Filarmónicas da Povoação temem que paragem devido à pandemia leve à desmotivação e à desistência dos músicos

Sociedade Filarmónica Marcial Troféu (Vila da Povoação)

Apesar ter a denominação actual desde o ano 1912, as fundações da Sociedade Filarmónica Marcial Troféu vem já de tempos mais longínquos. A banda resultou de uma fusão de duas bandas rivais. Tal como explica o Vice-presidente da Marcial Troféu, Dâmaso Vasconcelos, “o nome da banda advém de uma outra mais antiga, de 1800 e tal, e para ninguém das bandas rivais ficar a ganhar, foram buscar o nome de uma mais antiga que já tinha existido e desaparecido”.
Nos tempos que correm, a Sociedade conta com 35 elementos e a Escola de Música tem 12 alunos.
“Temos 12 que fazem diferentes tipos de formação musical e instrumento de sopro. Modéstia à parte considero que temos uma escola bem estruturada. Aqui só não aprende quem não quer”, realça.
Dâmaso Vasconcelos falou do momento actual porque atravessa esta Banda Filarmónica, destacando que muitos dos músicos, “na sua grande maioria jovens” vão demonstrando alguma ansiedade quanto ao reinício dos ensaios. O Vice-presidente da Marcial Troféu destacou uma iniciativa que a banda levou a cabo durante o tempo de encerramento devido à pandemia de Covid-19.
“Temos aqui as Festas do Santíssimo Sacramento, do Corpo de Deus que são importantes para nós. Nessa data, cada músico gravou individualmente o Hino e depois juntou-se tudo e, no dia da festa, colocamos o Hino online para não deixar passar a data em claro”, destaca Dâmaso Vasconcelos que demonstra intenção de repetir esta experiência. 
O Vice-presidente da Sociedade Filarmónica Marcial Troféu revelou que os ensaios já recomeçaram apesar de estarem a ser feitos em modelos completamente diferentes do que acontecia anteriormente. 
“Já retomamos alguns ensaios, sempre com um número reduzido de músicos. Temo-nos dividido em mais dias. Dá mais dias de trabalho mas menos ensaios para cada músico porque vão poucos de cada vez. Vamos ver como as coisas correm para depois podermos retomar a nossa actividade normal”, afirma.
Com a paragem geral e com o já conhecido cancelamento das Festas e dos serviços, Dâmaso Vasconcelos confessa que a filarmónica irá passar por dificuldades financeiras depois desta longa paragem e diz estranhar o silêncio em torno desta realidade
“De certa forma espanta-me o silêncio de todas as bandas porque, nós aqui, não chegamos a fazer um único serviço (…) Para quem vive dessa receita e desse trabalho eu não sei como é que se vai sobreviver. Vamos empurrando para a frente com o dinheiro que ainda há, mas julgo que a nossa situação será a situação da maioria das filarmónicas que não tem grandes receitas”, afirma.
Dâmaso Vasconcelos considera, por isso, que as filarmónicas devem ser alvo de uma ajuda mais concreta por parte das entidades governamentais.
“Já alertamos as autoridades locais para os problemas que temos e que não vamos conseguir passar para o próximo ano assim. Estamos na expectativa para que exista uma atenção especial para esse facto”, referiu.
Quando questionado sobre o facto de esta paragem poder vir a levar ao encerramento da filarmónica, o Vice-presidente da Marcial Troféu admite que esse risco “está sempre presente” mas que tudo será feito para que esse cenário não se concretize.
“Nem posso ouvir falar disso. O risco existe sempre mas nem que tenhamos de ir de porta em porta pedir dinheiro caso quem de directo não assuma as suas responsabilidades. Alguém tem de nos ajudar. Somos os primeiros na linha da frente a meter a mão no nosso próprio bolso se for preciso. Esta também é uma responsabilidade comunitária. Nós vamos fazer tudo por tudo para que isso nunca venha a acontecer e esperamos que outras pessoas estejam sensibilizadas para este tipo de situação”, afirma Dâmaso Vasconcelos.

