“A restauração está a sentir na primeira linha as poupanças que as famílias estão a fazer por estarem receosas do futuro”, diz Leonardo Ponte

Assim que se tornou possível, a 29 de Maio deste ano, o restaurante Michel fez parte da maior parte dos estabelecimentos que reabriu portas aos seus clientes, optando por manter o conceito com o qual abriu há cerca de um ano, dando continuidade ao negócio familiar que hoje conta com a gestão de Leonardo Ponte.
Porém, e também por conta da ânsia de voltar a encontrar-se com os seus clientes, Michel,  como é conhecido o empresário responsável por este projecto em toda a zona da Calheta, adianta que tendo em conta a situação epidemiológica da Região haveria condições para “abrir a restauração mais cedo”, embora considere que as decisões tomadas foram compreensíveis.
Foram então dois meses e meio em que o restaurante fechou por completo, sem se colocar em cima da mesa a opção de começar a produzir mais em take away para colmatar a impossibilidade de receber pessoas no interior do estabelecimento, mesmo sabendo que continuariam a existir despesas fixas para pagar.
Com a reabertura do restaurante, Leonardo Ponte conta que no decorrer dos últimos dois meses a facturação diminuiu consideravelmente, embora não atinja os 80% como no caso dos restaurantes que se encontram nas proximidades e que registaram perdas nessa ordem.
Apesar de considerar que esta não é uma situação dramática, o empresário adianta que este é um momento “complicado” para o restaurante, uma vez que “a linha de recuperação” do mesmo não é acentuada como deveria ser de acordo com as expectativas que existiam para o ano de 2020, embora o turista seja já mais visível aos poucos.
“Temos praticamente dois meses desde a reabertura, mas o mês de Julho em termos de facturação e de movimento é idêntico ao mês de Junho. Começa a haver alguns turistas que vão compensando também a falta dos locais porque estes estão de férias nestes meses de Verão e estão fora da ilha ou procuram outros restaurantes fora da cidade”, explica o empresário.
Assim sendo, Leonardo Ponte acredita que mais do que o receio de contrair o vírus através dos restaurantes, a falta de clientes ocorre devido ao facto de os locais se encontrarem mais ausentes da cidade de Ponta Delgada, o que já acontecia noutros anos, o que não é compensado pela entrada do turismo que vinha no Verão. 
Para além disso, considera ainda que houve “uma desabituação” da parte da população em relação ao comer fora, em conjunto com algum “receio económico que se reflecte no comportamento e nos gastos das pessoas”, tendo em conta que com esta nova crise “muita gente perdeu rendimentos e, quer queiramos quer não, se isso aconteceu as pessoas vão ter que poupar com o orçamento que têm e a restauração está a sentir na primeira linha as poupanças que as famílias estão a fazer por estarem receosas do futuro”.
No futuro, aponta que o primeiro impacto a ser sentido ao nível do emprego estará no facto de terem deixado de existir novas contratações, bem como as contratações sazonais para reforço da época alta, compreendida desde a Páscoa até ao final do Verão, garantindo por seu turno que independentemente do movimento o Michel continua a acolher os mesmos trabalhadores do período pré-pandemia.
Em acréscimo, acredita que “pelo menos transitoriamente, nos próximos meses, haja um excesso de oferta para a procura”, mantendo no entanto a esperança de que “a situação se equilibre, não pela redução da oferta mas sim pelo aumento da procura”.

Carga fiscal dos meses de Julho 
e Agosto preocupa empresário

Porém, o próximo mês e meio será – no mínimo – desafiador para os empresários ligados ao sector da restauração, uma vez que se aproximam tempos complicados no que diz respeito ao pagamento de impostos para os quais é necessário algum dinheiro.
“As empresas de uma forma geral, em especial as empresas da restauração, vão ter que pagar até ao dia 30 de Julho o IRC daquilo que facturaram no ano passado, (…) e apesar de corresponder ao lucro do ano passado este é dinheiro que as empresas não têm e nestes casos não há moratórias nem apoios previstos”, explica, salientando que “vai haver uma pressão financeira no próximo mês e meio nas empresas, para além de que ainda terão que pagar subsídios de férias aos trabalhadores que seriam pagos nestes meses de Verão e que vão deixar muitas empresas numa situação do ponto de vista financeiro muito aflitivas”.
Neste sentido, é crítico em relação às linhas de crédito disponibilizadas pelo Estado, uma vez que essas linhas “foram utilizadas para os meses em que a restauração fechou e não para o futuro”, diz, referindo ainda que esta deveria ser “uma altura em que deveria ser o Estado a financiar as empresas que estão a passar por grandes dificuldades”.
No pior cenário, ao existir uma segunda vaga que seja pelo menos da mesma dimensão da primeira e ao não haver um melhoramento considerável na procura destes serviços, a matemática diz “que não irá haver espaço para que todos estejam abertos e sem clientes”.
Numa tentativa de chamar mais clientes para o restaurante, Leonardo Ponte adianta que para este Verão está a considerar abrir uma esplanada no exterior do estabelecimento, “só para quem se sentir mais seguro no exterior também poder usufruir do espaço”, e que fazer planos para mais de dois meses “é futurologia absoluta”, sendo necessário acompanhar “o evoluir da situação” nos Açores.
Este é também tempo de adequar expectativas para a realidade de hoje, acreditando o empresário que a “desmotivação enraizada” nos empresários deste sector e outros de uma forma geral se deve “à má gestão das expectativas”.


