Estudo decorreu entre 2013 e 2018 e foi agora publicado

Aranhas e insectos exóticos têm vindo a aumentar nos Açores e podem levar à extinção de espécies endémicas

Desde 2012 que o Grupo da Biodiversidade dos Açores (cE3c) iniciou uma colaboração “sem precedentes” com várias organizações ambientais açorianas com o intuito de realizar um Estudo Ecológico de Longo Prazo na floresta natural de várias ilhas açorianas. Um estudo que tem como objectivo “monitorizar ao longo de vários anos a variação na abundância e riqueza a fauna de insectos e outros artrópodes nas  florestas nativas açorianas”. Nesse sentido, os investigadores têm conseguido monitorizar as florestas açorianas “quatro vezes por ano tendo assim uma amostra por cada estação do ano”.
De acordo com o investigador do Grupo da Biodiversidade dos Açores da Universidade dos Açores, Paulo Borges, este projecto pretendeu responder a várias questões científicas e de conservação da natureza. Em concreto, “obter dados ecológicos de longo prazo para avaliar a distribuição e abundância de espécies em várias escalas espaciais e temporais; identificar processos que estejam a afectar as espécies endémicas e nativas; as ilhas são lugares especialmente bons para investigar as relações espécie-ambiente”. 
Depois, os investigadores montaram armadilhas SLAM em várias ilhas: Pico Alto, na ilha de Santa Maria; Graminhais, Tronqueira e Furnas, na ilha de São Miguel; Galhardo, Caldeira de Santa Bárbara, Terra-Brava e Rocha do Chambre, na Ilha Terceira; Caldeira, Cabeço do Fogo e Pedro Miguel, na ilha do Faial; Caveiro, Lagoa do Caiado e Mistério da Prainha, na ilha do Pico; Caldeira Funda e Morro Alto, nas Flores; Caldeira e Caldeirinhas, na ilha Graciosa.
A equipa internacional de investigadores da Universidade dos Açores, da Universidade de Pau (Centre National de la Recherche Scientifique – CNRS, França) e do Museu de História Natural da Finlândia (Universidade de Helsínquia) usaram por isso a “distribuição das espécies e dados de abundância e estudos baseados em modelos de alterações ambientais em diferentes ilhas” para agora publicarem o estudo intitulado “Aumento da diversidade insular de artrópodes exóticos é uma dimensão fundamental da actual crise de biodiversidade”. 
O estudo decorreu entre 2013 e 2018, tendo sido capturados mais de 30 mil artrópodes na floresta nativa da Ilha Terceira – ilha que contém a maior área de florestas nativas do arquipélago. Os insectos recolhidos corresponderam a 159 espécies, 32 das quais endémicas.

Resultados
O investigador Paulo Borges explica ao Correio dos Açores que este estudo “identificou claramente” três padrões importantes: “uma crescente diversidade de espécies exóticas ao longo do tempo; o alto dinamismo temporal de espécies exóticas e alguma evidência de uma tendência de diminuição da abundância para algumas espécies endémicas”. Resultados que contrastam um pouco com estudos recentes que têm vindo a ser feitos no continente europeu e no norte-americano, e que alertam para um declínio global na abundância e diversidade de artrópodes nos locais estudados. 
Pelo contrário, este estudo “não mostra evidências de um declínio da diversidade geral das espécies endémicas e nativas. No entanto, observou-se uma tendência de diminuição da abundância para algumas espécies endémicas”. 
Nos Açores, as espécies exóticas são mais abundantes e diversas nos habitats criados pelo homem, como zonas urbanas, campos agrícolas, pastagens e matas de árvores exóticas. Sendo que as espécies exóticas são introduzidas maioritariamente de forma inadvertida no arquipélago, “infelizmente devido às intensas actividades comerciais muitas espécies viajam para as ilhas nos aviões e barcos associadas a vários tipos de mercadorias”.
Com este aumento de espécies exóticas pode alterar-se a biodiversidade das ilhas, sendo que o investigador Paulo Borges diz que deve ser dada atenção especial “às espécies exóticas que são conhecidas por serem uma das principais causas da erosão da biodiversidade nas ilhas”. Alerta, por exemplo, que as espécies exóticas “podem levar à extinção de espécies endémicas e nativas”. 
Uma hipótese preocupante, explica Paulo Borges, que refere que “as aranhas são predadores de topo entre os invertebrados. Deste modo são fundamentais para controlar a abundância de muitos insectos nos ecossistemas, como sejam as moscas, vespas, mariposas, etc”.
E há espécies de artrópodes que já estão extintas nos Açores e outras estão ameaçadas. Numa avaliação recente feita por investigadores do Grupo da Biodiversidade dos Açores (cE3c) para a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) verificou-se que 93% dos escaravelhos endémicos dos Açores estão ameaçados, sendo que cerca de oito espécies estão já extintas. 
Os escaravelhos “parecem estar a ser mais afectados por se moverem pouco”, explica o investigador que acrescenta que na avaliação feita para a IUCN verificou-se que para as borboletas e mariposas, apenas 50% dessas espécies estavam ameaçadas. Paulo Borges não tem dúvidas que “temos a certeza que se nada for feito teremos mais espécies extintas”.
No entanto, o investigador reconhece que tem havido algum cuidado por parte das entidades competentes para evitar esse declínio de espécies. E refere que o Governo Regional conseguiu a aprovação de três projectos LIFE, um deles, o LIFE-BEETLES, tem como objectivo melhorar os habitats de espécies de escaravelhos endémicos dos Açores.
Este projecto LIFE-BEETLES, que conta com uma dotação de 1,8 milhões de euros, dedica-se à melhoria do estado de três escaravelhos endémicos (Tarphius floresensis, Pseudanchomenus aptinoides e Trechus terrabravensis), que são dados como “criticamente ameaçados” devido à perda dos seus habitats. 
 

Print
Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima