António Aguiar, Presidente da Cooperativa Uniqueijos

“No ano de 2019 conseguimos um valor histórico de volume de negócio de 13,8 milhões de euros”

A Uniqueijo foi fundada em 1986 com seis cooperativas. Actualmente quantas cooperativas estão integradas?
As coisas mudaram muito entretanto. Realmente quando foi fundada em 1986, a Uniqueijo, era composta por 6 cooperativas. Mais tarde entraram mais duas: a Cooperativa dos Lourais e a Finisterra do Topo. Depois houve uma fusão de uma série de cooperativas e neste momento, em São Jorge, a Uniqueijo é composta por 3 associadas: A Cooperativa da Beira, a Cooperativa dos Lourais e a Cooperativa Finisterra do Topo. 

O que se passou para existirem menos cooperativas a integrar a Uniqueijos?
Houve uma reestruturação do sector cooperativo em São Jorge. Existiam muitas fábricas pequenas espalhadas um pouco por toda a ilha e, quando se construíram as novas unidades fabris, optou-se por fazer 3 novas unidades. Isso aconteceu em 2009 e 2010.

Essa união entre as várias cooperativas trouxe vantagens ao Queijo de São Jorge?
Sim. Com a construção das novas unidades ficamos capacitados com novas estruturas que nos garantem um produto final de alta qualidade e isso essa evolução tem sido bem visível longo dos tempos. Nós, neste momento, temos um leite de qualidade. Um leite que é mesmo um dos melhores da Europa.

Qual é actualmente a vossa capacidade de produção?
São Jorge produz cerca de 30 milhões de litros de leite. Essa é a nossa capacidade instalada na Ilha e que representa à volta de 260 a 270 mil queijos com um peso por unidade, de cerca de 11 quilos. Isso dá, mais ou menos, 2 mil e 500 toneladas de queijo produzidas anualmente.

Quais são os principais destinos/mercados para onde vocês comercializam?
O Continente Português representa 58% das nossas vendas. Depois 25% para os Açores, 10% para os EUA, 5% para o Canadá e o restante vai para a Europa, Ásia e Madeira. 

Esta pandemia levantou problemas na vossa exportação?
Não trouxe muitos problemas porque o nosso queijo é transportado por via marítima e isso foi sempre assegurado. A verdade é que por causa da Pandemia e especialmente na última semana do mês de Março e no mês de Abril, estávamos realmente preocupados porque as vendas baixaram muito nessa altura, mas repuseram-se entretanto e nós estamos com as nossas vendas com números mais ou menos idênticos a anos anteriores. A verdade é que houve uma transferência das referências, ou seja, as preocupações das pessoas com a perca de emprego, com o abaixamento de rendimento, levou a que as pessoas começassem a consumir muito mais queijo ralado. Para dar como exemplo, os queijos ralados duplicaram as vendas, enquanto algumas referências mais nobres, mais consumidas pelos turistas e restauração, baixaram. Na última semana do mês de Março e ao longo do mês de Abril vendemos apenas um terço das nossas unidades. 

Foi uma grande quebra…
O que nos valeu foi que o primeiro trimestre foi mesmo muito bom. Nos meses de Maio e Junho recuperamos os números normais. Posso acrescentar, só por curiosidade, que fechamos o ano de 2019 e conseguimos um valor histórico de volume de negócio no valor de 13,848 milhões de euros. Para este ano é difícil fazer previsões mas, os dados que já temos do primeiro trimestre, indicam que esse valor ainda poderá ser ultrapassado. 

Vocês também têm uma vertente de visitas à Fábrica e essa parte está suspensa neste momento…
Claro. Aqui em São Jorge o turismo tinha vindo, nos últimos anos, a aumentar muito e quem vem a São Jorge tem o gosto de visitar as suas cooperativas. Nós tínhamos as visitas guiadas em que tínhamos na época alta entre 2000 a 3000 turistas nas cooperativas mas infelizmente, por causa desta pandemia, tivemos de cancelar essas visitas.

Vamos falar um pouco mais do futuro. O que é que a Uniqueijos tem projectado? Quais são os grandes objectivos para os próximos tempos?
O futuro é uma incógnita por causa da pandemia e não sabemos muito bem o que é que vai acontecer. A verdade é que nós tínhamos a perspectiva de aumentar o nosso volume de negócio. Não pelo aumento do leite mas sim pelo aumento do preço unitário por quilograma de queijo e isso muito derivado à inovação e à criação de novos produtos de valor acrescentado. Nós tínhamos aqui como novidade alguns produtos e algumas referências que eu posso adiantar. As tábuas de queijo, porções mais pequenas (meias fatias) entre outras situações que estavam previstas para levarem a essa maior valorização do Queijo de São Jorge. 

O sector de leite tem passado, nos últimos tempos, por alguns problemas, nomeadamente com o abaixamento do preço pago ao produtor por litro de leite. Teme que nos próximos tempos muitos agricultores deixem o leite e passem, por exemplo, para a carne? 
Nós cá em São Jorge temos uma situação em que a média de idades dos nossos produtores é bastante baixa e possivelmente das mais baixas do país. No país a média é de 65 anos, é uma idade bastante elevada, mas cá em São Jorge nós estamos acima dos 40 e poucos anos de média o que nos dá, durante mais duas décadas, uma garantia na produção de leite e a continuidade da produção do Queijo de São Jorge.   

