Joana Sousa é natural de Ponta Delgada e conheceu Maria Novo por intermédio do curso de Arquitectura que ambas frequentaram na Universidade do Porto. Durante 15 dias percorreram a ilha de São Miguel, em conjunto com uma equipa para começarem a dar vida ao filme que intitularam de“Diomar”.
A ideia para este docu-ficção, inspirado na vida e no olhar de Diomar Almeida, residente e apaixonado pela Calheta, pela sua história e pelas suas tradições, começou com a tese de mestrado de Joana Sousa, que propôs um projecto que dinamizasse a fundição da Calheta, nomeadamente os dois edifícios devolutos, e o respectivo parque de estacionamento.
Sabendo que Maria Novo tinha interesse em explorar a vertente audiovisual, a jovem micaelense acabou por sugerir que esta a ajudasse a fazer alguns vídeos que pudessem ser utilizados na apresentação da tese de mestrado, o que permitiu a recolha de muito material.
Joana e Maria acabaram por candidatar o projecto de investigação ao “Põe-te em Cena”, da Direcção Regional da Juventude, o que viria a permitir-lhes que a recolha de material tivesse continuidade ao longo do tempo.
Entretanto, ao procurarem por fotografias que retratassem a Calheta em épocas anteriores, foram-se deparando com um nome que lhes surgia de forma frequente, sendo este Diomar Almeida, um antigo calafate conhecido por captar, guardar e partilhar muito daquilo que aconteceu ao longo das últimas décadas naquela localidade do concelho de Ponta Delgada.
Ao conhecerem um pouco da história deste homem, a produtora e a realizadora do filme que agora começa a ganhar forma consideraram que este seria “o personagem que resume a Calheta da melhor forma”, optando assim por centrar o desenvolvimento do filme na sua forma de ver o sítio onde nasceu e cresceu e que tantas alterações veio a sofrer nos últimos anos.
“Quisemos documentar de alguma forma o que se passava. Quando viemos a primeira vez percebemos que havia um potencial para documentar o que se passou ali a nível urbano e histórico na zona da Calheta, como as dinâmicas que existem na comunidade agora”, diz Joana Sousa.
“Estas são coisas que acontecem numa pequena escala mas que se passa de alguma forma a nível nacional também, e depois conhecemos o Diomar que, para além de estar ligado à Calheta, é uma pessoa que está ligada ao audiovisual e interessa-me muito trabalhar este tema do processo dele”, conta ainda a realizadora Maria Novo.
Optar por centrar a história deste documentário ficcionado apenas numa personagem, conforme contam a realizadora e a produtora, é também uma forma de “dar mais força à história”, em vez de a desfragmentar sob a perspectiva de vários personagens.
“Achámos mais forte mostrar a história da Calheta e as dinâmicas que existem hoje através de um personagem. Ou seja, começamos numa escala micro e depois mostramos uma escala macro”, acrescenta Joana Sousa.
Contudo, com o passar do tempo dedicado a este projecto e tendo em conta a força da história deste homem natural da freguesia de São Pedro, a história da Calheta como a conhecemos “passa a estar num plano secundário” embora tudo se passe ali.
Ainda assim, muitas vezes as pessoas acabam por pensar que este trabalho se irá traduzir numa reportagem sobre aquele local que outrora era banhado pelo mar e onde havia toda uma comunidade piscatória e ligada às actividades fabris que ali existiam e que foram extintas, o que não é verdade porque o trabalho não tem “uma ordem cronológica ou linear”.
#Tratámos o imaginário da Calheta, relativo aos barcos e ao mar, por exemplo. Está também presente o tema da memória e da saudade, daquilo que foi a Calheta e esta ligação com o passado”, sendo Diomar Almeida “também uma pessoa que vive muito a saudade e a memória”, e também o autor de músicas intituladas “Recordar é viver” e “Calheta a preto e branco”, dizem as jovens.
Para isso recorreram a fotografias antigas e vídeos, que para além de retratarem a passagem do tempo por aquele sítio tão especial para muitos, o acesso a este material permitiu ainda reencenar algumas das actividades que eram mais comuns durante o crescimento de Diomar Almeida e que hoje são apenas encontradas nas comunidades piscatórias que ainda existem na ilha de São Miguel e nos Açores de uma forma geral.
De acordo com a pesquisa levada a cabo por Joana Sousa e Maria Novo, até se concretizar este projecto, as jovens entenderam que há ainda muitos moradores locais que sentem que com as mudanças que ali ocorreram perderam também um pouco da sua identidade, levando essas pessoas a crer que o passado será sempre melhor do que o futuro.
“Para as pessoas que viveram lá e sendo a Calheta parte da identidade delas, há sempre a ideia de que o passado é melhor do que é hoje, e essas pessoas acabam por ficar estancadas de alguma forma. Tirando a sua origem, o sítio onde nasceram, neste caso a Calheta, e trocando o porto por um parque de estacionamento, acabaram por não saber para onde se virar e esse é um sentimento que está ainda um bocado presente, este abandono que existe na Calheta, esta falta de vida”, diz a produtora.
Hoje, Sexta-feira, terminam as gravações desta produção e espera-se que dentro de um ano seja possível assistir ao resultado final do projecto que contou também com o empenho de Bruno Moreira, Diogo Martins, Thaylane Cristina, Francisca Manuel e Laura López, para além de contarem também com a generosidade e atenção da família do protagonista, Diomar Almeida.
Em acréscimo, a equipa beneficiou ainda do apoio do programa PARES, da Associação Anda & Fala, e também de um apoio para a rodagem fornecido pela Direcção Regional da Cultura.