Natural da Ribeira Grande, viveu em Chicago e agora actua e ensina em Lisboa

“Sair dos Açores aos 18 anos permitiu-me continuar a crescer como pianista e foi o início de um percurso musical melhor do que alguma vez imaginei”

Correio dos Açores: Uma família de músicos. Como surgiu essa paixão e talento pela música?
Diana Botelho Vieira: A música surge na minha vida, e na dos meus irmãos, muito por influência dos nossos avós maternos, que viviam na Maia. Passávamos os Verões em casa deles, onde os dias eram passados, ora na praia (na altura, calhau), ora em diversas actividades como jogos, cantorias, passeios a pé e de bicicleta. Às cantorias juntavam-se o violão (guitarra) e o bandolim. Somos ao todo 7 irmãos e, naturalmente, a música acabou por chegar a todos nós. Diria que tudo começou nessa altura, de forma muito natural e espontânea. 

Já passou por muitos palcos. Qual foi o concerto que mais a marcou?
Diria que o concerto que mais me marcou até hoje, foi a estreia das Variações Concertantes sobre um tema açoriano para piano e orquestra de cordas, do compositor Sérgio Azevedo, com a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, e direcção do maestro Nikolai Lalov. Foi especial por várias razões, entre elas o facto de esta obra utilizar uma melodia popular de São Miguel (Sapateia), e de ser uma obra escrita pelo meu marido, e que me foi dedicada.

Qual foi o primeiro instrumento musical?
Tive uma breve incursão em aulas de órgão electrónico por volta dos 7 anos de idade, uma vez que naquela época (anos 90) o ensino desse instrumento estava a difundir-se rapidamente na ilha de São Miguel. Aos 8 anos de idade comecei a aprender piano, e tem sido assim até aos dias de hoje.

Porque enveredou pelo piano?
Não sei explicar, era um fascínio. Ao lado do nosso piano havia um sofá e, entre os meus 7 e 8 anos de idade, sentava-me nesse sofá só para ouvir a minha irmã Tânia estudar o seu repertório. Tudo me fascinava: os sons, a coordenação entre as duas mãos, a utilização dos pedais, o repertório. 

Em que é que se baseia o seu recital “Folclores Imaginários”?
Antes de mais, “Folclores Imaginários” é, na verdade, uma expressão de origem francesa, dos anos 1930, que adoptei como título para este recital de piano. Esta expressão é utilizada quando temos música que utiliza elementos de música popular sem a citar directamente, como se fosse um folclore inventado, daí o termo “imaginário”. 
Neste recital toco obras de Sérgio Azevedo (“Peças Rústicas”) e de Fernando Lopes-Graça (“1ª Suite In Memoriam Béla Bartók”), ambas muito inspiradas no folclore rural português, e ainda a obra “Por um caminho frondoso” do compositor checo Léos Janácek que, por sua vez, se inspirava (e apontava) sons que ia ouvindo na rua, sons da natureza, e de animais, como esquilos e raposas, por exemplo.
É um recital que me tem dado muito prazer tocar em público, já o apresentei em São Miguel (Teatro Ribeiragrandense) em Janeiro, e a reacção do público nas várias salas onde já toquei tem sido muito boa.

Que recordações tem da Academia de Música da Ribeira Grande?
Tenho recordações muito boas. Diria que o meu percurso na Academia divide-se em duas partes. 
Numa primeira parte, entre os 8 e os 10 anos de idade frequentei aulas de Formação Musical (professora Guilhermina Ferreira) e de Classe de Conjunto (professora Imaculada Gaudêncio). Em paralelo, tinha aulas de piano particulares com a professora Svetlana Kusselova porque na altura a Academia ainda não oferecia aulas de piano. 
Depois, aos 10 anos, entrei para o Conservatório Regional de Ponta Delgada, mas fiz os 3 primeiros anos (1º ao 3º grau) nas instalações da Academia. Aí tive o professor Grigoy Spektor no piano, a professora Svetlana Kusselova na Formação Musical e a professora Jane Cockshott em Classe de Conjunto (ensemble de flautas de bisel, no qual tocávamos peças polifónicas lindíssimas). 
Todos esses professores que passaram pela Academia deram-nos a todos um ensino muito rico e rigoroso. Tudo era feito com muita alegria, mas ao mesmo tempo com muita seriedade. 
Depois, no 4º grau fui para Ponta Delgada, onde passei a ser aluna da professora Irina Semenova, recém-chegada aos Açores, e com quem terminei o meu curso complementar de piano, em 2003.

