16 de julho de 2020

Portas da Cidade serve de cavalete!

É triste, é doloroso e não é aceitável o que se está a passar em Ponta Delgada com o uso de Património Histórico considerado de Interesse Público pelo Decreto n.º 39175 de 17 de Abril de 1953, as Portas da Cidade, o ex-líbris de Ponta Delgada, S. Miguel e Açores.
Foram as Portas da Cidade construídas no tempo de D. Maria I, 1783, em pedra regional, composto por três arcos de forma perfeita, sendo o central o maior, com uma elegante cimalha constituída por elementos barrocos: as armas de Portugal e do Município de Ponta Delgada. Foi, até meados do século XX, a porta principal de entrada por mar, na cidade e na ilha. Por ela passaram os nossos emigrantes que ficaram imortalizados pelo Mestre Domingos Rebelo no seu quadro “Os emigrantes”, outro ex-líbris de Ponta Delgada, e figuras como: D. Pedro IV, D. Carlos e D. Amélia, Presidente da República Óscar Carmona, Rei Leopoldo (Bélgica), Príncipe Alberto (Mónaco), Charles Darwin entre outros.
Em meados do século XX, aquando da construção da Avenida, todo o complexo que existia a Sul da igreja de S. Sebastião – Matriz – e que incluía o Cais das Portas da Cidade e o Cais da Alfândega foram soterrados, todo o Pitoresco e História da cidade desapareceu para dar lugar a uma “Praça Pombalina”, que nada dizia aos habitantes de Ponta Delgada. Apesar de haver quem na altura defendesse a preservação de todo este complexo Histórico, também havia quem defendesse o seu aterro, incluindo a demolição das Portas da Cidade por acharem ser “uma velharia sem importância”. A Câmara Municipal, de então, decidiu o seu deslocamento 32 metros para Poente, onde se encontra actualmente na Praça Gonçalo Velho Cabral, a Norte. 
Preservando e deslocando as Portas da Cidade para lugar de destaque na referida Praça com o argumento de ser “em homenagem ao passado representado pelas Portas da Cidade”, conseguiu a Câmara o seu objectivo: justificar a construção da Praça, acalmando os que defendiam a preservação do espaço existente, pelo seu Pitoresco, pela sua História.
Estamos perante um monumento com 237 anos de vida, de História, testemunha de muitas alegrias e tristezas, de sucessos e insucessos, que representa e homenageia os Ponta-delgadenses, os Micaelenses, mas, também, o Povo Açoriano, que o reconhece e ri com alegria, ou chora, com saudade da sua terra, quando o vêem nos quatro cantos do mundo onde se encontre um Açoriano!
Estamos perante um monumento que, com o tempo, apresenta desgaste do material que o constitui e que precisa de cuidados na sua preservação, no seu uso. Não pode servir de cavalete, com cintas, envolvendo o frágil relevo da pedra ou furos para fixação de “apetrechos” contribuindo para a sua rápida degradação!
É este Monumento pertença do Povo e está ao cuidado da Câmara Municipal, que tem o dever e a obrigação de o preservar, respeitar a sua História, o que representa para a cidade, e isto não está a suceder, especialmente, nestes últimos três anos como é reconhecido por um elemento da administração Camarária ao afirmar: “desde há três anos que as Portas da Cidade são perfuradas e não há qualquer perigo”… Infeliz e preocupante afirmação! 
Será o Património um parente pobre de Ponta Delgada? Parece que sim, é ver como exemplo o abandono do nosso Património Militar dos séc. XV, XVI, XVII que recuperado valorizava, em muito, a nossa História, a cidade e a oferta turística!
“Não existe futuro para um povo que não preserve a sua memória”!

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Categorias: Opinião

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