12 de julho de 2020

Coisas do Corisco

A reconquista dos desertos no planeta (IV)

 

A maioria dos  desertos existentes no planeta, não apareceram por mero acaso mas porque, paulatinamente, o homem foi contribuindo para o seu aparecimento,  fruto da sua ganância e repentismo  na produção  agrícola em terrenos que, despidos das suas florestas, tinham camadas aráveis muito finas e sem a matéria orgânica  exigível.
Assim, o dramatismo  da desertificação, prende-se essencialmente  com a falta de cuidado e de planificação que tem que haver com  a condução e conservação dos solos, e a velocidade com que o homem exige que a terra produza.
Por exemplo, quando fui para o Canadá, nos finais dos anos sessenta, depois de terminar o meu curso, para estagiar nos viveiros florestais de Midhurst, na província de Ontario, notei com imensa surpresa que,  sendo o Canadá o terceiro maior país florestal do mundo, com 245 milhões de hectares de florestas, plantava todos os anos dezenas de milhões de pequenas árvores, nascidas no viveiro onde estagiei, para se replantarem  milhares de hectares de terrenos que foram arroteados, e que por serem  delgados, ligeiramente arenosos, e com pouca matéria orgânica, colaupsaram  com a sua exploração  maciça de tabaco.
Aquilo que contemplei de perto, foi que a produção intensiva de tabaco no Sul de Ontario, entre Hamilton e London,  causava a desertificação daqueles terrenos que foram desflorestados com pouca espessura arável, estavam a transformar-se em areia. 
Também vi algo semelhante, na província de Benguela, em Angola, onde as suas importantes e grandes manchas florestais à base de acácias praticamente desapareceram para o fabrico de carvão, principalmente durante a guerra civil angolana, e onde os seus terrenos, basicamente compostos de areia, sem a protecção  das acácias, se tornaram na extensão desértica  que hoje liga a província de  Benguela à de Namibe.
Ao contrário do Canadá, as acácias em Benguela desapareceram e o reflorestamento natural não existiu, resultando que sem água  a sementeira natural, foi praticamente difícil ou inexistente.  
Poder-se-á, assim dizer que,  em África os desertos surgem quase espontaneamente, fruto do abate disparatado dos arvoredos de certas regiões, do descuido do imperioso repovoamento florestal, assim como da falta de água de rega. 
Contudo a esmagadora maioria dos desertos africanos, e mesmo os de outras regiões do globo, podem dar lugar a zonas bastante produtivas ou grandes florestas, desde que a água, de uma forma ordenada apareça para rega.   
É um facto que os terrenos muito leves e muito arenosos, desde que regados, tornam-se em terrenos excepcionais para produções várias. Por  exemplo as hortícolas, os pomares pouco exigentes em água, como palmares entre outros, e até mesmo cereais e muitos pomares de frutos tropicais, batata, e trigo.
Em resumo, tudo se produz em terrenos arenosos delgados, desde que haja água abundante para rega. Quanto às superfícies desérticas de areias mais espessas e profundas, essa reconversão poderá ser feita com plantações de árvores que com água de rega facilmente tornarão desertos em pomares de frutos próprios para zonas de muita luz e sol, em regadio, daí a substituição do deserto, sendo lenta, é possível em faixas que se irão sobrepondo umas às outras até cobrirem todo o deserto que se pretende reconquistar para a silvicultura, ou para a exploração agrícola. 
África tem rios muito longos e com caudais imensos, sendo apenas necessário o aproveitamento de parte desse recurso que corre sem utilidade para o mar.
Aquilo que é a grande e incontroversa realidade, é que a água é um bem precioso que temos no mundo, daí dependermos inexoravelmente dela para vivermos. É, portanto, um bem universal que a todos nós pertence e obriga  preservar e proteger, sem a poluir, mantendo-a pura e cristalina.
Assim, nasce a obrigatoriedade de, subsidiando ou não, o nosso Governo repor urgentemente, as espécies florestais necessárias, onde nascerão naturalmente as turfeiras que existiam e eram os nossos grandes mananciais de abastecimento dos nossos valiosíssimos lençóis freáticos, e das nossas ribeiras que hoje secam quando as chuvas diminuem. 
O nosso Governo, guloso, tem que se consciencializar, de uma vez para sempre, que lhe compete a obrigação de repor o disparate que foi destruírem-se as condições que tínhamos outrora com a proliferação das nossas turfeiras, agora desaparecidas pela ganância dos subsídios para a implantação de pastos manhosas, de duvidosa produção.
E não serão os tanques enormes para retenção da água das chuvas que vão  saciar e resolver o problema  gado pela falta de água já existente.
Tenha-se a coragem de repor, enquanto é tempo, aquilo que levianamente se consentiu suceder, e a natureza, com a sua natural habilidade recompor-se-á, para nosso contentamento.
Quanto ao resto o Alqueiva veio provar que  Portugal tem que construir muito mais barragens que  nos trarão a água necessária para com, o nosso clima e a luz que o nosso sol promove, nos tornarmos num país agrícola riquíssimo.
Finamente em relação aos desertos existentes, principalmente em África  e na Ásia Menor, bastará deitar mão  a parte da imensidão de água que escorre a cada segundo para o mar para fixar a sua gente, e produzir em abundância o que necessita para comer.
Haja, portanto,  entre ajuda dos povos, dos países e dos investidores, para capturarem na imensidão dos caudais dos seus rios e lagos aquilo que necessitam para viverem com decência.
 

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Categorias: Opinião

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