“Os produtores têm as suas adegas cheias de vinho” devido à pandemia

Que balanço faz deste ano vitícola?
Em princípio este não será um mau ano vitícola em termos de quantidade de uvas, no entanto, as condições de vindima são sempre um factor importante para determinar a qualidade da colheita. Este é um ano atípico devido à situação que se vive em todo o mundo. Sendo os vinhos dos Açores absorvidos na sua maioria pelo turismo e restauração, prevê-se grandes dificuldades no escoamento dos mesmos, aliás como em todas as outras regiões vitícolas do país e do mundo.

Que projectos estão a ser desenvolvidos pela Comissão Vitivinícola da Região (CVR)?
O objectivo principal da CVR Açores é garantir a genuinidade e qualidade dos vinhos das Denominações de Origem Biscoitos, Denominações de Origem Graciosa, Denominações de Origem Pico e da Indicação Geográfica Açores a par da sua promoção e divulgação. Devido à situação em que vivemos, mais do que nunca, este será o nosso projecto principal.

De que forma abalou a pandemia este sector?
Este foi um sector muito abalado por esta pandemia. O mundo parou, o consumo de vinho é residual. 
No caso dos vinhos dos Açores, por serem um produto de consumo quase exclusivo na restauração, o impacto foi muito forte. Os produtores têm as suas adegas cheias de vinho, as vendas são mínimas e a próxima vindima está à porta. 
No entanto, importa referir que os apoios criados pelo Governo Regional dos Açores vem, de certa forma, minimizar os efeitos catastróficos desta pandemia no sector, sendo um balão de oxigénio para quem produz vinhos certificados.

Fala-se repetidamente do potencial dos Biscoitos, mas este teima em não se cumprir. Que avaliação faz da matéria?
Os vinhos dos Biscoitos têm potencial, como sempre tiveram. É verdade que a Cooperativa Vitivinícola dos Biscoitos atravessa uma fase complicada a nível financeiro, no entanto, a marca “Magma”, da qual a referida cooperativa é detentora, continuou a ser comercializada através do agente económico “Anselmo Mendes Vinhos”, contribuindo assim para que tenha havido sempre produto DO Biscoitos no mercado a par com outro vinho IG Açores de um produtor particular, também dos Biscoitos. Consideramos que é francamente pouco, mas com a inscrição, este ano, de novos agentes económicos da ilha Terceira na CVRAçores, estamos em crer que num futuro próximo aparecerão novos vinhos com Denominação de Origem Biscoitos e outros com Indicação Geográfica Açores no mercado.

Como se podem atrair produtores e mão-de-obra para este sector?
Os últimos anos foram férteis no que toca a apoios ao sector vitivinícola. O programa “Vitis” foi uma excelente forma de atrair novos viticultores e produtores para o sector. Através deste programa entraram na Região mais de 20 milhões de euros, permitindo a reconversão de mais de 800 hectares de vinha. 
Dadas as características únicas das nossas vinhas, que exigem muito trabalho braçal, não sendo possível a sua mecanização, a questão da mão-de-obra poderá ser sempre um problema para o sector. 
A única forma de colmatar esta lacuna e atrair novos produtores é manter um bom preço das uvas pagas, para que, aliado aos apoios de manutenção existentes, se mantenha o interesse de quem produz.

O ensino pode ter uma palavra a dizer?
O ensino é sempre importante em qualquer atividade. A escola profissional do Pico tem leccionado cursos de viticultura. Alguns dos jovens formados naquela instituição hoje estão a trabalhar no sector. Sem dúvida, a escola pode ter um papel importante, fomentando o gosto pela actividade vitícola.
O Pico é a ilha onde este sector tem mais expressão. Que caminho foi feito numa década e que percurso espera que seja feito na próxima?
Na última década, no Pico houve um crescimento exponencial no sector, muito por influência do programa de apoio à reconversão de vinhas “Vitis”, e, sobretudo, devido à tenacidade e coragem do homem do Pico. A viticultura nos Açores, mais no Pico, devido às características do terreno, é sem dúvida uma das mais difíceis do mundo. Em 2010, tínhamos cerca de 154 hectares de área em produção para uvas aptas a DO Pico e cerca de 70 hectares de área em produção para uvas aptas a IG Açores. Hoje, a área de produção para uvas aptas a DO Pico é de 750 hectares e cerca de 150 hectares para produção de uvas aptas a IG Açores. O mesmo se aplica aos vinhos certificados. Se, em 2010, a CVRAçores certificava cerca de 10 marcas de 5 produtores da ilha do Pico, hoje estão inscritos na CVRAçores 13 produtores e certificamos cerca de quatro dezenas de marcas só no Pico. Esperamos que, na próxima década, os vinhos dos Açores continuem a crescer em quantidade e qualidade, que se afirmem no mundo dos vinhos como um produto único, de excelência reconhecida e que se tornem de forma robusta uma mais-valia a nível económico para todo o sector e para a Região.

CA/DI

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Autor: CA

Categorias: Regional

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