Loja reabre totalmente remodelada

“Cerâmica Vieira” continua a produzir e a deslumbrar com as suas peças

A Cerâmica Vieira apresenta uma aparência renovada. Segundo uma das suas sócias gerentes, Manuela Vieira, as remodelações “vieram dar mais espaço e claridade à loja, mantendo sempre o antigo”, ou seja, “o tradicional, como as pedras de lavoura e a tijoleira, que outrora já existiam”.
De facto, a loja tem agora mais expositores e mais peças para todos poderem admirar e escolher, com o selo de garantia da “Cerâmica Vieira”, onde a qualidade sempre foi a sua principal preocupação, já há muito reconhecida.
“Desde de 2015, que se nota uma procura maior, também por causa da maior afluência de turistas que disparou a partir desse ano”.
Para melhor comodidade dos seus clientes, a “Cerâmica Vieira” tem também o seu parque de estacionamento que “se torna essencial, mesmo para quem também quer só visitar as instalações e o Museu da Empresa da Cerâmica Vieira”, onde os visitantes são convidados a percorrer a instalações e acompanhar de perto todo o processo produtivo, que é prolongado. 
Nos vários pavilhões podemos observar outros instrumentos para a feitura da cerâmica e também inúmeras peças, onde algumas estão à espera do forno e outras da pintura.

Na família há cinco gerações

Para além de Manuela Vieira, são também associadas da empresa Leonor Vieira e Teresa Vieira.
Nesta visita que realizamos à “Cerâmica Vieira” também tivemos a oportunidade de falar com Teresa Vieira, que nos revelou, que já ali está há 40 anos. No entanto, “antes de vir para aqui, meu pai pedia-nos sempre para virmos para a fábrica ajudar”, despois das obrigações escolares.
A “Cerâmica Vieira” mantém-se na família há cinco gerações.
 No presente “tem sido uma caminhada razoável, com altos e baixos, como tudo na vida”, e à excepção dos meses de confinamento por causa da pandemia do Covid-19, “tudo decorre conforme planeado”. 
Teresa Vieira relevou ainda que a “Cerâmica Vieira” é quem prepara a sua matéria-prima, que depois é misturada resultando numa pasta única e diferenciada. A concepção das peças de olaria torna a sua secagem lenta, porque todo o processo é manual.
Segue-se a secção dos fornos, que cozem as peças a altas temperaturas, seguindo-se o processo da vidragem, onde as peças são banhadas a branco e decoradas, para de seguida serem expostas novamente ao calor dos fornos.
As cores predominantes são o azul e branco, que ao pintar são de cor rosa, mas que depois de irem ao forno passam a azul.
 
A arte de saber fazer

Num dos pavilhões, Fernanda Melo é uma das colaboradoras da “Cerâmica Vieira” que dá forma ao barro que resulta da matéria-prima. No momento, fazia uma compoteira, onde pudemos constatar a sua dedicação e habilidade, a mesma da sua irmã, Lúcia.
Helena Alcaidinho estava numa secção ao lado, onde se dedicava à pintura, uma tarefa minuciosa, que exige muita concentração.            

Marco Sousa

A persistência de uma família que transforma “o barro em arte” (Texto de Armando Côrtes Rodrigues)

