Misericórdia da Ribeira Grande homenageia Arte Maria Elvira Machado Melo e cria uma Galeria de Arte com o seu nome

Maria Elvira Machado de Melo, antiga Mesária Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande, foi simbolicamente homenageada por aquela Instituição, ao reunir numa das salas do seu edifício sede inúmeras pinturas que ela ofereceu à Misericórdia, trabalhos de arte levado a cabo ao longo dos anos.
A Galeria de Arte Maria Elvira Machado Melo, assim se passou a designar aquele espaço. É um agradecimento representativo e de grande significado para a Misericórdia, pois é um justo preito de gratidão pelo seu intenso trabalho em prol da Santa Casa, que serviu desde 1995 até 2016.
Dona Elvira, como é de todos conhecidos, é uma figura marcante na Ribeira Grande para muitas gerações e esta Galeria de Arte faz jus ao seu talento no âmbito da pintura, mas é conhecida sobretudo no âmbito da educação, tendo sido professora de muitos alunos, pois apesar de se ter reformado em 1993, com 66 anos de idade e 43 de serviço, continuou a dar explicações até 1999.
“Brincos de noiva” assim se poderá apelidar o último trabalho de pintura que a nonagenária ofereceu à Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande e que mostra bem que apesar da provecta idade, ainda demonstra a sua destreza em conseguir pôr em tela as mais belas flores que se espalham pelos jardins desta ilha e que passou a integrar a Galeria de Arte com o seu nome.
Se, em 1953, foi louvada pela colaboração que prestou na Campanha Nacional de Educação de Adultos, em Junho de 1995, foi agraciada com o Grau de Comendador da Ordem da Instrução Pública pelo então Presidente da República Mário Soares, numa demonstração pública de uma carreira ao serviço da educação que durou meio século, pois dedicou-se, de alma e coração, ao ensino tanto no oficial, como no particular e a dar explicações.
Maria Elvira Machado terminou a quarta classe com 10 anos, por ter transitado de 1ª. para a 3ª. classe e, após dois anos, foi ajudar na escola, a sua professora, Maria Josefa Tavares Gamboa, tomando conta de uma das classes e ela da outra, com o objectivo de ser regente escolar, o que só poderia conseguir quando atingisse os 18 anos.

O amor pela escola

Dona Elvira nunca se cansa de atalhar que tem sempre presente na mente uma expressão de seu pai, já no fim da sua vida: “Foste para a escola aos 5 anos e ainda não estás farta?”, o que mostra bem que durante a sua longa vida nunca se cansou da escola e de ensinar matemática a quem dela se abeirava.
Por sugestão da professora, fez exame de admissão ao Liceu Antero de Quental aos 15 anos e daí por diante nunca mais parou. Fez o 3º. ano aos 18 anos e com 23 anos o 6º. ano, ingressando no ano seguinte no Magistério Primário.  
Nesse mesmo ano, com a ajuda da amiga Drª. Antonieta Pimentel, usando os seus livros e estudando com ela, completou o 7º. Ano Complementar de Ciências porque gostaria de ter o Curso Superior de Matemática mas, não sendo possível, porque os seus pais precisavam que ela ganhasse (tinham 8 filhos sendo ela a segunda filha e os recursos económicos eram poucos). Completou então, em 1950, o Curso do Magistério Primário.
Nesse ano, ficou colocada, como agregada, na escola da sua freguesia natal, a Ribeira Seca da Ribeira Grande.
Recorda que naquele tempo, enquanto agregada, não se ganhava nas férias grandes, o que a levou a concorrer para efetiva, o que conseguiu logo ao fim do 1º. Ano lectivo, ficando depois a exercer as funções nas seguintes localidades: - 3 anos na Lombinha da Maia; 2 anos no Pico da Pedra; 2 anos na Ribeirinha; 8 anos novamente na Ribeira Seca; 6 anos na Ribeira Grande e 1 ano nas Escolas Anexas, Ponta Delgada.
Depois, começou a leccionar no Ciclo Preparatório, na Escola Gaspar Frutuoso, desde o ano de 1972, até 1993, com excepção do ano lectivo 1975/1976 quando fez estágio na Escola Roberto Ivens.
A sua paixão pela matemática vem de longe e no ano lectivo de 1971/1972, em acumulação, dei aulas de Matemática na Escola Secundária da Ribeira Grande.
De salientar na sua vasta carreira de docente, de 1954 até 1975, em acumulação, foi professora no Externato Ribeiragrandense, de boa memória, onde leccionou: - Matemática do 1º. ao 5º. ano durante 21  anos; Física/Química de 1964 a 1975 e, na falta de professores, durante alguns anos ainda leccionou Ciências da Natureza e Desenho ao 5º. Ano.