Sociedade Musical Nossa Senhora da Penha de França (Água Retorta)

Fundada a 20 de Maio de 1947, esta Filarmónica tem, nos dias que correm, nas suas fileiras 32 músicos. Baltazar Franco é a face mais visível desta Banda e para além de Presidente é também o seu maestro. Com 6 alunos na sua Escola de Música que “reiniciou a sua actividade a 15 de Junho”, a Sociedade Musical Nossa Senhora da Penha de França está igualmente já a pensar na retoma dos seus ensaios depois da longa paragem.
“Neste momento estamos a tentar fazer um ensaio ou outro para prepararmos alguma coisa para Festa da nossa padroeira. Isso acontece agora em Agosto e apesar de não haver festa propriamente dita, o Padre solicitou se podíamos gravar o hino da padroeira e uma marcha ou duas. Não vai haver procissão este ano, mas penso que vai ser feita qualquer coisa”, realça.
Sobre o futuro, Baltazar Franco não consegue garantir que este tempo de inactivade não tenha como consequência a desistência de alguns dos seus músicos.
“Tenho falado com alguns e penso que não, mas estivemos muito tempo parados e não posso garantir. 
As suas rotinas de ensaio, duas vezes por semana, foi completamente alterada. Alguns já se habituaram a chegar a casa e ter o comando da televisão na mão (riso) e pode ser mais difícil voltar, mas espero bem que regressem”, garante.
Relativamente à vertente financeira, o Presidente da Sociedade Musical Nossa Senhora da Penha de França, garantiu que as contas encontram-se equilibradas.
“Estão controladas. Não somos uma banda muito grande e não tínhamos muitos compromissos contractuais que tivéssemos de assumir. Os músicos não ganham nada e são aqui da freguesia”, destaca.
Apesar dessa estabilidade, Baltazar Franco considera que é necessário apoiar as bandas filarmónicas que, na sua opinião, foram durante algum deste período deixadas à sua própria sorte.
“Houve um tempo que estivemos completamente à deriva e sentimo-nos um bocado abandonados. Já existe um regulamento próprio para as bandas mas acho que fomos, como sempre, o parente pobre da cultura e nunca se lembraram de nós e, quando se lembram, é sempre de maneira muito vaga (…) A Câmara já mostrou disponibilidade para se reunir com as bandas mas ainda não há nada de concreto”, afirma o Presidente da Sociedade Musical Nossa Senhora da Penha de França.

Sociedade Musical Sagrado Coração de Jesus (Faial da Terra)
A terminar esta nossa viagem, fomos perceber como está a Sociedade Musical Sagrado Coração de Jesus a atravessar por esta situação atípica com que se deparou durante o ano de 2020.
Esta filarmónica, fundada a 18 de Abril de 1894, contou com o apoio financeiro inicial do Marquês da Praia e Monforte que entendeu, há época, que a sua criação era “uma iniciativa de grande alcance social e educativo” tendo por isso oferecido os instrumentos musicais em honra do Sagrado Coração de Jesus.
Na actualidade, a filarmónica tem 28 elementos e a sua Escola de Música, não chegou a abrir, como esclarece o seu maestro João Pedro Resendes, que destaca como sua maior preocupação, a desmotivação dos membros da Filarmónica.
“Estamos parados há 4 meses, o nosso principal problema é a desmotivação que pode acontecer nos nossos elementos sobretudo nos mais jovens. A nossa banda é na grande maioria formada por pessoal novo, exceptuando 3 ou 4 de mais idade. A nossa motivação vem dos serviços que fazermos, vem dos ensaios e do facto de estarmos todos juntos e a trabalhar em prol da instituição. Tentamos motivar-nos uns aos outros para isso e é claro que neste momento o meu principal medo é a falta de motivação dos músicos”, afirma.
Apesar de ter uma situação estável, o Maestro da Filarmónica do Sagrado Coração de Jesus, realça que a instituição não ficará imune a problemas financeiros num horizonte mais alargado.
“A nível financeiro estamos numa situação estável. Não temos despesas recorrentes neste momento a não ser a luz e a água. Mas é claro que, como nós só trabalhamos numa época do ano, não somos imunes. É claro que não fazer serviços nos prejudica a médio e longo prazo mas, para já, vai dando para irmos vivendo”, frisa..
João Pedro Pedro Resendes considera igualmente que as entidades responsáveis estão a fazer tudo ao seu alcance para apoiarem as bandas filarmónicas.
“Claro que os apoios são fundamentais neste momento. A alteração legislativa que existiu relativamente ao programa de apoio às bandas filarmónicas foi muito bem vindo. A Câmara Municipal também manifestou a sua preocupação, tanto é que este ano eu penso que o apoio é superior ao dos últimos anos. Penso que as entidades estão alerta para a situação das filarmónicas”, destaca.
Numa freguesia com uma população reduzida e com um índice de envelhecimento alto, o maestro teme que o desaparecimento da filarmónica possa ser uma realidade dentro de algum tempo.
“Não temo o desaparecimento da banda a curto prazo. Agora, e não tem a ver com a pandemia, é um cenário que não se pode deixar de ter em consideração no futuro. Com pouca população, população envelhecida e com cada vez menor interesse dos jovens em se juntarem à banda, torna-se muito complicado manter uma filarmónica em funcionamento. De qualquer forma, tudo iremos fazer para que isso não aconteça”, garante João Pedro Resendes.   
            

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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