26 de julho de 2020

Coisas do Corisco

Será a idade o Mestrado da vida?

Para responder directamente a essa pergunta, diria que sim, mas também que não, dependendo do ponto de vista que se quer abordar.
Se o quisermos responder acerca da nossa idade, em termos de longevidade, diria que a idade não é nenhum mestrado mas sim algo muito mais complicado ou, uma grande chatice pelas restrições   que nos traz, pela energia que deixámos de ter,  e se some  quase como por magia; ou ainda, pela insegurança que nos provoca em coisas simples como os movimentos  que, não há muitos anos, nem sequer nos apercebíamos quão difíceis eram,  e quanto nos custa, agora, aprender a executá-los de uma forma segura. 
Outra questão em relação  à idade, é aquela que se prende, nos dias de hoje, à sua posição no seio da cidadania, onde a educação contemporânea, na sua maioria, olha os idosos quase como uma praga, que terá que desaparecer para que a vida da nossa população melhore. Contudo, mais grave ainda, é que os próprios governantes pensam que os idosos são a causa eminente da falência do nosso sistema social, esquecendo-se de que eles não devem, rigorosamente nada ao  sistema. Os pensionistas descontaram, toda a sua vida de trabalho, as verbas necessárias  que,  salvaguardadas como deveriam ter sido, e não roubadas e desviadas pelos governantes para outros fins, como o foram, o sistema social teria o dinheiro necessário e suficiente para as pensões dos reformados sem lhes lavarem a cara.
Finalmente existe a outra faceta do idoso que foi mudando, para pior, à medida que o tempo foi devorando o tempo. Assim, a idade tornou-se, acima de tudo, num problema educacional em que a sabedoria dos idosos e o pedestal de sábios conselheiros, ainda  preponderante na esmagadora maioria das civilizações mundiais,  foi desaparecendo paulatinamente na Europa, ao ponto de hoje em dia, serem os cursados e doutorados europeus, a saberem tudo, a dominarem tudo, e a lutarem, por todos os meios, para terem tudo, considerando os idosos em lixo.
Uma das coisas que meu pai me ensinou, e me aconselhou  bastante, enquanto criança e adolescente,  foi sobre a obrigação que eu tinha de, usar todo o meu respeito pelos defeituosos e pelos idosos: os defeituosos não lhes alcunhando pelas suas mazelas, mas elos seus verdadeiros nomes; os idosos como pessoas importantes que eram na comunidade, acatando os seu conselhos, e aprender muitas coisas da sua experiência de vida.
Essa educação foi de tal maneira influente que me recordo  de quando fui estudar para Portugal, o maior amigo que fiz e visitava com alguma assiduidade para o cumprimentar, e ouvir as suas experiências de vida quando foi médico militar nos palcos da primeira guerra mundial; assim  como criei uma proximidade muito sólido com um dos meus professores, o qual veio a ser padrinho da minha filha, e embora tivéssemos uma grande diferença de idades, as nossas famílias começaram a passar férias todos os verões juntas em Portugal, ou no estrangeiro.
Por isso, habituei-me, desde sempre, a conviver e a fazer amizade com gente muito mais velha, recordando também, com muita saudade, o Dr Bettencourt, médico analista da nossa praça, o Engenheiro Costa Matos.
Por tudo isso,  custa-me imenso constatar que a educação no ponto de vista social  deixou praticamente de existir para dar lugar a uma educação  assente no repentismo, na  fundamentalidade económica, em vez da fundamentalidade dos direitos, no escalonamento das hierarquias onde os velhos praticamente não constam, assim como ao esquecimento de que uma mentalidade idosa sã, poderia, pela sua grande utilidade, continuar a servir o país e a cidadania.    
Por isso custa sermos obrigados a ver, menentes, a prepotência desses recém formados, cheios de canudos, com uma caterva de mestrados à pressa, doutoramentos apensados ao curriculum, feitos convencidos arautos da sapiência, a espezinharem, autenticamente, os idosos, quando com a sua bagagem intelectual, possuem, muitas vezes, menos conteúdo do que muitos idosos, que têm apenas a quarta classe antiga.
E são esses pequenos lunáticos, que convencidos deuses, se combatem uns aos outros na disputa do pelouro que lhes poderá trazer a fortuna mais imediata ou, então, a manjedoura que lhes sacie a fome do protagonismo, esquecendo-se que, para além deles, existem os outros com a sua moral e profissionalismo, ou então aqueles que na aposentação, cansados, já com muitos anos de vida, ainda são uma grande ajuda à educação dos seus netos.
Para além de tudo aquilo que foi dito, e bastante importante, é que os idosos, senhores ainda das suas faculdades mentais,  não têm paciência para aturarem a impertinência desses embirrentos meninos, cuja cultura geral e moral, até envergonham a nossa sociedade.     
 

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima