25 de julho de 2020

Cesto da Gávea

Frugalidade e vampirismo

Das armadilhas políticas mais cínicas em que a União europeia tem caído, destaca-se a constituição do grupo de bloqueio dos países chamados frugais, na recente discussão acerca do programa de recuperação económica, consequência da gravíssima pandemia que grassa no planeta. Se formos à fonte etimológica da palavra, vemos que tem o sentido de sobriedade, moderação ou temperança, caraterísticas opostas dos comilões, imoderados ou destemperados. A rapaziada da liga da temperança europeia, com os holandeses à cabeça, inclui austríacos, suecos, dinamarqueses, tudo gente que vive bem, em grande parte devido ao esforço de outros que vivem mal. Juntaram-se-lhes os finlandeses, outros que tais quase iguais, de acordo com as últimas notícias. Na salgalhada em que se transformou o projeto europeu, depois do malfadado e inacabado brexit, é difícil antever um futuro auspicioso para a atual União Europeia, apesar da sorte que calhou aos 27 Estados Membros, por terem a Chanceler Merkel ao leme durante a decorrente presidência alemã do Conselho europeu.
Porque uma coisa é ser frugal e outra ser vampiro, é lógico distinguir e qualificar uns e outros, antes de lhes colar etiquetas. Principiando pelos piores da fita – neste caso, os governantes holandeses – que invocam, como bons calvinistas, ser de costumes exemplares, o que se vê a olho nu é o descaramento agiota com que, a coberto das “liberdades” europeias, se esmeram em espoliar os parceiros. Portugal não escapa: 90% das empresas cotadas no PSI20 têm sede fiscal em Amesterdão, o que significa uma perda anual de impostos portugueses de aproximadamente 250 milhões de euros. Nesta matéria da evasão fiscal por via legal, Portugal está longe do isolamento, uma vez que a União Europeia perde anualmente aproximadamente 9.000 milhões de euros a favor da Holanda, país que nem é caso único, pois está convenientemente acompanhada pelo Luxemburgo, Malta, a própria Irlanda e mais o que o diabo inventa. E o demo inventa bem, falando sobretudo inglês: o Reino Unido, “especialista” há décadas nestas guerras fiscais, teceu uma rede global de satélites que lhe permitem ser responsável por 1/3 da evasão tributária mundial. Segundo a Tax Justice Network, em 2019, 3 territórios britânicos – domínios coloniais disfarçados – com as Ilhas Virgens (1º) as Bermudas (2º) e as Caimão (3º), logo seguidos da Holanda (4º) e do Luxemburgo (5º) ocupam o top 5 da ladroeira fiscal mundial. Nesta, 10 territórios (6 britânicos + Hong Kong) e países (Holanda, Luxemburgo e Suíça) veiculam 18 biliões de dólares de investimento direto estrangeiro, ou seja, 40% de todo o investimento transnacional global. Fica explicado porque o Reino Unido nunca se deu bem com as tímidas tentativas de harmonização fiscal europeia, ou ainda, por que razão a Holanda tem idêntica posição, gosta tanto de empréstimos e fala de frugalidade. Aprenderam com os vampiros, bichos que nunca aspiram todo o sangue das vítimas, porque se o fizessem, morriam de fome.  
Porém, o problema não está neles, que fazem pela vida, mas nos que se deixam sugar, em vez de os sacudir. O que se passou no último Conselho Europeu é bom exemplo deste panorama desastroso, onde os vampiros passam por bonzinhos e as vítimas por perigosos perdulários. A política financeira em hora de pandemia, apenas veio facilitar a bondade dita frugal de gente como os dinamarqueses, rapaziada que domina o tráfego marítimo transnacional de navios mega-porta-contentores, cada um dos quais polui tanto como 50 milhões de viaturas. Tudo em nome da pretensa frugalidade nórdica, um emblema colado para papalvo ver e engolir, inclusivamente com a cumplicidade da imprensa internacional, a que a nacional também não escapa. A cedência de 110 mil milhões de euros, no envelope que estava proposto ser de 500 mil milhões a fundo perdido, devia envergonhar os membros da esmagadora maioria do Conselho Europeu. Não é assim que se dignifica a Europa que conheci quando se chamava CEE e apontava o caminho da solidariedade e coesão. Votei muitas vezes, no Parlamento Europeu, a favor dessa Europa solidária e progressista, para aceitar pacificamente este volte-face que pretendem vender como vitorioso. Não é, mesmo que para Portugal chovam mais de 45.000 “pandémicos” milhões, dos quais para aí metade, teremos de pagar de um ou doutro modo. Tem carradas de razão, o nosso Presidente da República, quando alerta para a criteriosa e acertada aplicação dos fundos, que devem ser criadores de riqueza e desenvolvimento, em vez de instrumentos para tapar buracos da banca e de empresas falidas, estatais ou não. Nos Açores, a criação de riqueza passa por um investimento urgente num setor primário de qualidade, apoiando quem está aberto à inovação e reciclando quem a ela resiste. Vamos precisar de muita determinação para resistir aos vampiros, evitando simultaneamente morrer de frugalidade.
 

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Categorias: Opinião

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