A Matemática sempre presente

No intuito de procurar saber sempre mais e progredir na sua carreira académica, foi até Lisboa no ano de 1962, onde fez o estágio de Matemática, durante 3 semanas, seguido do respectivo exame, no Liceu Pedro Nunes, a fim de obter o diploma do ensino particular.
Passou também por funções directivas, onde se destaca os 3 anos na Escola da Lombinha da Maia; 8 anos na Escola da Ribeira Seca e 7 anos na Escola Preparatória Gaspar Frutuoso. Nesta Escola, foi ainda delegada da disciplina de Matemática a maioria dos anos que lá leccionou.
Em termos de cidadania, Maria Elvira Melo sempre foi muito activa e depois do 25 de abril emprestou o seu nome para integrar as eleições para as autarquias locais, numa demonstração clara do seu sentido de serviço comunitário, postura que lhe vem desde os tempos de menina e moça.
Foi desta forma que sempre entendeu a vida e o seu contributo também se estendeu à Paróquia de S. Pedro, onde foi catequista. Colaborou ainda, vários anos, nos bazares das festas de S. Pedro e Coração de Jesus e foi Vicentina nos anos que foi professora na Ribeira Seca e, após a sua aposentação continuei a sê-lo.
Desde Julho de 1995, foi Vogal da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande, despendendo todo o tempo, conjuntamente com os outros membros da Mesa, na resolução dos actos de gestão dessa secular Instituição. 
Nessa qualidade, fez parte nas Equipas Multidisciplinares no Conselho Local de Educação, nas Escolas Integradas da Ribeira Grande e Rabo de Peixe e na Escola Secundária da Ribeira Grande o que a fazia viver e ajudar os problemas sociais de vários alunos, sentindo-se sempre útil no campo de Educação das Crianças, no meio das quais sempre conviveu.
Além desta vasta acção no campo profissional e social, não descurou, de modo algum, a família de que foi e é muito amiga e principalmente dos seus saudosos pais que, após a partida da sua irmã para o Canadá, só contavam com ela, o que se prolongou por cerca de 30 anos, até ao fim dos seus dias, dando-lhes todo o apoio e carinho, cuidando deles sozinha no tratamento de roupa, alimentação e o mais que necessitavam, rodeando-os de todo o conforto, contribuindo para que tivessem alegria relativa de viver, tendo em conta os seus achaques. 
Apesar da sua idade, Maria Elvira Machado Melo ainda escreve com destreza preparando o seu novo livro, desta vez sobre a matemática. Há precisamente 2 anos, editou as suas memórias no Teatro Ribeiragrandense, que se encheu de muitos dos seus antigos alunos para acompanhar a sua professora na realização de um sonho.
A Galeria de Arte Maria Elvira Machado Melo é um legado que esta ribeiragrandense deixa e que a Misericórdia pretendeu fazer perdurar no tempo, como exemplo vivo de uma cidadã que exerceu intensamente o voluntariado e sempre esteve ao serviço da comunidade que a viu nascer.                                        

AC
 

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Autor: CA

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