“Sou muito abençoada por ter duas paixões na vida e por não ser obrigada a escolher”, diz advogada que se dedicou ao fado em Alfama

Entre os dias de Verão passados na Caloura, as horas passadas a jogar futebol na rua com os primos e as noites “infindáveis de conversa e jogos em família”, foi assim que cresceu Diana Botelho, nascida e criada naquele que é um dos maiores ‘ex libris’ do concelho de Lagoa.
À semelhança de muitos outros jovens açorianos, aos 18 anos de idade chegaria também para a jovem advogada o momento de tomar uma decisão: ficar no arquipélago e correr o risco de limitar os sonhos que pudessem existir, ou ganhar asas e raízes longe da terra natal, noutra cidade ou ainda noutro país.
Contudo, por ter desde cedo uma “noção das limitações da região”, desde pequena que sabia “que queria sair e fazer mais”, entendendo que a distância física da terra em que nasceu não poderia condicionar os objectivos que tinha traçado para si própria.
Desde os 13 anos de idade, conforme nos conta, que soube que gostaria de estar ligada à profissão que hoje exerce e representa com orgulho, tendo desde essa altura “vincado na mente que queria tirar Direito e ser Juiz”.
Ainda assim, e como é comum nas crianças, antes de ter esta assertividade, e talvez pela proximidade com o mar que viver na Caloura permite, aos seis anos Diana Botelho tinha o desejo de ser bióloga marinha e, aos 11 anos, essa paixão passaria para a vulcanologia embora sempre tivesse também presente “o bichinho pela música”.
Apesar do trajecto que escolheu seguir mais tarde, que hoje lhe permite exercer Direito na capital portuguesa, quis o “fado” que a música voltasse a fazer parte da sua vida, chegando mesmo a cantar em algumas casas onde acabou por descobrir uma nova parte de si.
Isto é, apesar de cantar desde pequena, o fado nunca fazia parte das suas escolhas por não se identificar com aquele género musical tão típico de Portugal. No entanto, o fado entraria na sua vida de mansinho e sem que ninguém esperasse, durante uma saída com amigos em Alfama.
“Quando me mudei para Lisboa, vim viver para Alfama e aí foi “a morte do artista”. Um dia fui passear à noite em Alfama e deparei-me com o Largo de São Rafael, onde estava uma senhora a cantar “Uma casa portuguesa”. Estava com uns amigos e começámos todos a cantar, até que a senhora se foi aproximando, apercebeu-se e deixou-me a cantar sozinha no meio de dezenas de pessoas”, relembra.
Foi a partir desse encontro insólito que surgiu a possibilidade de começar a aprender mais sobre o fado para começar a cantar ali, algo que fez durante cinco anos, havendo semanas em que chegava inclusive a sair do escritório de advogados para cantar cinco dias por semana.
Para Diana Botelho, cantar fado é também cantar “sobre sentimentos, contar histórias sejam elas tristes ou alegres”, e é por isso que “independentemente de parecer mais triste, ou não, o que me interessa é contar a história que o poeta escreveu e que, em algum prisma, me toca pessoalmente”.
Por esse motivo, adianta não ser capaz de cantar fados que não lhe digam “alguma coisa de forma pessoal”, o que no seu entender faz também com que aqueles que não entendem a língua-mãe do fado “consigam perceber o sentimento, mesmo sem perceber o poema”.
Contudo, passados cinco anos desde que iniciou esta experiência, chegou a um ponto onde sentiu necessidade de “encontrar um equilíbrio”, fazendo com que hoje o fado seja “mais um passatempo do que uma ocupação corrente”, diz Diana Botelho.
No entanto, mesmo com este gostinho muito especial por esta tradição musical que defende de alma e coração aquilo que significa ser português, Diana Botelho diz que nunca seria capaz de trocar a advocacia para se dedicar por completo à música, afirmando que costuma dizer que é uma pessoa “muito abençoada por ter duas paixões na vida e por, acima de tudo, não ser obrigada a escolher”.
Quando escolheu por ingressar no curso de Direito a família já estava algo à espera, revela, sendo que a mãe lhe costuma dizer frequentemente que herdou “o sentido de justiça” do pai, que foi Polícia de Segurança Pública, “bem como a teimosia” e que, por isso, estava já destinado, era “fado”.
Assim como milhares dos seus colegas, entraria no curso de Direito já com a expectativa criada de terminar o curso e ser juiz, ideia esta que se alterou depois de ter estagiado no escritório de advogados da actual presidente da Ordem dos Advogados nos Açores, em Ponta Delgada, experiência que a fez perceber exercer advocacia era o que realmente queria.
“Depois de terminar o curso, ingressei no estágio da Ordem dos Advogados como um degrau antes de continuar o percurso até à magistratura, mas assim que comecei o estágio a sério, na CRS Advogados, percebi – a Advocacia é a minha vocação, e a teimosia ajuda. 
Gosto da dificuldade de encontrar soluções para os temas difíceis que me apresentam e tenho uma paixão desmedida por esta profissão, o que, de resto, acho que é essencial para a exercer”, afirma.
Apesar de não se arrepender de nada no seu percurso profissional, uma vez que exerce agora a profissão de que mais gosta, lamenta o facto de não existir “um investimento sério no ensino superior na Região”, uma vez que isto irá sempre potenciar o mesmo resultado: “a saída de centenas de pessoas todos os anos em busca de algo melhor, pelo facto de a oferta formativa ser tão limitada aos nossos sonhos”.
No seu caso em particular, lamenta também o facto de não ter tido oportunidade de tirar Direito nos Açores, uma vez que este ciclo faz com que aconteça um de dois cenários, conforme explica: “Ou permanecemos agarrados à ilha e não criamos raízes noutro sítio, o que faz com que mais tarde voltemos, ou começamos a crescer fora da ilha e torna-se mais difícil voltar, porque as oportunidades que temos fora da ilha, pelo menos na minha área, não têm comparação”.
Se não tivesse saído dos Açores, acredita que teria seguido uma de duas profissões: “ou era artista ou era psicóloga”. Contudo, acredita também que “seria muito feliz na mesma”, embora “não tão completa e realizada” como diz ser hoje.
“Se tivesse voltado depois do curso, penso que teria uma vida mais calma, menos apressada mas, por outro lado, também acho que não valorizaria tanto o que temos. Exerço a minha profissão fora dos Açores porque a vida assim quis, porque este era o meu caminho. Mas, de facto, “Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela” (Daniel de Sá)”, adianta.
Mesmo tendo isto em conta, regressar aos Açores seria, para já, difícil. Apenas trocaria aquilo que hoje faz por uma “grande oportunidade”, mas refere que mais tarde regressar a São Miguel poderá vir a tornar-se numa opção, uma vez que é nas ilhas que se sente verdadeiramente em “casa”.
Depois das ilhas, primeiro fez do Porto a sua segunda casa, uma vez que escolheu estudar na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, algo que considera “uma das melhores decisões” que tomou, guardando dali algumas das melhores memórias.
“O Porto é uma cidade apaixonante, que se infiltra em nós de forma subtil e que me trouxe mais família, amigos para a vida, e que mesmo depois de me mudar para Lisboa (onde há muitas mais oportunidades de trabalho), sempre foi a minha “casa longe de casa”, explica.
Por outro lado, falando de Lisboa, diz que esta “é a cidade da luz, do movimento, e penso que as duas não têm comparação, cada uma existe no seu próprio universo. Lisboa é luz, o Porto é magia. Lisboa é pressa, o Porto é paz. O ponto comum – fui muito, muito feliz em ambas”, garante.
Porém, mesmo tendo “coração de viajante”, refere que é em São Miguel que tem “o maior pedaço – a família, os amigos, e todos os lugares que trazem paz à nossa alma”, sentimento este que lhe faz pensar que “não há um dia da partida”, independentemente da tristeza por tudo o que deixa para trás sempre que regressa à movimentada cidade de Lisboa.
 

Que sonhos alimentou em criança?  
Imensos, sempre tive uma capacidade enorme de sonhar, o que faz com que tenha sido uma criança tão feliz.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
A desonestidade e a fraqueza de carácter. Admiro coragem e bondade.

Que características mais admira no sexo oposto?
Certeza, honestidade e inteligência.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Adoro. Todos os do John Grisham. 

Como se relaciona com a informação que inunda as redes sociais?
Tenho um filtro muito grande, vejo o que me interessa e ignoro o resto.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Dificilmente, mas também gosto muito de me desligar de tudo (um pouco só).

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Adoro. Valência, sozinha.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
Bastante variados, com uma mãe chefe de cozinha. Sou uma sortuda.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que fabricaram a vacina para a Covid-19.

Qual a máxima que o/a inspira?
Viver um dia de cada vez, com a certeza de que estamos neste mundo para sermos felizes.

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
No Renascimento, por toda a arte.

 

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