18 de julho de 2020

Cesto da Gávea

Flops do Atlântico

A internet e as redes sociais tomaram conta das relações humanas a tal ponto que a própria linguagem incorporou termos, na sua maioria de origem inglesa, tornados de uso corrente em várias línguas. O português, com especial relevo para o que se fala no Brasil, não escapou à moda, aportuguesando -- ou abrasileirando, conforme se queira – expressões ou palavras estrangeiras. Aconteceu assim com “flop”, substantivo significando falhanço ou fracasso, dando “flopar” no modo verbo. Os jovens portugueses do milénio, habituados à terminologia anglo-saxónica dominante no ciberespaço, usam correntemente o substantivo, embora raramente o verbo, mais usual no Brasil. Qualquer que seja a forma, o tempo e o modo, a verdade é que ninguém deseja ser um flop, ou contribuir para a sua materialização. No entanto, provavelmente pela rapidez das mudanças que ocorrem constantemente, flops são o que não falta, em Portugal e no mundo, incluindo as nossas ilhas.
Falando de ilhas, é impossível não falar de mar e da Zona Económica Exclusiva, matéria vasta em cobiças, polémicas político-jurídico-constitucionais, confrontos partidários e, sobretudo, poderosos interesses mais ou menos ocultos. O Prof. Carlos Amaral, meu antigo colaborador na Universidade dos Açores e hoje nela responsável pela cátedra europeia Jean Monnet, publicou há dias neste jornal um pertinente artigo que, por envolver o mar e a Universidade, merece reflexão. Referindo a proposta de plano estratégico de recuperação nacional, qualificado oportunamente de “salvífico da Portugalidade” (que foi elaborado pelo Prof. Costa Silva, ex-Presidente da Partex Oil & Gas, a convite do Primeiro-Ministro António Costa) Carlos Amaral sublinhou, entre outras considerações óbvias, “ser particularmente curiosa a proposta de criação de uma nova universidade no país: a Universidade do Atlântico, envolvendo os Açores e a Madeira”. Esta ideia, aparentemente peregrina, traz em minha opinião muita água no bico, desta vez bem salgada, por se tratar de mar. Como bem preveniu Carlos Amaral, tal só será possível com a extinção das Universidades dos Açores e da Madeira, talvez procedendo à sua fusão, ou transformando-as em polos da dita do Atlântico. Já agora, com um reitor americano ou eventualmente tailandês, para atrair o capital asiático, do tipo daquele que papou a Partex de Costa Silva. As reações a esta parte da “salvífica” proposta não se fizeram esperar, destacando-se a do ex-Presidente do Governo Regional Carlos César, Deputado da República, agora Presidente do PS nacional, que não hesitou ao afirmar que o mar “vale todas as batalhas”, salientando a necessidade de reforçar as “competências instaladas das universidades insulares”, afastando-se da proposta-flop aventada por Costa Silva. Parafraseando Carlos César, embora ele se referisse a outro personagem do centralismo lusitano… para flops, chega de “zeladores do reino”.
De resto, nestas questões do mar e da extensão da plataforma marinha, há muito tempo que os docentes/investigadores da Universidade dos Açores vêm ajudando a solidificar uma linha consistente de defesa do interesse próprio, com isto acautelando a projeção atlântica de Portugal. Em 19 de abril de 2015, na secção UAciência da revista “Açores”, a Profª. Helena Calado, docente da nossa Faculdade de Ciências e Tecnologia, a que atualmente preside, publicou um artigo intitulado “Espaço Marítimo Nacional - A Academia no Debate das Políticas Públicas, onde detalhou (e cito) “ o crescente interesse suscitado pelo debate em torno das potencialidades dos espaços marítimos portugueses”. Inclusive, destacou a abertura oficial da 2ª edição do Mestrado Internacional Erasmus Mundus em Ordenamento do Espaço Marítimo, ocorrido no mês anterior em Ponta Delgada, com alunos de 18 nacionalidades diferentes, envolvendo as Universidades do Açores/Departamento de Biologia, de Veneza/Faculdade de Planeamento e de Sevilha/Departamento de Geografia Humana. Neste Mestrado, preparam-se especialistas em ordenamento do espaço marítimo, com 3 vertentes: uso racional do espaço; conciliação entre desenvolvimento e proteção do ambiente; e concretização de objetivos sociais e económicos de forma planeada. O que se necessita – e voltaremos a abordar esta matéria, como fizemos no passado – é potenciar o riquíssimo acervo da Universidade dos Açores, apoiando a sua internacionalização, não diluindo a identidade açoriana da Instituição num qualquer atlantismo flop, manta ocultadora de convenientes centralismos. 
O fundo dos oceanos representa 65% da crusta terrestre,  estimando-se conter pelo menos 500.000 milhões de toneladas de nódulos polimetálicos, ricos em 7 elementos preciosos para as aplicações de alta tecnologia. Do cobre ao níquel, do lítio ao cobalto, passando pelo alumínio, manganês e zinco, não existe smartphone, turbina eólica ou bateria que funcione sem algum ou alguns deles. As maiores concentrações estão no Pacífico e no Índico, mas a dorsal atlântica também conta e toca-nos de perto, salvo se tudo não passar de “uma brincadeira”, como disse um governante madeirense. Tendo nós um Ministro do Mar e um Secretário Regional da Ciência originários da Universidade dos Açores, é esperar para ver. 
 

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Categorias: Opinião

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