José Albergaria é designer gráfico na capital francesa

Da casa do Pópulo até Paris: A cidade que deixa “pouco tempo para nostalgias”

José Albergaria é designer gráfico em Paris, uma das cidades europeias de onde surgem algumas das grandes referências culturais ao longo da História, mas nasceu em São Miguel, ilha onde viveu nos primeiros anos da sua vida, antes de a família emigrar após o 25 de Abril para o Canadá.
Crescer nos Açores, mais concretamente na “casa do Pópulo” como carinhosamente chama a moradia onde viveu com os avós, pais e irmãos, foi para si uma experiência enriquecedora, recordando o anseio por “regressar a casa após as aulas e estar no jardim a trepar arvores, a apanhar frutos, a brincar com os irmãos ou com os animais domésticos e ir para o calhau ver o mar e toda a fauna que se vê nessa linha da costa. Tive sorte, foi uma bela infância, só posso agradecer aos meus pais, avós e irmãos”.
Por outro lado, ser o mais novo dos cinco irmãos foi também “uma boa aprendizagem”, de onde constam “alguns desentendimentos” mas onde sempre prevaleceu “a união e o equilíbrio”, uma vez que aprenderam – entre outras coisas – a protegerem-se uns aos outros.
Anos após a revolução dos cravos, em Dezembro de 1980, a família decidia então  emigrar para Toronto. O primeiro grande choque, conforme recorda, foi o frio típico do “pleno Inverno” que se fazia sentir naquela cidade, dando lugar depois ao “fascínio pela neve, pela cidade branca, por andar de trenó nos jardins municipais”.
Esta foi também a primeira vez que teve contacto com “uma cidade grande e moderna” onde “tudo era desenhado, direitinho, amplo e funcional”, destacando “a loucura do comércio, os supermercados e os centros comerciais gigantes”, uma vez que até ali o maior supermercado que conhecia era o Domingos Dias Machado, situado, na altura, ao lado do edifício da Câmara Municipal de Ponta Delgada e, ainda, o então supermercado Manteiga.
Foi também especialmente marcante, enquanto estudava, poder conhecer pessoas “de todos os cantos do mundo e fazer amigos de tantos sítios tão diferentes, com histórias incríveis”, relembra.
“Lembro-me perfeitamente de um dia ir dormir a casa do meu amigo Samsak, do Laos, e ficar fascinado com a decoração, com a comida, cada amigo era uma viagem cultural. Para além deste contacto com este universo cosmopolita o que muito me enriqueceu foi a aprendizagem da língua inglesa desde de pequeno, que me ajudou muito durante toda a vida. Hoje em dia sonho em três línguas, português, inglês e francês”, escreve.
Para além desta viagem cultural que o Canadá lhe proporcionou, refere também a “riqueza do ensino no Canadá”, onde se privilegiava – ainda nos anos 80 – “as questões do civismo, da ecologia, os trabalhos manuais e artísticos e a autonomia. A escola tinha uma verdadeira missão de nos ensinar a viver neste mundo”, diz ainda.
No entanto, apesar de reconhecer a importância desta experiência, confessa que demorou vários anos a entender “esta mudança de vida tão radical” que acabou por envolver toda a família, tendo em conta a qualidade de vida com que viviam nos Açores.
“Sempre que perguntava por isso aos meus pais as respostas eram vagas. Apesar de o meu pai sempre ter tido uma paixão pela América do Norte (especialmente pelo Canadá), tendo lá muitos amigos, eu não achava razão suficiente, especialmente porque a minha mãe e avó não tinham nenhuma afinidade com este país.
(…) Só mais tarde não me dei por contente e apercebi-me que a nossa ida tinha sido por causa do pós 25 de Abril. Os meus pais eram defensores da revolução dos cravos e isso criou desconforto com muitos dos seus amigos de infância. Lembro-me um dia acordar e ver na fachada da nossa casa um grande «viva a FLA» pintado, uma provocação directa aos meus pais. Acho que essa foi «a gota que fez transbordar o copo»”, adianta.

O regresso a São Miguel

Porém, passado o período de emigração da família no país conhecido pelos seus Invernos rigorosos, o regresso à ilha de São Miguel correspondeu a outro período de adaptação, algo que se tornou particularmente difícil quando chegou a hora de voltar ao liceu.
Apesar de estar feliz por “reencontrar a casa do Pópulo e o mar, reencontrar os tios, os primos e os amigos”, o português enrascado e o estilo diferente e algo irreverente fizeram com que José Albergaria ficasse conhecido entre os colegas como “o emigrante” ou “o calafão”.
“O choque maior foi o reencontro com os outros alunos, para eles eu era o «imigrante». Havia uma forma de discriminação pelo facto de me vestir de forma diferente, lembro-me de um dia ir para escola com uns ténis amarelos e chocar os meus colegas. Foram essas pequenas coisas que me fizeram perceber o convencionalismo que reinava na pequena cidade de Ponta Delgada”, diz.
Para além desta discriminação que sempre considerou injusta tendo em conta as suas raízes e “a coragem” que reconhece em todos os emigrantes, recorda também que, em comparação com a escola Domingos Rebelo, “a escola canadiana tinha condições incomparáveis”.
Sendo o mar um dos seus refúgios, José Albergaria focou-se então na prática do surf, desporto do qual se tornou fã e que lhe permitiu encontrar muitos amigos mas que, de certa forma, o distraía dos estudos e lhe fez ganhar um novo apelido pouco simpático: “Rapidamente percebi que a menor diferença criava incómodo, (…) o surf nos Açores nos meados dos anos 80 era mal visto, era um desporto «estranho», então na escola passei de «calafão» para «surfista de banheira», uma nova injustiça porque surfava bastante bem na altura”, recorda.

A arte como presença constante 
e o interesse no design

A “casa do Pópulo”, como é referida, era também  um ponto de encontro entre os familiares mais distantes sempre que estes visitavam São Miguel. Entre os mais marcantes estão os tios de Lisboa, dois artistas que “traziam sempre novidades surpreendentes”, incluindo os discos dos Kraftwerk no início dos anos 70 ou trabalhos artísticos dos próprios ou de amigos que acabavam por encher as paredes da moradia da família.
Começou por ter interesse na área da arquitectura, profissão que considerou seguir, mas foi a partir da música que descobriu a paixão pelo design gráfico, profissão à qual se dedica hoje.
“Estava deslumbrado com as capas dos discos, com o trabalho de design gráfico, fotográfico, artístico destas capas que transmitiam o universo visual da música. Para mim estes trabalhos das capas de álbuns eram uma fusão perfeita das expressões artísticas, não havia limites, eram radicais, eram minimais, eram irreverentes, havia de tudo, passou a ser uma paixão e pensei que poderia encontrar a minha futura profissão e forma de expressão”, refere.
Hoje, apesar de “o trabalho não correr sempre como gostaríamos”, reconhece que no mundo da criação é feliz: “estamos sempre a aprender, sempre a criar, sempre a pesquisar. Cada nova missão obriga-nos a ir mais longe, a confrontar outras disciplinas. Posso estar a trabalhar numa exposição sobre a vida do Calouste Gulbenkian e ao mesmo tempo trabalhar num livro de 600 páginas sobre a história da Humanidade, ou elaborar a imagem da temporada de um teatro e começar o design e catálogo para uma exposição de arquitectura, é muito enriquecedor!”
Antes de ir para a cidade parisiense, o açoriano foi co-fundador de um atelier em Lisboa chamado “Barbara says…”, o que o fez entender “a força e as vantagens de trabalhar num pequeno grupo” que trabalhava sobretudo na área cultural, tendo a oportunidade de desenhar a revista para a Ordem dos Arquitectos, de trabalhar com a galeria Zé dos bois, incluindo “a louca revista Flirt”, a imagem do desfile de moda das Manobras de Maio, da Moda Lisboa, cartazes para teatro e algumas capas de discos.
No entanto, adianta que “o design gráfico a mais é um erro”, e por isso em todos os trabalhos que faz – seja para o Palácio de Versalhes, para o Instituto Nacional da Pesquisa Arqueológica Preventiva, para o museu Louvre Abu Dhabi, para a Fundação Gulbenkian de Lisboa e Paris ou para a Espace Louis Vuitton ou para outras missões – tem sempre a preocupação de os fazer “de um ponto de vista ecológico e justo”.
Enquanto designer, e apesar de assistir à chegada do computador – aquele que se veio a tornar numa das principais ferramentas de trabalho – José Albergaria procura sempre continuar a trabalhar com outros meios mais tradicionais, tais como lápis, fotografia, canetas, tintas spray, fitas cola, colagens, considerando que “a aparência justa de um conteúdo é sempre um desafio” porque “deve revelar e enriquecer aspectos do qual o autor ou cliente não estava à espera”.

Paris, a cidade da cultura e do amor

A ida para Paris, a cidade do amor, proporciona-se, depois de ter conhecido a mulher com quem viria a casar, Chantal de la Coste, durante a Expo 98, em Lisboa, nos primeiros preparativos para a ópera “Os dias levantados”, de António Pinho Vargas, onde a francesa que o encantou fazia a cenografia. 
“Conhecemo-nos em Lisboa, e durante um ano e meio andamos entre Lisboa e Paris até ao momento que decidimos viver juntos. Ainda pensamos viver em Montreal, mas Paris acabou por ser a nossa escolha devido ao trabalho da Chantal e pareceu-me ser uma boa cidade para continuar o meu trabalho”, recorda. Ao chegar a Paris, continuou a trabalhar com os mesmos sócios com quem trabalhava em Lisboa, mas depressa percebeu que teria que ter contacto também com designers locais, trabalhando assim num atelier com dois outros designers, o holandês Rik Bas Backer e o sueco Stefan Ilkovics, começando assim a debruçar-se “em projectos mais ambiciosos”.
Surgiu assim o nome “Changeisgood”, que partia do princípio de que “cada projecto tinha que encontrar algo adaptado a este nome”, projecto no qual se mantém completamente envolvido ainda hoje, juntamente com Rik Bas Backer e com jovens aspirantes a designer gráfico.

Os Açores como uma fuga nostálgica

Actualmente, adianta que mantém “uma vida bastante acelerada, com muito trabalho e com três filhos – o que significa ainda mais trabalho”, vivendo numa cidade “com uma forte agitação cultural e social onde não há tempo para muita nostalgia”.
No entanto, sempre que chega ao mês de Abril começa a procurar as datas das férias para organizar a viagem até aos Açores que costuma agendar para o Verão, o que o deixa inquieto e “a contar os dias”, uma vez que é um dos seus sítios preferidos para se poder encontrar com o mar, com a família, com os amigos e com a natureza.
Se tivesse continuado nos Açores, sem arriscar um futuro profissional num dos centros culturais mais agitados da Europa, José Albergaria acredita que teria uma carteira de clientes muito mais reduzida, sujeitando-se a trabalhar numa região onde considera que o design gráfico peca por ausência “de diálogo e compreensão”.
Para o designer, sair dos Açores é também ter a capacidade de “sacrificar algumas paixões e ligações humanas”, o que no seu caso aconteceu com o contacto privilegiado com a natureza, a família e com o mar, e apesar de ter “rapidamente percebido” que não queria passar toda a sua vida nos Açores “devido ao Inverno escuro e duro” e às suas ambições profissionais, reconhece que “muita coisa mudou” entretanto. 
“Hoje em dia muita coisa mudou, acho que apesar de os Açores serem compostos por ilhas, a ideia de isolamento é muito menos presente do que quando saí: Há voos muito mais baratos e as ligações de internet são boas, o que dá para pensar de outra forma e abre outras possibilidades”, conclui.

Encontrar trabalho e pessoas que me inspirassem e que me sejam queridas.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
Incomoda-me arrogância, desprezo, desrespeito, inveja, intolerância. Admiro tolerância, respeito, amizade, curiosidade, fidelidade e generosidade.

Que características mais admira no sexo oposto?
Perseverança, coragem, beleza e admiro a paciência que tem para aturar o sexo masculino.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto, difícil dizer um só. ‘Retrato de DorianGrey’ de Oscar Wilde, ‘Barão Trepador’ de Italo Calvino, ‘Cidade e as Serras’ de Eça de Queirós, ‘Les Ilusions Perdus’ de Balzac…

Como se relaciona com a informação que inunda as redes sociais?
Selecciono e não dou muita atenção, para informação séria leio jornais e oiço a rádio.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Conseguia se o meu trabalho permitisse, mas é difícil, há muitos serviços ligados ao telefone e como tenho três filhos gosto de saber se estão bem.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Sim, difícil dizer uma. Montanha Amarela na China, Istambul, Sul de Marrocos, Goa, Brasil.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
Chinesa, Japonesa, Coreana, Italiana, Espanhola, Francesa, Portuguesa, Mexicana, Libanesa, Vientnamita... é difícil escolher. Adoro cracas e ovos de cem anos.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que o Trump, o Putin, o Bolsonaro, o Erdogan, o Modi e o Netanyahou demissionassem e a China declarava uma nova etapa política de adesão à democracia 

Qual a máxima que o/a inspira?
Não tenho máxima mas adoro a ideia ou fenómeno da expressão «madeleine de Proust» (expressão extraída do livro «À la recherche du temps perdu»), se o Proust fosse açoriano teríamos a «craca de Proust»
 
Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê
Gosto de viver na época que vivo, apesar de não ser sempre fácil, para além de termos grandes desafios, não nos encontramos em guerra.

 

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