Sushi continuou a ter muita procura 
durante a pandemia

Ainda na freguesia de São Pedro, onde ao longo dos últimos dois anos tem vindo a existir uma aposta maior na abertura de novos restaurantes, todos eles com conceitos diferenciados, encontra-se o P’alma Sushi, oferecendo ao cliente uma opção variada desta especialidade japonesa muito apreciada por locais e turistas.
Ao contrário do que aconteceu com a grande parte dos restaurantes, o restaurante gerido por Cristina Machado e pelo genro Leonardo Araújo manteve-se aberto durante praticamente todo o período da pandemia, exceptuando durante três semanas entre os meses de Março e Abril.
“Não nos obrigaram a fechar mas achámos mais prudente fechar temporariamente para não sermos um foco de infecção onde as pessoas se pudessem encontrar, para protegermos a família e os clientes”, explica Cristina Machado ao nosso jornal.
Isto é, durante o restante tempo, e ainda hoje – mesmo após a reabertura oficial – a equipa que compõe o P’alma Sushi decidiu apostar em força na opção de take away, continuando assim a satisfazer uma necessidade gastronómica que faz parte da preferência de muitos, evitando quebras de negócio demasiado acentuadas mesmo em tempos difíceis. 
“Quando tudo começou a ficar mais calmo, e como havia sempre pessoas a telefonar, achámos que era melhor abrir desta forma. Com todos os cuidados fomos comprar o separador acrílico, fizemos um balcão que normalmente não está na sala para as pessoas não entrarem no restaurante, marcámos os take away com 15 minutos de intervalo para as pessoas não se encontrarem e foi funcionando bem”, realça a proprietária do espaço.
Este esforço fez assim com que o restaurante tivesse, ao longo dos últimos meses, uma quebra de 20% a 30%, o que em comparação com o que aconteceu com outros restaurantes é uma percentagem mais animadora.
Para além de o restaurante ter continuado aberto com a acessibilidade ao take away, a realidade é que mão houve uma quebra acentuada na procura, uma vez que esta é uma comida fácil de colocar em take away e que mantém a sua qualidade mesmo no dia seguinte, desde que devidamente conservada.
Ao contrário da maior parte dos restaurantes, também o P’alma Sushi optou por aguardar mais um pouco antes de reabrir o restaurante, optando assim por o abrir no final do mês de Junho, um mês depois da data autorizada.
“Não reabrimos logo. Deixámo-nos ficar um bocadinho em take away porque pensámos que havia ainda muita limitação, que poderia haver focos de coisas que não íamos saber controlar e achámos melhor continuar com o take away”, diz, salientando que esse tempo foi também aproveitado para dar ao restaurante uma nova imagem.
“Entretanto contratámos um artista de Lisboa, o José Carvalho (Ozearv) que faz arte pública em Lisboa e pela Europa fora, porque queríamos fazer qualquer coisa na parede maior do restaurante”, resultando assim em motivos que são alusivos ao Japão e à matéria-prima que consta no sushi, o peixe.
Aquando da reabertura adiantam que o regresso dos clientes ao local foi calmo, “sem enchentes”, e que ao longo do mês de Julho se começa a ver uma melhoria gradual uma vez que também os turistas começam a aparecer em maior número, algo que não se via antes da pandemia, salienta Leonardo Araújo.
Na perspectiva do sushiman, este regresso lento é visível sobretudo a partir do número existente de reservas, uma vez que antes da pandemia seria necessário reservar mesas com alguma antecedência, uma vez que os dois turnos existentes à noite ficavam completamente lotados, algo que agora acontece “de forma mais aleatória”, diz.
Apesar de considerarem que aqueles que visitam o restaurante se sentem seguros e cumprem as recomendações de segurança, “há ainda clientes que vêm cá buscar take away mas que ainda não vieram à sala, isso há”, o que os empresários consideram ter a ver “com o facto de terem pessoas mais debilitadas na família ou com o facto de eles próprios serem mais velhos ou terem crianças”.
Ainda assim, para atrair mais esses clientes e para os fazer sentir mais seguros, Cristina Machado adianta que o P’alma Sushi terá a partir da próxima semana acesso a uma esplanada no exterior do estabelecimento.
Quanto às perspectivas de futuro, apesar da sua estratégia estar delineada até em caso de surgir uma nova vaga do novo coronavírus, os empresários acreditam que caso não exista mais tanta procura, seja pela parte dos locais ou dos turistas, “todos se irão ressentir, e estou convencida de que a economia a nível global vai ter menos dinheiro para gastar, o que fará com que a restauração sofra como aqui há alguns anos”.
Porém, e apesar de alguma concorrência desleal que surgiu aquando da pandemia, Cristina Machado e Leonardo Araújo mantêm a fé e o optimismo em melhores dias.

 

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