não podia acontecer e apelava à calma e que se respeitasse a autoridades sanitárias, transmitindo-lhes, por outro lado, uma palavra de esperança, porque tudo iria correr bem”.
Para o nosso entrevistado, após a reabertura das igrejas, “o número de presenças de fiéis não aumentou e até diminuiu, porque as pessoas ainda estavam com medo. Contudo, com o passar do tempo, os cidadãos começaram a ver que tudo estava muito bem organizado, começaram a deixar de ter medo e passaram a ir à Igreja, de tal modo que, o normal vai sendo retomado, pouco a pouco”.
O cónego destaca a importância das novas tecnologias, apesar de reconhecer que “não é perito na matéria”. Também por questões de mobilidade deixou inclusivamente de aceder à internet e aos e-mails. Contudo, pensa que “sem exageros, as redes sociais têm um enorme alcance ao nível da evangelização e da comunicação, onde até o Santo Padre também apela nesse sentido. De resto, na televisão temos muitas e boas eucaristias”.

“Gosto muito das bem-aventuranças”

Acerca do versículo da Bíblia que mais gosta, diz que gosta “muito das bem-aventuranças, do Evangelho de São Mateus. Não são normas, não são mandamentos e muito menos leis. Resumem antes, todo o ideal cristão. Os grandes santos foram aqueles que viveram em absoluto as bem-aventuranças. É o que gosto muito de viver na minha vida”.
A terminar, o pároco João Maria Brum deixou aos nossos leitores, nestes tempos, que são indubitavelmente diferentes, pelas razões que se conhecem, uma mensagem de alento. “Deixo uma mensagem de muita confiança. Mas, convém deixar de lado um certo receio e medo que possamos ter. Claro, que devemos ser cuidadosos, até porque o vírus anda por aí e enquanto não se encontrar uma vacina eficaz, todo o cuidado é pouco. Mas, também não devemos ter medo e as pessoas têm medo. Medo de sair de casa, receio de frequentar determinadas culturas e assembleias, que não deve ser assim. Acho, que isto vai correr tudo bem, vai correr bem, sem exageros de ajuntamentos, porque a recuperação faz-se paulatinamente, confiando em Deus nosso Pai”.

 

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima