Ex-Presidente da SATA fala do presente da companhia que geriu em anos de ouro

António Cansado defende a reorganização do Grupo SATA, pois a situação crítica da empresa deve-se ‘a algumas más indicações do Governo e a erros de planeamento e gestão’

No seguimento do recente anúncio do Grupo SATA de que iria recorrer a um apoio estatal no valor de 163 milhões de euros, o Correio dos Açores foi ouvir Manuel António Cansado, homem forte da companhia açoriana durante uma década.
O ex-Presidente da SATA entre 1997 e 2007, começa por referir que o valor agora em causa não chegará para resolver o passivo acumulado pela SATA.
“Porventura, nem será metade daquilo que será necessário para o saneamento financeiro da empresa. A única coisa que sei é que antes da pandemia o passivo acumulado já tinha atingido os 300 milhões. Agora estamos a falar muito provavelmente de cerca de 400 milhões”, afirma
No entender de António Cansado, o valor de 163 milhões tem como principal objectivo fazer face a questões prementes de tesouraria que a SATA tem de cumprir.
“Naturalmente. Todas as questões na SATA são prementes desde há muito tempo a esta parte. Ainda por cima com a agravante da pandemia em que o trafego foi para praticamente zero”, destaca.
Para antigo Presidente da companhia açoriana, também ainda não é perceptível se, na verba que a SATA solicitou no passado dia 8 de Julho, já estarão incluídos os 50 milhões de euros que o Governo Regional inscreveu no Orçamento Suplementar, já aprovado na Assembleia Legislativa Regional durante o Plenário de Julho.
“Não sei se esses 163 milhões vão ser somados aos 50 milhões que estavam inscritos no orçamento aqui da região para ajuda à SATA. Nessa altura já estaríamos a falar em 213 milhões. Não sei se esses 50 milhões já estão nesses 163 milhões”, questiona.
Manuel António Cansado lembra também que apesar da pandemia de Covid-19 ter vindo complicar a situação financeira da SATA, a companhia já se deparava com graves problemas antes mesmo da paragem completa devido à Covid e deixa algumas perguntas.
“A pandemia só veio agravar o assunto, agora, mas em quanto é que o passivo foi agravado? Quais são as necessidades urgentes da SATA? Nunca ficou muito claro para mim qual era percentagem de funcionários que estavam em lay-off. É preciso perguntar tudo. É preciso fazer um reset, começar do zero e perguntar tudo”, diz.

O Plano de Reestruturação
Falando sobre o Plano de Reestruturação que a actual administração, empossada nos primeiros dias de 2020 e liderada por Luís Rodrigues, pretende implementar, Ana Cunha, Secretária Regional dos Transportes e Obras Públicas, afirmou a 9 de Julho, em declarações na Assembleia Legislativa Regional que “o plano de reestruturação da SATA será conhecido pela Comissão de Economia logo que esteja formalmente apresentado e concluído”. A responsável pela Tutela dos Transportes na Região realçou também que a actual Administração “estava a trabalhar num plano antes da época Covid”, mas que esse plano “teve de ser objecto de uma profunda alteração a partir de março”.
Sobre o Plano de Reestruturação da companhia, António Cansado não tem dúvidas em afirmar que o mesmo terá implicações directas nos trabalhadores da SATA.
“O Presidente do Conselho de Administração quando foi ouvido na Assembleia Legislativa Regional disse que a reestruturação ia doer. Ora bem isto só pode ter as seguintes leituras. Significa que de facto a SATA ia ser reestruturada e ponto dois, se vai doer a alguém muito provavelmente vai doer aos trabalhadores”, afirma.
Perante o cenário que se apresenta agora perante a companhia, o ex-Presidente defende que se deveria proceder a uma reorganização da SATA.
“É preciso promover a organização do grupo. E a organização do grupo naturalmente que tem a ver com as áreas diferenciadas de negócio que são, na minha opinião, SATA Air Azores por um lado e SATA Internacional por outro. Azores Express nos EUA e SATA Express no Canadá, que são operadores turísticos, por outro. Santa Handling por outro, e mais, poderia ser Engenharia e Manutenção. Alias a única área que ficou separada foi a SATA Gestão de Aeródromos”, realça.
António Cansado justifica ainda a razão pela qual defende esta reorganização do Grupo SATA, lembrando que já durante o “seu tempo” esta ideia tinha sido proposta.
 “Esta questão da reestruturação foi proposta anteriormente, no meu tempo, e foi aprovada naquela época. Passava pela constituição de uma SATA GPS, Sociedade Gestora de Participações Sociais, com várias empresas e em que o Grupo SATA detinha todas as participações nas suas empresas”, explica.  
Este modelo de gestão permitiria, na sua opinião, impedir “contaminações” financeiras entre os vários sectores da empresa.
“Embora todas estas actividades estejam incluídas no cluster do transporte aéreo, a verdade é que, pela sua natureza própria, cada sector merece um tratamento específico e independente de todos os outros porque, um problema de “infecção” numa das empresas do Grupo Sata, não contamina as outras”, esclarece.

História da Companhia
O Presidente da SATA, entre os anos de 1997 e 2007, foi um dos principais responsáveis pela implementação da SATA Internacional e explica as razões que levaram à expansão das rotas da companhia. Manuel António Cansado lembra que o crescimento da aérea açoriana registava um ritmo lento.
“O transporte aéreo inter-ilhas durante muito tempo ia crescendo de forma muito insípida e de forma muito reduzida. Esse crescimento era de mais ou menos 2%. De 1986 a 1996 foram dez anos que eu estudei e que me recordo. A SATA Air Açores nunca teve nenhum ano com crescimento de 5% de passageiros e a média andou pelos 2,5 a 3%”, explica.
Ora, este transporte aéreo era considerado à época como tendo um preço demasiado elevado, facto com que o antigo Presidente do Conselho de Administração diz concordar. Para fazer face a este problema, Manuel António Cansado explica o pensamento por detrás da expansão da companhia.
“Podia ser mais barato de duas formas. Ou o esforço colectivo, os subsídios, eram maiores e esse não é o caminho, não é saudável ou então, a SATA Air Açores aumentava a sua capacidade para diluir custos fixos e por essa via baixar as tarifas”, sustenta.
Mas para alcançar este objectivo de abaixamento das tarifas aéreas era necessário criar novas rotas, António Cansado revela o pensamento que sustentou a criação da SATA Internacional.
“Faltava mercado. Se não temos mercado aqui nos Açores temos de ir buscar e como eu disse centenas de vezes, temos de ir buscar o mercado aos dois lados do mar. Tenho que ir buscar mercado aos Estados Unidos da América e Canadá e, preferencialmente, a Lisboa e ao Porto”.
Depois de implementada e sustentada a ideia por detrás da expansão da companhia, o antigo Presidente da SATA explica os passos seguintes que tiveram de ser dados e enaltece os bons resultados alcançados logo no primeiro ano da operação.
“As ligações com o continente estavam concecionadas à TAP e de tempos a tempos, porque era serviço publico, o Estado português tinha que lançar um concurso internacional. A SATA apresentou-se a concurso e ganhou o concurso nas rotas Ponta Delgada/ Lisboa, Ponta Delgada/Porto e Ponta Delgada/Funchal. A partir daí e logo no primeiro ano, na linha Lisboa/PDL que foi em 1999, o acréscimo de trafego foi de 17,7%”, aponta.
António Cansado refere igualmente que os bons primeiros resultados destas rotas para o exterior da região, reflectiram-se também nas contas da SATA Air Açores que faz as ligações inter-ilhas.
“O impacto que isso produziu aqui nos Açores foi que logo nesse ano, a SATA Air Açores por força dos passageiros que vieram para São Miguel, experimentou uma subida de passageiros de 13,3%, quando a média anteriormente era de 2,5 a 3%”, enaltece.
O antigo Presidente do Conselho de Administração da companhia aérea açoriana diz ainda não perceber a razão pela qual as tarifas aéreas continuam a ser tão altas.
“Continuamos a ter o transporte aéreo inter-ilhas cada vez mais caro e isso aí eu não percebo. Atenção é quase o triplo das indeminizações compensatórias e as tarifas não baixam, não percebo”, frisa.
António Manuel Cansado lembra também que a Companhia deu lucros durante 10 anos até ao ano de 2008.
“O saldo foi positivo ao ponto de, no final de 2008, a tesouraria da SATA ter tido 43 milhões disponíveis e as dividas a fornecedores estavam todas em dia, não havia cativações. Havia provisões e a empresa estava saudável”, esclarece.
Para o ex-Presidente da SATA e perante a actual situação financeira porque atravessa a companhia, as razões pelos maus resultados devem-se a algumas más indicações dadas pelo principal accionaista, o Governo Regional e por alguns erros de planeamento e de gestão nos últimos anos.
“A escolha da frota inter ilhas aconteceu. Aviões novos, porque a SATA estava muito bem e porque aquilo era uma coisa muito fácil. Olhe, as indeminizações compensatórias estão no triplo e os aviões são novos. Na minha opinião não foi uma escolha adequada e, no caso da SATA Internacional, começou-se a facilitar muito, começaram a fazer tentativas para aqui e para ali e, asneira das asneiras, apostou-se numa avião que não é nada adequado para a rede da SATA, o Airbus 330”, afirma.
Sobre a escolha desta aeronave em concreto, António Cansado deixa ainda algumas das perguntas que pretendia ver respondidas.
“Quando é que termina o compromisso da SATA como os 330? De quanto era esse contracto leasing por 5 anos?”, questiona.

Entendimento entre as companhias de aviação 
Para o ex-Presidente da SATA a solução para a resolução dos problemas da companhia terão de passar, numa primeira fase, pelo abaixamento do valor da dívida da empresa e para além disso, também por uma concertação entre os Governos da República e dos Açores (accionistas maioritários da TAP e SATA, respectivamente) no sentido de se criarem planos estratégicos em sintonia entre as duas companhias. 
“Devia haver concertação. É uma questão de utilização racional de meios que pertencem ao Estado”, diz. 
António Cansado avança nesta ideia e deixa alguns exemplos de como as duas companhias não funcionam de forma concertada.
“Tem de haver um entendimento e não dá para perceber quando surgem notícias avulsas de que à 5ª feira vai voar para Boston e à 6ª vai para Toronto. Como assim? Não seria muito mais logico se a TAP, já que voa para Nova Iorque, fazer também Ponta Delgada/Nova Iorque em substituição da Delta que esteve aqui, teve lucro, mas achou que era pouco”, afirma. E mostra tristeza perante a situação complicada em que vive a SATA e realça a dificuldade de gerir uma empresa de aviação.
“Na aviação a gestão é sempre no fio da navalha e a gestão de uma companhia de aviação tem de ser feita de uma forma muita austera porque as margens são extremamente esmagadas e uma pequenina distracção significa milhões de prejuízo. Isso tudo somado deu no que deu e na desgraça que estamos a viver”, realça António Cansado.       

 Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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