Tudo começou em 1860, quando Bernardino da Silva, natural de Vila Nova de Gaia, depois de decidir fixar residência na ilha de S. Miguel, resolveu ir à sua terra natal buscar, como colaborador, o técnico ceramista Manuel Leite Pereira e, assim, aproveitar a já confirmada competência dos oleiros micaelenses.
Em 1862, Bernardino da Silva e Manuel Leite Pereira, conjuntamente com Tomaz d`Ávila Boim, da ilha do Pico, e Manuel Joaquim do Amaral, da Povoação, fundaram a sociedade “T. A. B. & Cª - S. Miguel, Açores”, sediada no Porto dos Carneiros.
Com a saída dos sócios Boim (1869) e Leite Pereira (1872) a unidade industrial pertenceu exclusivamente a Bernardino da Silva e, por morte deste, passou a ter como proprietário António Jacinto da Silva, que casara com a sobrinha. Mais tarde, em 1934, por motivo de falecimento de A. J. Silva sucederam na gerência da empresa seus genros Guilherme Borges Gouveia e José Augusto Martins Vieira. Este último, mais tarde, passou a ser o único detentor da sociedade e, em 15 de Julho de 1974, a firma passou a adoptar o nome de “José Augusto Martins Vieira e Filhos Ldª”, denominação que ainda hoje se mantém, passando a contar também como sócios os seus filhos António José da Silva Martins Vieira (e sua esposa Marta de Fátima Resendes Vaz do Rego Vieira) e Maria Eduarda da Silva Vieira da Câmara. 
Por falecimento de José Augusto M. Vieira, o seu filho António José da Silva Martins Vieira e esposa tornaram-se nos únicos proprietários. Em 1985 a empresa adquiriu as instalações da “Cerâmica Leite” onde, a partir de Dezembro de 1992, e após obras de remodelação e diverso tipo de investimento, a “Cerâmica Vieira” passou a desenvolver toda a sua actividade.
Mais tarde (1998), ao casal juntaram-se as filhas como associadas da empresa.
A “Cerâmica Vieira” tem-se mantido sempre na mesma família, fruto de uma grande persistência e espírito de luta. Vai, portanto, já quinta geração. 
Foi a primeira fábrica do género existente nos Açores e, entre as várias experiências feitas no passado, é a única que conseguiu sobreviver até aos nossos dias.
A “Cerâmica Vieira” produz louça decorativa, azulejos, tijoleira e telhas (de canto) e tem uma vasta e rica tradição no sector. A qualidade tem sido, sempre, a sua principal preocupação, fruto do labor de mãos habilidosas que modelam o barro e decoram várias peças com desenhos originais. 
A “Cerâmica Vieira” é a única fábrica de cerâmica vidrada nos Açores que produz na totalidade a sua louça nas suas instalações, e por processos artesanais, desde a modelagem na velha roda de oleiro até à pintura manual, com desenhos muito característicos, onde predomina a cor azul, vulgarmente conhecida por “louça da Lagoa”, e que há muito transpôs as fronteiras do concelho, espalhando-se pelos quatro cantos do mundo.
Os azulejos são também fabricados por meios artesanais, apresentando uma pintura com padrões muito próprios, mantendo assim todas as características do azulejo primitivo, e usados também em painéis decorativos.
Na “Cerâmica Vieira” não se importa louça e azulejo pré-fabricados, e por métodos mecanizados, para posterior decoração…
A matéria-prima, o barro, vem não só da Ribeira Grande e ilha de S. Maria como também do Continente.
Apesar da forte concorrência que se tem feito sentir, principalmente do exterior da Região, os produtos da “Cerâmica Vieira” têm vindo a ser apreciados, cada vez mais, pelo público em geral, o que se traduz em encomendas para todo o tipo de eventos, tais como casamentos, baptizados, congressos, aniversários, entre outros.
Perante uma variada gama de modelos, o consumo regional está mais direccionado para a louça de uso doméstico, serviços de chá e de café, e também para artigos decorativos, não havendo qualquer tipo de limitação para a criação, satisfazendo assim as pretensões dos clientes que demandam a fábrica.
“Tradição” e “qualidade” são duas palavras-chave da “Cerâmica Vieira”.
É hoje o “ex-libris” do concelho da Lagoa.
Uma visita à “Cerâmica Vieira” constitui uma paragem obrigatória não só para os turistas, pois está incluída no roteiro turístico, como também para todos aqueles que apreciam o artesanato.
Por outro lado, visitar o “depósito-museu” da “Cerâmica Vieira” é ter, sem dúvida, oportunidade de apreciar algumas centenas de belos e valiosíssimos exemplares de olaria ali existentes, concebidos e fabricados pelos seus numerosos oleiros – autênticos artistas nesta especialidade. 
É ter também a ocasião de contemplar alguns dos utensílios utilizados desde os primórdios da cerâmica na Lagoa, autênticos pedaços vivos dos 144 anos da história da “Cerâmica Vieira”, como por exemplo uma velha roda de oleiro, toda feita em madeira, com mais de século e meio de existência…
Mais do que uma simples fábrica de cerâmica, ou do retrato de um passado longínquo que ainda hoje prevalece e encanta, o barro transforma-se em arte…
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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