14 de julho de 2020

O sonho de Ícaro

No átrio do primeiro andar da Residência Oficial do Presidente da Assembleia da República, situada no Edifício Novo anexo ao Palácio de São Bento, havia, no tempo em que lá morei, um vitral, iluminado com luz artificial, representando Ícaro caído, certamente moribundo, esmagado sob o peso das asas que tinha colado às costas, na mira de conseguir voar... Julgo que se tratava de um trabalho de Almada Negreiros, escolhido pelo responsável pela decoração da casa talvez para lembrar aos sucessivos habitantes que subir muito alto comporta sempre o risco de aparatosa queda.
O mito de Ícaro é bem conhecido e vem desde a mais remota Antiguidade. Todos participamos afinal do desejo de voar, de superar as distâncias com rapidez e segurança. E até há pouco tempo certo é que o transporte aéreo se generalizou, tornando-se acessível a muitas pessoas, sobretudo desde que iniciaram operação as companhias chamadas low cost, isto é , praticando preços baixos. O grande crescimento do Turismo na Região Autónoma dos Açores está muito ligado à entrada em cena dessas companhias, aparentemente imposta pelo Governo da República no tempo do Governo Passos e Portas, sob influência do então líder do PSD/Açores, Duarte Freitas.
Acontece, porém, que agora, mesmo com preços baixos, os turistas desapareceram. Viajei há dias, de Ponta Delgada para Lisboa, num vôo da TAP quase vazio, com uma tripulação de cabine que não voava há quatro meses; e já fui prevenido que para o regresso vai haver cancelamentos, presumivelmente por falta de reservas, apesar de o ter planeado para os últimos dias de Julho, altura em que seria previsível haver até muitos visitantes a caminho das nossas Ilhas.
Quer-me parecer que as pessoas estão assustadas com a pandemia e muitas ficaram sem dinheiro ou pelo menos com pouca vontade de o gastar, tantas são as incógnitas que se acumulam, toldando o futuro próximo. A paragem da actividade económica, resultante da política de confinamento, salvou muitas vidas, mas tem um custo elevado em termos de riqueza produzida e de rendimento distribuído. Ainda por cima, os apelos para a retoma não estão a encontrar o eco desejado e por isso a recessão ameaça tornar-se profunda, segundo alguns prognósticos, que oxalá estejam errados, vai ser mesmo pior do que a anterior crise, desencadeada pelos desmandos da governação do PS na era socratiana, que tanto fez sofrer no nosso País.
As dificuldades agora experimentadas pelas companhias de aviação verificam-se em todo o Mundo. Em Portugal, o Governo da República avançou para uma espécie de nacionalização camuflada da TAP, sob aplauso dos partidos de extrema-esquerda e a crítica generalizada de todos os outros e dos mais variados actores sociais. A questão não é só financeira, sendo embora impossível prever desde já quanto terá o Governo de desembolsar para pôr os aviões no ar outra vez...E isto vai depois reflectir-se no Orçamento e na dívida pública, portanto nos impostos que os cidadãos portugueses terão de pagar para esse fim e ao longo de quantos anos... Está já admitido pelos responsáveis governamentais que a empresa vai ser objecto de uma profunda reestruturação, implicando venda de aviões, encerramento de linhas e despedimento de trabalhadores. Eis um processo que não vai deixar de ter consequências sociais e políticas de extrema gravidade e o Governo está, como se costuma dizer, “nos cornos do touro”.
Com este panorama, não parece muito viável obter do Governo da República a aceitação da justa pretensão de se manter intocado o subsídio de mobilidade, destinado aos cidadãos oriundos das Regiões Autónomas, alterando apenas o método de pagamento, a ser regularizado directamente entre as Finanças e as companhias transportadoras. Isto apesar de o montante total em causa estar em fase de baixa por causa da redução das viagens entre as Ilhas e o Território Continental da República, circunlóquio para a designação mais simples e geográfica e historicamente inquestionável que seria Portugal, mas ainda susceptível de magoar alguns patriotas mais veementes. ( Deixei de usar o termo Continente desde que foi apropriado por uma cadeia de supermercados...)
Claro que se o Governo da República tivesse optado por deixar cair a TAP, como defendem algumas posições de inspiração neoliberal, caíam-lhe em cima muitos que agora o estão criticando por se empenhar em manter a nossa companhia de bandeira. Afinal, todos lá no fundo partilhamos o sonho de Ícaro e custa-nos não ter uma companhia nossa para voarmos...
Nos Açores enfrenta-se um problema parecido em relação à SATA. O Governo está com certeza a observar atentamente o evoluir do processo TAP, para tirar daí as oportunas lições. Conseguirá fazê-lo até às eleições regionais? Ou ficará o problema em agenda para quem as ganhar? Sobre a matéria, não faço nem aceito apostas.

(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo Ortográfico.)         

 

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Categorias: Opinião

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