Bandas filarmónicas temem que paragem prolongada devido à pandemia possa levar à desmotivação dos seus músicos

Filarmónica Eco Edificante    
Na Vila do Nordeste encontra-se a Banda Filarmónica, a mais antiga do Concelho e também da Ilha de São Miguel. Fundada em 1861, a Filarmónica Eco Edificante, com 32 elementos, é, segundo informação prestada pela Autarquia “a instituição com maior assiduidade em eventos musicais por todo o território Português”. A Banda já levou a sua música além-fronteiras e até lançou dois cd’s nos últimos anos.
O Presidente da Filarmónica Eco Edificante é José Luís Colaço, que começa por dizer que a Banda não tem, neste momento, condições para reiniciar os seus ensaios.
“Não temos qualquer hipótese de fazer ensaios. O local em que ensaiamos é uma cave fechada, com duas janelas, mas é tudo muito em cima uns dos outros. E depois, não se pode usar máscara quando se toca em instrumentos de sopro”, afirma.
Apesar disso, José Luís Colaço garante que muitos dos jovens que integram a Banda estão ansiosos pelo recomeço da actividade.
“Às vezes encontramo-nos na rua e eles estão sempre a perguntar quando é que abrimos. Já têm saudades e demonstam interesse em voltar e em recomeçar”, salienta.
O Presidente da mais antiga banda filarmónica de São Miguel, que conta com 10 crianças na sua Escola de Música, destaca que a pandemia não afectou as contas da instituição.
“O impacto financeiro não se faz sentir porque, como estamos fechados, também não gastamos. Felizmente temos recebido ajuda tanto da Junta de Freguesia como da Câmara Municipal. Temos as contas em dia e vamos ver o que conseguimos fazer mais para o fim do ano”, realça.
Questionado sobre o futuro próximo, José Luís Colaço afirma que não teme pelo desaparecimento da banda filarmónica, mas admite que esta longa paragem poderá desmotivar alguns dos seus músicos.
“Pelo desaparecimento não temo, mas o arranque vai ser certamente difícil. Alguns músicos começam a ficar mais perros e temos de os convencer a recomeçar. Vais ser um arranque aos bocadinhos, devagar”, admite o Presidente da Filarmónica Eco-Edificante. 

Filarmónica Estrela do Oriente
Na freguesia da Algarvia está a Filarmónica Estrela do Oriente, fundada pelo Padre Dinis Machado no longínquo ano de 1878. Esta Banda Filarmónica já marcou presença em eventos no continente Português e também conta com algumas deslocações ao estrangeiro. Em 2004, lançou também um CD.
Nos dias que correm, a banda tem nas suas fileiras cerca de 40 elementos, mas o seu Presidente, Duarte Melo, eleito em Outubro do ano passado, admite não saber “como é que as coisas se vão passar” relativamente a este número de músicos quando se der a reabertura.
“Fomos tentando colocar instrumentos na casa de pessoal para ver se eles iam tocando. Há um ou outro que sempre vão tocando, mas sabemos que na verdade nem todos o fazem.  Temos para aí uns 20 músicos que tenho a certeza que podemos contar com eles mas, os outros, vai ser muito difícil. Temos alguns que já levam 50 e tal anos de banda e que já não queriam muito tocar este ano”, afirma.
O Presidente da Filarmónica Estrela do Oriente revela que contactou recentemente a Direcção Regional de Saúde requerendo a reabertura das instalações para ensaios, mas que a resposta recebida foi claramente negativa.
“Disseram que por se tratar de instrumentos de sopro estão sempre a ser libertadas partículas e não se podia fazer nada. Aceitamos a decisão. Tínhamos proposto criar grupos de cinco ou seis, mas o retorno foi imediatamente negativo”, revela.
Duarte Melo afirma que este ano a Filarmónica Estrela do Oriente tinha feito um recrutamento de novos músicos nas freguesias vizinhas para a escola de música da Instituição.
“Este ano fomos à Achadinha, à Achada, a Santo António e a São Pedro buscar, para a escola de música, rapazinhos para começarem a tocar. Quando temos essas crianças prontas para começar foi quando começou essa pandemia. Temos de começar tudo de novo outra vez”, lamenta.
Relativamente aos apoios concedidos pelas entidades oficiais, Duarte Melo garante que a ajuda da Câmara do Nordeste “é muito bom” e que a filarmónica, apesar de não actuar durante este verão, encontra-se numa situação financeira estável.
“A anterior Direcção não deixou dívidas e até tinha concorrido a uns instrumentos que mandamos vir. Esses instrumentos estão pagos. Estamos financeiramente equilibrados e a Câmara do Nordeste é espectacular no apoio que dá”, destaca.
A terminar, o Presidente da Filarmónica deixa a garantia que irá fazer tudo o que estiver ao seu alcance para não deixar que a instituição feche as suas portas.
“Eu não desisto assim à toa e temos uma equipa boa. Começamos em Outubro passado e quando entrei foi para manter aquilo vivo e não deixar cair a filarmónica. Apesar de não morar na Algarvia neste momento, sou de lá. Toquei naquela banda e muitos dos meus familiares também. Já vem desde o tempo dos meus avós. Vamos tentar tudo o que estiver ao nosso alcance para não deixar a banda ir abaixo, mas vai ser difícil”, realça Duarte Melo.

Filarmónica Imaculada Conceição
Fundada em 1893 pelo Padre Francisco de Amaral, a Filarmónica Imaculada da Conceição, com sede na freguesia da Lomba da Fazenda é a mais jovem das bandas filarmónicas do Nordeste. Nos anos mais recentes esta Filarmónica tem viajado e actuado por várias ilhas dos Açores e no continente português. Em 2001 lançou o seu primeiro albúm.
À frente dos destinos da Filarmónica Imaculada Conceição está, há 20 anos, o seu Presidente Victor Lima. O responsável máximo por esta Filarmónica que conta com 41 elementos revela que a Escola de Música abrange 10 jovens e que tinha arrancado, este ano, uma experiência de iniciação musical para crianças dos 6 aos 8 anos de idade.
Com toda a actividade suspensa por não existirem condições para “implementar um plano de contingência que assegurasse a saúde individual de cada um dos elementos”, Victor Lima admite que as marcas da Pandemia estão bem presentes e que alguns jovens anseiam pelo retomar dos ensaios.
“O nosso Concelho foi duramente atingido por esta pandemia. Há efeitos psicológicos ainda significativos na nossa população e portanto os músicos, que são na sua grande maioria crianças e jovens, sentem essa realidade ainda com mais afinco. Compreendem que não se podem abrir as portas, que não se pode trabalhar, agora vão mostrando alguma inquietação”, destaca.
O Presidente da Filarmónica Imaculada Conceição realça o papel fundamental que estas instituições desempenham nas comunidades das freguesias mais rurais da ilha de São Miguel.
“As filarmónicas são um centro cultural e uma força viva da Freguesia que congrega não só os que estão envolvidos como toda a população. É engraçado verificar e ouvir algumas pessoas dizerem-nos que lhes custa passar junto da sede da filarmónica e ver aquelas luzes todas apagadas, ver aquela casa sem vida”, frisa.
Victor Lima afirma que, nos tempos actuais, a saúde financeira da Filarmónica é “a menor das preocupações” mas garante que as contas estão estabilizadas “graças ao apoio da Câmara e da Junta de Freguesia”. O Presidente da Filarmónica da Lomba da Fazenda considera que o recente apoio criado pelo Governo Regional irá favorecer as bandas filarmónicas dos meios citadinos e critica a burocracia que é exigida.
“Fazer candidaturas para se receber 300 ou 500 euros não vale a pena. Tivemos um encontro recentemente em Ponta Delgada e há Filarmónicas que apresentaram candidaturas para receber 100 euros. Com toda a burocracia que é exigida, nem vale a pena apresentá-la”, diz.
Relativamente ao futuro próximo, Victor Lima admite ter algumas preocupações quanto à desmotivação que esta longa paragem poderá ter nalguns membros da filarmónica. “Vou notando alguma desmotivação nalguns elementos com mais alguma idade. Agora a rapaziada nova nem tanto. Temos algumas preocupações mas esperemos que elas não se venham a concretizar”, afirma o Presidente da Filarmónica da Imaculada Conceição. 
                                     

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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