Quando e onde deu o primeiro recital público a solo? 
Penso que foi em 2007, foi um recital dividido com outro pianista, onde toquei sonatas de Prokofiev e Beethoven, inserido no Primavera Musical – Festival Internacional de Música de Castelo Branco. 

Conte como foi a primeira actuação com uma orquestra profissional?
Foi a tal estreia das Variações Concertantes sobre um tema açoriano, que referi numas das respostas anteriores. A minha preparação foi feita de forma muito organizada e metódica, porque não queria decepcionar, nem a orquestra, nem o maestro, nem o próprio compositor da obra. 

Que influências recebeu que moldaram a carreira musical?
Somos constantemente influenciados de formas muito diversas. Gosto mais de pensar em percurso musical, ao invés de carreira, mas, quando estamos já numa fase mais profissional, significa que nos tornamos uma representação de um número infindável de influências, todas elas com impactos diferentes, mas que se completam. 
O mais imediato seria dizer que os professores de piano que tive ao longo dos anos me influenciaram, uma vez que sou pianista, e fizeram-no, de formas muito diferentes e inesquecíveis, mas o que aprendemos numa aula de piano não é suficiente, por mais rica que seja a aula. Se temos mais sede, vamos a outras fontes também: concertos ao vivo, gravações, biografias, literatura, cinema, pintura, etc.
Por exemplo, a literatura sobre a articulação da emoção com a mente no caso concreto de um músico intérprete é algo que me interessa bastante. Tocar em público exige um nível de controlo elevadíssimo e esse tipo de literatura ajuda-me, também, a aprimorar o meu processo de trabalho, porque é uma aprendizagem sem fim, na verdade.

Como tem sido a carreira docente?
Bastante feliz, confesso. Gosto muito de ensinar, gosto do processo, e levo-o muito a sério. A paciência faz parte. A questão do controlo da mente e da emoção que mencionei na resposta anterior, é-me útil, também, quando trabalho com os meus alunos. Por exemplo, muitas vezes, os nervos que sentem em palco derivam de uma preparação que não foi suficiente nas semanas (ou meses) anteriores. Procuro que percebam a importância de uma forma de estudar mais focada, organizada, e consistente, para que nas actuações seguintes consigam controlar melhor o momento no palco.

 Já tem uma reconhecida carreira. Qual a próxima etapa?
Confesso que me sinto ainda no início. É verdade quando se diz que quanto mais se sabe, menos se sabe. Felizmente ainda tenho objectivos e sonhos, mas não quero tudo de uma assentada; gosto de ir dando um passo de cada vez, com segurança e o brio possível. 
Neste momento estou a preparar um outro recital de piano, para ser apresentado em 2021, com Sonatas para piano de Prokofiev e Beethoven, que vai ser um desafio muito maior do que foi o dos “Folclores Imaginários” e, se for possível, apresentá-lo em várias salas, à semelhança do que fiz com os Folclores. 

 Já passou pelas mais importantes salas de música do país. Qual é a tua predileta?
É difícil escolher. Diria o Pequeno Auditório do CCB e a Sala 2 da Casa da Música, mas todas têm os seus positivos e negativos, se falarmos da acústica, por exemplo, e os pianos onde já toquei são todos muito diferentes uns dos outros. Diria que, no conjunto, o Palácio Foz é a sala onde já toquei mais vezes e sempre me senti muito bem nessa sala e naquele piano. A acústica é generosa quanto baste, e o piano que lá está é, para mim, muito fácil de entender. 

Foi laureada em diversos concursos de piano. Qual o que mais a sensibilizou?
Na verdade fui laureada somente uma vez, em 2008, no Prémio Jovens Músicos. Ainda há dias estive a pensar nisso, pois tive alunos premiados num concurso há pouco tempo, e comecei a pensar na razão de não ter participado em mais concursos quando era mais nova, e cheguei à conclusão que nunca estive muito virada para isso. É preciso que tenhamos um certo perfil e vocação, para participarmos em concursos, e eu nunca tive muita. Temos grandes pianistas que nunca participaram em concursos, tal como vencedores de grandes concursos de piano que “desaparecem” ao fim de 1 ou 2 anos, portanto, é algo que nunca puxou muito por mim. Contudo, tenho alunos com esse gosto, e essa motivação, e fico feliz por poder ajudá-los a cumprirem os seus objectivos e sonhos.

Qual o seu compositor de eleição?
Tem fases… Lembro-me de, ainda aluna no Conservatório, ouvir sem parar o ciclo “Canções de um viandante”, de Gustav Mahler, e esse era o meu compositor de eleição na altura, e passava horas a ouvir as suas sinfonias. Depois foram os concertos para piano de Mozart. Anos mais tarde foi toda a obra para piano e orquestra de Rachmaninov. Depois foram as Sonatas de Beethoven, depois a obra sinfónica de Tchaikovsky. Hoje em dia, curiosamente os meus compositores de eleição são aqueles cujas obras estou a tocar ou a preparar no momento, pois “convivo” com eles diariamente, ao piano, e como tenho conseguido realizar um trabalho com calma, vou descobrindo coisas novas, não só sobre as obras em si, mas sobre o próprio compositor, por exemplo, através de biografias ou documentários. 

Como foi a passagem pelo Chicago College of Performing Arts – Roosevelt University?
Entre o Conservatório e a ida para a Chicago, passei 4 anos em Lisboa, entre 2003 e 2007. Aí fiz a minha licenciatura em piano, música de câmara e acompanhamento na Academia Nacional Superior de Orquestra, um curso único no país, bastante intensivo e com excelentes professores, tendo sido meu professor de piano o professor Alexei Eremine. 
O período em que vivi em Chicago (4 anos) foi bastante intenso, pois era tudo tão diferente. Claro, um país diferente, uma língua diferente, etc., mas acima de tudo formas de trabalhar muito diferentes de Portugal. Tive de me adaptar a uma forma de trabalhar mais pragmática, mas muito produtiva. Moldei e melhorei uma série de questões na minha forma de tocar piano e de pensar música, como seria de esperar, quando estamos a frequentar o Mestrado, mas acima de tudo, derivado do ambiente: professores inexcedíveis, colegas oriundos de vários países e a tocar muito bem. Foi inesquecível e tenho muitas saudades. Ainda hoje mantenho correspondência, por carta, com a minha professora de piano, Ludmila Lazar.

Contes como se lançou na edição do seu primeiro CD, “A toque de caixa”? e o teu segundo CD, com música de piano a 4 mãos para crianças?
O CD “A toque de caixa” foi lançado em Outubro de 2018, e é preenchido inteiramente com música de piano destinada a ser tocada por crianças e jovens, composta por Sérgio Azevedo, e editado pelo MPMP – movimento patrimonial para a música portuguesa. 
Uma vez que o Sérgio tem, no seu catálogo, centenas de peças de piano para crianças e jovens, tornava-se um desafio para os professores de piano saberem que peças adquirir para os seus alunos, porque não as conheciam, e muitas delas haviam sido publicadas há pouco tempo. Recebíamos mensagens nesse sentido. Foi aí que surgiu a ideia do CD, e tivemos de fazer uma selecção das melhores peças para figurarem num CD e fizemos a gravação das mesmas. Ao mesmo tempo, lançamos, em partitura, editada pela AVA Musical Editions, uma antologia com todas as peças incluídas no CD. Desta forma, os interessados – professores de piano e alunos – têm um ponto de partida na escolha de peças do Sérgio.
O CD com música de piano a 4 mãos foi gravado no ano seguinte, com o pianista Saul Picado, e segue o mesmo propósito pedagógico. São 4 ciclos de peças para 4 mãos, também compostas pelo Sérgio. Uma parte são peças para dois alunos tocarem juntos, e outra, para aluno e professor. Este CD ainda não foi lançado, mas esperamos que seja para breve.

Como se sente fora dos Açores?
Sair dos Açores aos 18 anos permitiu-me continuar a crescer como pianista, e foi o início de um percurso musical melhor do que alguma vez imaginei. Hoje, passados 17 anos, posso dizer que continuo a sentir-me açoriana, nem que seja por ainda ter sotaque. 
                              

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