12 de julho de 2020

Dos Ginetes

Giorgio e Chiara Molteni

Neste dia vou dedicar a minha crónica a um simpático casal que escolheu a nossa terra para construir um futuro que apesar de todas as dificuldades que nos afligem neste tempo de pandemia não lamenta a escolha que há meia dúzia de anos fizeram de investir num belíssimo restaurante mesmo em pleno Centro dos Ginetes vocacionado para a pizza italiana até então um pouco desconhecida entre nós no formato que adoptaram mas que hoje goza de excelente reputação “O Sole Mio”.
 Chegaram aos Açores em 2015 embalados por um sonho que se tornou realidade e que ainda hoje permanece, graças a um trabalho minuciosamente preparado, com base na disciplina, no respeito pelas leis que vigoram no nosso país e possuidores de muita honestidade. São gente que não nasceu nesta terra com as mesmas tradições da sua Itália de origem mas facilmente se adaptou à nossa forma de viver não escondendo o amor que dedicam a este cantinho dos Açores que consideram um paraíso onde é bom viver pela tranquilidade que se respira, mesmo se para nós os mais idosos que aqui nasceram já não é exactamente como outrora. Apesar de tudo o que possa transpirar de negativo, na generalidade somos uma Comunidade pacata ao contrário do espírito revolucionário, alimentado pelo crime, desejo de vingança e loucura quanto basta que está a tomar conta de um mundo cada vez mais escasso de princípios que se perderam em nome de um futuro supostamente evoluído mas na realidade carente de alguma disciplina e até de muita honestidade. Nem tudo é mau, da mesma forma que nem tudo é bom. Na nossa terra sentimos hoje muitas vezes falta de algum equilíbrio para respirar esse ar puro que no passado nos envolvia.
     Escolheram os Açores pela tranquilidade e beleza mas também, sendo um casal ainda jovem vocacionado para o mundo da restauração, decidiram investir nesta terra pois a mesma começou ainda há relativamente poucos anos através da Ferraria a mostrar ao mundo a beleza natural que nos envolve o que contribuiu para atrair muita gente. 
Em 2016, pouco tempo após a inauguração da pizzaria “O Sole Mio”, dediquei-lhes uma crónica o que na altura me proporcionou facilmente descobrir tratar-se de boa gente “apaixonada” por este cantinho dos Açores. Na passada semana, devido sobretudo a este clima de incerteza que está a tomar conta sobretudo do mundo empresarial mas que acaba por se reflectir no quotidiano do cidadão fui visitá-los curioso de escutar as suas opiniões e como têm gerido o seu negócio neste momento difícil para todos. Sei que se prepararam muito bem para esta aventura pois recordo o que no início me disse o senhor Giorgio “não vim para fazer concorrência a quem quer que seja, quero apenas apresentar o que na realidade sei fazer”. E é verdade que tem sido desta forma a funcionar, certamente o que permitiu obter algum sucesso.
Apesar de uma baixa significativa da clientela, talvez à volta de 70% relativamente ao último ano continuam firmes e confiantes que tudo ficará bem e por tal esperam um regresso à normalidade mesmo se, como todos bem sabemos, impossível prever o momento exacto. Estão orgulhosos dos empregos que aqui criaram para um pequeno grupo de jovens que a senhora Chiara orgulhosamente chama de “suas meninas” pois já estabeleceram um clima de confiança ao ponto de deixar à responsabilidade das mesmas, em algumas ocasiões, a responsabilidade total da pizzaria sobretudo quando têm de se ausentar por razões pessoais. É bonito ouvir tal testemunho que demonstra muito respeito pelas jovens mas também, o que é importantíssimo, as motiva para um melhor desempenho de uma tarefa em que o sorriso obrigatoriamente tem de estar presente. 
Nos últimos meses, tal como outros, tiveram de trabalhar no sistema “take away” até o Governo dos Açores autorizar a abertura ao público dos restaurantes. Tive a oportunidade de ocasionalmente recorrer a tal serviço que, ao contrário do que muitas vezes sucede entre nós que vivemos nesta terra, a pontualidade sempre fez parte do compromisso assumido o que contribui para a satisfação do cliente. Como dizemos em linguagem popular “horas são horas” e estas são para respeitar. 
     Desde o início sempre foram muito bem aconselhados e sobre tal não têm qualquer receio em reconhecer o esforço e amabilidade que lhes foram prestados desde que chegaram aos Açores. Por experiência própria sei que não é fácil iniciar uma vida nova num país com uma cultura diferente daquela em que nascemos, mas se encontramos alguém que nos dedica um mínimo de atenção tudo se torna mais fácil. Foi exactamente o que por cá encontraram o que pessoalmente me regozija.
Têm um casal de filhos ainda muito jovens, com 10 e 12 anos, perfeitamente integrados na Escola. São alunos distintos que dominam perfeitamente a nossa língua.
     Neste momento que ficará marcado negativamente na história da humanidade sentem-se afortunados e por isso felizes por viverem nos Açores. 
Projectos ainda têm mais pois sonham na possibilidade de um dia expandir o seu negócio porque conscientes da existência de outros locais que eventualmente podem atrair uma importante clientela. São excelentes embaixadores dos Açores quando ocasionalmente visitam o seu país natal.
Obrigado a eles por mais uns momentos de diálogo sem nenhuma pretensão da minha parte além daquela de dar a conhecer essa gente já “muito nossa”.
 A espontaneidade e sorriso contagiante da senhora Chiara à mistura com uma amabilidade sincera manifesta no olhar de um homem “grande” como o senhor Giorgio que igualmente nos cativa não deixa quem quer que seja indiferente. A eles desejo pessoalmente, porque ninguém represento além da minha insignificante pessoa, as maiores felicidades e que continuem entre nós, a dar trabalho a jovens desta terra que tanto necessitam, mas também a demonstrar que é possível alcançar o que por vezes muita da nossa gente teima em não acreditar. 
Obrigado por terem escolhido a nossa terra para a realização do vosso sonho. Espero que muitos mais se concretizem pois para vencer é necessário primeiramente acreditar e eu sei que acreditam porque também souberam escolher as pessoas certas tão necessárias quando vivemos num país que não o nosso. Já há muito vos adoptámos como gente nossa esperando que continuem a sentir o que descortinei no vosso olhar manifesto no pequeno diálogo que nos ocupou alguns instantes e que não é mais do que uma alegria verdadeira de viver neste pequeno cantinho dos Açores.
Obrigado pela vossa coragem e pela visibilidade que igualmente deram a esta terra dos Ginetes. 
 

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Categorias: Opinião

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