Quebras de 80% na restauração da Calheta fazem com que seja difícil de esconder as marcas deixadas pelo confinamento “demasiado longo”

Tanto Francisco Branco como Gabriel Reis são proprietários de restaurantes localizados na Calheta, e ambos reabriram as portas para os seus clientes no passado dia 29 de Maio na esperança de que o pior tivesse já passado e de que os locais estivessem ansiosos por voltar a comer fora das suas próprias casas ou sem terem que recorrer ao take away.
No entanto, apesar de terem aberto assim que foi autorizado, ambos os empresários adiantam que o tempo de confinamento e de encerramento destes espaços foi “demasiado longo” tendo em conta o número de casos que foram detectados no arquipélago, prolongando o tempo em que se acumularam prejuízos e contribuindo em massa para o medo que hoje dizem notar nas pessoas.
Para o proprietário do TiXico, apesar de o final do mês de Maio ter sido “a altura certa” para começar a receber os seus clientes, tendo em conta que este é conhecido por fazer já parte da época alta, as expectativas ficam muito aquém mesmo já tendo passado um mês e meio depois da reabertura, mesmo sendo cumpridas todas as normas de segurança e higiene impostas.
“Estamos todos a cumprir com as regras que foram estipuladas em relação a todas as normas de segurança para que haja um serviço de excelência em termos de saúde e de higiene, e achávamos nós que íamos ter da parte do consumidor final ou do público em geral uma adesão à restauração, o que não se tem visto até ao momento”, conta, ressalvando que este é um aspecto reforçado pela ausência de turismo.
Neste sentido, assumindo a necessidade de haver mais cuidados do que antes, Francisco Branco é da opinião de que “esta pandemia está a ser um bocado exagerada” tendo em conta o número de pessoas que vieram a falecer por Covid-19 em relação ao número de pessoas infectadas e que, entretanto, recuperaram da doença.
No fim de cada dia, refere, a conclusão a que rapidamente se chega ao passar-se pelos restaurantes que pouco mais do que o mobiliário exibem na hora das refeições é que “as pessoas estão com medo” e que, depois deste longo período de confinamento é difícil reverter a situação.
“Não é fácil retomar a confiança das pessoas porque o pânico foi de tal maneira infligido que agora, primeiro que saiam de casa é difícil. Enquanto as pessoas estiverem em teletrabalho ou por casa optam por não sair e deixam-se estar. Ou seja, para além do pânico que está instalado na cabeça das pessoas, há a parte comodista onde as pessoas optam por ficar em casa”, afirma.
Este comodismo, conforme lhe chama, resulta numa quebra do volume de negócios a rondar os 80%, algo que se traduz – em alguns dias – na confecção de cerca de dez refeições diárias, número que contrasta de longe com os números antes da pandemia.
Por outro lado, tem em conta que o facto de se ter mantido fiel à opção de take away ajudou a chamar alguns clientes, uma vez que houve um aumento dos pedidos neste domínio, ao contrário do que antes acontecia, e que o importante é “redimensionar o negócio para a realidade”. 
O maior problema, adianta, está no facto de não ser possível “vislumbrar uma recuperação mesmo que a quebra continuasse na ordem dos 50%”, diz Francisco Branco, e prossegue “se no mês de Julho havia alguma esperança, a realidade é que está a ser terrível, praticamente idêntico ao mês de Junho”.
Já no que diz respeito ao mês de Agosto, o empresário ligado ao sector da alimentação e bebidas adianta que as perspectivas também não são animadoras, uma vez que “há hotéis que não irão abrir no dia 1 de Agosto, outros que estão a adiar para dia 15 e outros que dizem abrir só em Setembro”.
Na sua opinião, o facto de a realização dos testes não ser obrigatoriamente realizada na origem traz alguns transtornos ao turismo, uma vez que “se a pessoa estiver positiva não chega a vir”, no entanto, em relação ao longo tempo de espera a que os visitantes se sujeitam enquanto aguardam em confinamento o resultado dos testes, diz que “não é altura de fazer críticas muito acérrimas”.
Num momento em que considera que todos os empresários “estão dentro da mesma bitola”, e não gostando de “falar pelos outros”, a realidade é que “numa altura destas em que vemos que a perspectiva para o ano é extremamente difícil porque as pessoas não estão a ir à restauração” é difícil pensar que todos irão conseguir sobreviver a esta crise, a menos que as pessoas aprendam “a conviver com a Covid-19”.
Deixa, no entanto, uma mensagem de esperança para todos os empresários ligados ao sector e não só, uma vez que tem a certeza de que melhores dias virão.

