14 de julho de 2020

Arquitectura LXXV

A agressiva orografia, que abriga também, determinava as possibilidades de implantação dos aglomerados urbanos, estruturados por vias que se implantam onde o relevo as permite, salvaguardando as fajãs, propriamente ditas, para a produção agrícola e pecuária, localizando-se a cotas altimétricas que os salvaguardassem das tempestades e correspondentes investidas do mar.
Por isso, era assim; os dois aglomerados desenvolviam-se ao longo da linha que desce lá do alto e num primeiro momento, estrutura a Fajã Grande, e depois seguia entre o penhasco e os campos de cultivo e pasto, até atingir cotas confortáveis para aí estruturar o segundo aglomerado a Ponta da Fajã, ambos ao arrepio do mar.
Os parcos meios, determinavam um forte respeito pela natureza, na sua salvaguarda e dos próprios bens, destrinçando a habitação da produção, quando ainda eram desconhecidas férias e segundas habitações.
Com outros meios, quer técnicos quer materiais, esquecemos rápido esse respeito, que poderíamos e devíamos ter conservado, e por isso de vez em quando, somos chamados à pedra, mas pouco nos importa, e se a Fajã Grande se manteve até aqui há pouco, nas suas condições ancestrais, a percepção das suas óptimas condições de veraneio, logo que houve condições económicas, iniciaram a sua expansão sem critério; enquanto a Natureza, onde mais inóspita vai ainda, salvaguardando a Ponta da Fajã.
O primeiro prevaricador, construindo isolado entre os dois aglomerados, deixando forte marca, foi um dos presidentes da Câmara, que tal como o seu vizinho do Corvo, construiu no domínio público marítimo, sem que alguém disso os tenha demovido, ou mesmo impedido.
Num segundo momento, confortáveis pelos exemplos, outros, entre eles outro presidente, foram construindo já fora do aglomerado, polvilhando campos, numa proliferação de más arquitecturas, apenas condicionadas pela forma do terreno de implantação onde se encavalitam, sem relação entre elas, mas todas, certamente de acordo com o PDM(!), que admite toda a área como urbana ou urbanizável, deixando-nos mais à vontade...
Num terceiro momento, a pressão do turismo que desde há pouco se faz sentir, destempera tudo ainda mais, e aí vai disto:
- Constrói-se a marginal a cotas enxovalháveis!
Não era por acaso que no tal respeito pela Natureza, não existia, mas o mar não perdoa, e destrói o que pode, chama-nos à pedra, deixando um monte de entulho como lembrança.
Encolhemos os ombros, e uma qualquer verba da UE, há-de repor o disparate.
Descendo a encosta até à marginal, sem critério, perante o contentamento do Município e o alheamento do Ambiente e Turismo, amontoam-se as segundas habitações, para receber os turistas, num cartaz muito pouco edificante, por descontrolado, onde as arquitecturas encontradas reforçam o desconsolo, matando a identidade da fajã, quando sabemos que nem a muito boa arquitectura resgata o erro urbanístico, quanto mais a má.
A assinalável, coerência que o conjunto urbano apresentava, e se reflectia nas qualidades do sítio, reforçadas pela excelência da sua tranquilidade, perderam-se, deixaram de interessar para ficarmos rendidos ao número de camas, onde mais nada interessa, como numa qualquer zona medíocre de expansão urbana, onde os tiques da densificação já estão presentes.
A incapacidade de percepção das qualidades urbanas e ambientais do lugar, obrigatoriamente a manter na sua recondução pelo valor de que se revestia, conduziu à ocupação imediata, sem estudo, sem critério, sem avaliação do impacto que o desordenamento rapidamente dita, e subjuga à vulgar mediocridade, porque a ganância não se apraz com a qualidade dos lugares.
Muito perto, e ainda salvaguardada pela sua própria localização, que pouco espaço deixa à fúria gananciosa do turismo, a Fajãzinha é um exemplo a respeitar, onde qualquer intervenção terá que ser criteriosa, porque, como refere o arquitecto José Manuel Fernandes, na mesma publicação da citação introdutória:
...”A mais original e bela é sem dúvida a Fajãzinha, espraiada num amplo vale, aberta a poente e recebendo as várias cascatas dos penhascos envolventes - num pequeno mas espectacular núcleo edificado com claro valor de conjunto.”...
Também muito próxima, localizada entre a Fajãzinha e a Fajã Grande, a aldeia da Cuada, responde aos valores do sítio; reabilitada a partir da sua ruína, constitui um exemplar único da percepção e avaliação das qualidades urbanas, arquitectónicas e ambientais que lhe foram preservadas, indutoras do programa e conceito aí instalados, porque só assim, se defende a identidade dos lugares, como é o caso.
A relação entre a natureza e a construção é decisiva na arquitectura, na relação com o lugar, e sempre foi assim ao longo da história, mas hoje, posta de lado, substituída por quaisquer números, abandonou as preocupações do projecto, como se a construção, tantas vezes vinda de muito longe, sem qualquer relação com o sítio, pudesse, ou devesse, ser servida de bandeja.
Bem podia ser diferente... e, então até teria direito ao rótulo “Certificado pela Natureza”.

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Categorias: Opinião

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