Relativamente aos apoios dados à exportação, estão satisfeitos com o cenário actual? Há coisas a melhorar? 
Os apoios são sempre bem vindos e a verdade é que eles existem e nós, em relação ao Queijo de São Jorge, temos sido apoiados ao máximo. Somos apoiados no transporte marítimo do produto para o continente e entre ilhas, e isso é bastante positivo. No entanto, entendo que seria importante existirem outros apoios para conquistar novos mercados no estrangeiro.
 
Que outros mercados são esses? O mercado chinês por exemplo?
Os chineses não são grandes consumidores de queijos. Só para dar como exemplo, em Portugal, consumimos em média 10 kg por pessoa enquanto na China essa média é de 100 gramas por pessoa. Embora seja muita gente, não são consumidores de queijo. Eu entendo que o chamado “mercado da saudade”, especialmente Canadá e EUA, deve ser alvo de uma grande aposta.

Um desses “mercados da saudade” são os Estados Unidos da América. Esta Administração criou novas taxas que vieram trazer-vos alguns problemas. Como está a correr a exportação para esse País em concreto? 
As taxas alfandegárias aumentaram 25%, salvo erro, no dia 18 de Outubro de 2019. É bastante e na altura estávamos bastante preocupados com essa situação, mas a verdade é que não reduzimos as nossas vendas para esse mercado, até aumentou um bocadinho. É verdade que possivelmente o consumidor está a pagar um pouco mais pelo quilograma de queijo, mas não houve quebras e eu estou animado com essa situação. No princípio, admito que pensei que podia originar quebras avultadas.

Pensa que isso acontece pelo “nome” e pelo próprio valor do queijo de São Jorge?
Eu penso que sim. Os nossos emigrantes com as saudades que têm do nosso produto nunca deixaram de o adquirir. A informação que eu tenho é que o aumento caiu em cima do consumidor final. Estamos a falar de um aumento de 50 cêntimos americanos em cada quilograma de queijo.

Mas isso não tem influenciado muito o consumo no mercado americano?
Não. Aliás os resultados que nós temos é de que até aumentarem um bocadinho. Estamos a falar de cerca de 15 a 20% de aumento.

Saiu há pouco tempo um estudo sobre o Queijo do Pico em que se dizia que este reduzia o colesterol. Também se falava que o Queijo de São Jorge poderia estar englobado nisto. Tem alguma novidade sobre esta matéria que possa partilhar?
Tenho conhecimento dessa informação e é nomeado também o Queijo de São Jorge que também é feito com leite cru. Penso que isto poderia ser uma matéria interessante para a Universidade dos Açores desenvolver para valorizar o nosso produto. Eu tenho conhecimento que já se fizeram outros estudos com o Queijo de São Jorge e sabemos que ele é muito rico em ómega 3 e em iodo, o que é muito importante para as mulheres especialmente as grávidas. Temos conhecimento que as características do leite de São Jorge são únicas. Só para lhe dar um exemplo, tenho agendado para o final deste mês uma visita de uma pessoa que está à frente de uma cadeia de cafés de renome e ele está muito interessado no leite de São Jorge porque, pelas análises e investigações que fizeram, chegaram à conclusão que o nosso leite tem características únicas que não encontraram em mais lado nenhum. Vamos ver o que isso vai dar. Os portugueses e os italianos bebem café expresso mas no resto do mundo é acompanhado com leite e portanto, temos todo o interesse em que seja feita essa combinação: café com renome e juntá-lo com um leite único que só se encontra aqui em São Jorge.  

Qual é o segredo do Queijo de São Jorge?
A matéria prima está cá em São Jorge e não é à toa que o Queijo de São Jorge se faz aqui e não se consegue fazer noutra ilha qualquer. Os ingredientes do nosso queijo são simples. Coalho, sal e leite. Não hás segredos em relação a isso. Já tentaram produzi-lo noutro sítio e realmente o segredo está cá na nossa pastagem. Além das características da ilha; alta, alongada e estreita com ervas que são originárias aqui da ilha. Também há algumas imposições que nós temos com os nossos associados.

Qual é o seu grande próximo objectivo num futuro próximo ou mais distante para o queijo de São Jorge?
Em São Jorge existia, até 2014, uma situação bastante complicada na questão do pagamento de leite cá na ilha, com atrasos significativos aos lavradores. Desde finais de 2014 nunca mais se falhou nesse pagamento e, especialmente para eles, isso vem trazer uma outra segurança que não havia no passado. Em relação ao preço do leite nós estamos num valor médio de 27 cêntimos por litro e eu gostaria de aumentá-lo. Ao longo deste tempo temos mantido sempre este valor e com os dados que tenho neste momento penso que, num futuro muito próximo, pode haver um aumento do preço do leite o que estaria em contra ciclo com o que se passa na região. Este era um objectivo que eu gostava muito de alcançar já no início do ano que vem.   

Luís Lobão
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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