Dia de mais movimento chegou 
ao Gastrónomo apenas depois de um mês e meio da reabertura ao público

A cerca de 300 metros do restaurante TiXico está o restaurante O Gastrónomo, gerido por Gabriel Reis, que é também da opinião de que “nos Açores não havia necessidade de nos termos confinado tanto tempo”, uma vez que a pandemia ou o número de infectados não se vinha a manifestar na mesma escala que noutras regiões do país ou do mundo, trazendo “dois meses e meio de porta fechada e só de prejuízos”.
Quanto ao regresso dos clientes ao seu restaurante, a situação vivida n’O Gastrónomo é muito idêntica à que relata o TiXico, tendo em conta que também ali as pessoas “têm voltado muito devagar” e que as quebras na facturação rondam também os 80%, havendo uma maior aposta no take away quando em comparação com o período anterior.
Contudo, o dia de ontem foi para este empresário um “dia atípico” quando em comparação com o último mês e meio, chegando a servir cerca de 15 pessoas na hora de almoço mas, adianta, “em regra têm sido dias muito maus e basta passar nos restaurantes para ver isso. Aos jantares vemos seis pessoas a jantar, às vezes menos, e há alturas em que as salas não têm ninguém”.
Porém, conforme adianta Gabriel Reis, esta é uma realidade evidente para qualquer pessoa que passe no seu restaurante (e noutros também) naquela que seria a hora de maior movimento, o que por outro lado obrigou também a que se fizesse uma readaptação da ementa, ajustando-a quer às necessidades da procura, quer à carteira de quem ali chega.
“Aparecem clientes locais e agora direcciono mais o tipo de comida que sirvo para eles na hora de almoço, a denominada comida de panela, à moda antiga, desde as línguas à mão de vaca, à dobrada, às caldeiradas, ao arroz de lapas. Inovei sobretudo pelo facto de aos almoços ter mais clientes locais”, explica.
Assim, de momento, faz “comida mais barata e com ingredientes mais baratos”, uma vez que “na realidade local temos que nos adaptar quer no tipo de comida, quer no preço”, diz o dono do restaurante em questão.
Porém, tal como Francisco Branco, também Gabriel Reis é da opinião de que “as pessoas continuam com muito receio”, algo de que culpabiliza também a comunicação social, por esta ser responsável por “bombardear as pessoas com receios a qualquer hora e a qualquer minuto, sempre com um discurso muito negativo em relação a isto, e as pessoas de tanto ouvirem “fique em casa” têm agora dificuldades em sair”.
Diz ainda que no seu restaurante mais facilmente se depara com pessoas que pertencem a grupos de risco, chegando por isso à conclusão de que “são os que não pertencem a grupos de risco que mais medo têm, o que não faz nenhum sentido”.
Apesar de ter optado por não pedir apoios governamentais, o que significaria contrair dívidas, no seu caso, Gabriel Reis é também da opinião de que “mais um confinamento seria a machadada final” em muitas empresas, contrariando em pleno as “enormíssimas expectativas” que todos tinham para 2020.
O mais assustador, à semelhança do seu vizinho, é o facto de ser imprevisível perspectivar exactamente quando ocorrerá uma melhora da situação, algo que é agravado – no seu entendimento – por um conjunto de factores.
“Em primeiro lugar, Portugal está classificado neste momento como um dos piores países para se viajar, pese embora os Açores e a Madeira estejam fora dessa lista, conta o país para as pessoas.
Em segundo lugar, mesmo que as pessoas optem por vir para os Açores por ser um sítio seguro, inibe um pouco as pessoas a questão de trazer ou não trazer teste ou de aguardar por resultados. É assim que funciona, mas são factores que contribuem para as pessoas não virem cá, e por fim fala-se muito na segunda vaga, o que também não ajuda”.
Assim, contrariamente ao esperado, o ano de 2020 é “um ano totalmente perdido e, para muita gente, há-de ser o último ano, e nem eu sei se vou fechar ou não”, conclui.
 

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima