Presidente da União das Misericórdias dos Açores reconhece que Covid-19 limita a liberdade dos idosos e de familiares em prol da saúde

Tendo em conta a “realidade completamente nova” em que vive a sociedade actual, incluindo para decisores políticos e para as mais diversas estruturas e lideranças locais, António Bento Barcelos, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo irá, no próximo dia 30 de Julho, participar de uma iniciativa promovida pela Novo Dia que tem como objectivo discutir a forma como se deve “viver com a pandemia”, sobretudo na comunidade sénior.
Deste modo, antecipando aquele que será o seu papel aquando deste evento, o também presidente da União Regional das Misericórdias dos Açores realça que esta é “uma aprendizagem sobre uma pressão de uma realidade invisível e que leva a uma dicotomia de pensamento muito grande”.
Entre a prevenção e o medo de ficar doente a partir de algo que é invisível, explica, gerou-se assim “uma enorme incerteza e um discurso muito pouco claro por parte das entidades públicas e das entidades que lideram a sociedade sobre que condutas devem ter”, no entanto, “esta realidade de incerteza” deve também ser combatida com “discernimento e objectividade”, evitando assim que a sociedade tenha a necessidade de parar mais uma vez.
Isto é, apesar de acreditar que o confinamento a que se assistiu desde meados de Março até ao início do mês de Junho terá sido “apresentado aos decisores políticos e às autoridades como a alternativa mais adequada”, está convicto de que “a melhor forma de enfrentar esta doença é com calma, tranquilidade, coragem e determinação”, resultado da capacidade de adaptação de cada um.
No caso dos mais idosos, e uma vez que este ciclo de conferências digitais pretende também entender o impacto que a pandemia tem na população sénior, o provedor da Santa Casa de Angra do Heroísmo adianta que é importante que toda a sociedade ajude este segmento da população a poder conviver com este contexto através das respostas de proximidade com que esta nova realidade deve ser encarada.
Reconhecendo que esta é uma situação de muita incerteza, sendo impossível prever quantos surtos irão ocorrer e com que intensidade até que seja possível chegar a uma vacina que possa ser comercializada, e adicionando ao facto de muitos idosos terem já patologias associadas ou outras doenças graves, adianta por outro lado que se torna “extremamente difícil lidar com este contexto de uma pandemia e com pessoas desta vulnerabilidade”.
Conforme esclarece o Provedor, todo o processo no geral foi “uma aprendizagem de impacto” que começou no mês de Março e que dura até ao presente, mas que deve ser “cada vez mais alicerçada a informações de ordem técnica”, dando atenção às metodologias que forem necessárias e ao cumprimento das regras estabelecidas nas suas diversas formas tidas como mais adequadas.
“É essa a linha de conduta que é preciso ter, na família, na sociedade e também nas instituições sociais que possam ter valências de acolhimento a pessoas de idade mais avançada ou com elevado nível de dependência mesmo que não sejam seniores”, diz António Bento Barcelos.

Continuidade na prestação de cuidados de saúde é “grande preocupação”

No que diz respeito aos cuidados de saúde prestados à comunidade de uma forma geral pelo Serviço Regional de Saúde desde a chegada da Covid-19, o presidente da União Regional das Misericórdias dos Açores salienta que esta é “uma preocupação muito grande para a sociedade, para a família e para os cidadãos”.
Contudo, embora reconhecendo que em muitos casos não foi dada a prioridade merecida aos doentes não Covid, está convencido de que o Serviço Regional de Saúde e demais estruturas, bem como os profissionais de saúde das nove ilhas dos Açores, não terão negligenciado estas situações.
“Esta preocupação existe e não deve ser escamoteada, se bem que estou convencido de que o Serviço Regional de Saúde, as estruturas hospitalares, as unidades de saúde de ilha, as entidades responsáveis politicamente e também a sua administração, bem como os próprios profissionais de saúde, não negligenciaram as outras situações que não eram covid, embora em certos períodos tenham dado mais prioridade às situações desta doença pandémica, e certamente que há pessoas com outras patologias que não tiveram o mesmo nível de atendimento atempado e cuidado como numa situação anterior”, diz.
Neste sentido, acredita que este seja um dos grandes desafios que se coloca ao Serviço Regional de Saúde – bem como às entidades responsáveis pela saúde das populações espalhadas pelo globo – e a todas as estruturas responsáveis, “desde os políticos aos próprios profissionais de saúde ao se conciliarem estas duas realidades”.
“Corresponder àquilo que são todas as medidas que estão a ser seguidas para conter a pandemia e defender as pessoas deste vírus e desta doença, mas ao mesmo tempo ter e dar resposta a todas as pessoas que possam precisar de cuidados de saúde, mesmo noutras doenças e patologias, é um grande desafio não só em termos de recursos humanos mas também do ponto de vista financeiro (…).
Conciliar estes sectores de atenção desde a componente financeira até à componente operacional, de administração etc., temos de o fazer (…), não podem as pessoas ficarem com outras patologias ou, na prevenção da sua saúde, não podem ficar marginalizadas, afectadas e secundarizadas em função da realidade que se impõe da pandemia”, adianta ainda.
Quanto à situação que foi vivida na estrutura residencial para idosos da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste, onde vários utentes foram infectados pelo novo coronavírus e de onde resultaram 13 das 16 mortes causadas pela infecção no arquipélago, o presidente da União Regional das Misericórdias dos Açores refere que esta foi “uma infelicidade enorme”.
“Foi um contexto extremamente infeliz (…), ninguém provocou esta situação intencionalmente, nem tão pouco se previa que houvesse alguma fonte de contágio no contexto de uma unidade de saúde hospitalar, mas aconteceu.
Todos nós sentimos muito, em especial a comunidade de Nordeste e a Santa Casa do Nordeste, e a União Regional das Misericórdias dos Açores tomou uma posição solidária com a Santa Casa da Misericórdia do Nordeste e com os poderes instituídos como a Câmara Municipal porque vimos o quão devastador foi. Foram 13 os falecimentos que se verificaram naquela comunidade, e que é um contágio enorme”, ressalta.
Apesar de esta ser uma situação que foi já ultrapassada no concelho de Nordeste, António Bento Barcelos considera que este é um contexto que “se pode agravar a qualquer momento”, conforme a evolução da situação epidemiológica da Região.

Medidas de prevenção
e direitos humanos

Ao se analisarem os impactos causados pela pandemia, sobretudo na comunidade sénior, é fácil entender que o novo coronavírus e as medidas de segurança e prevenção que foram entretanto estipuladas acabam por “limitar bastante os direitos das pessoas”.
Isto é, se antes – tendo como exemplo as Misericórdias – as visitas eram normais, regulares e até incentivadas, passou-se para o extremo oposto em que este período de contacto com o exterior chegou inclusivamente a ser cortado por completo.
“Procurámos que as comunidades residentes de pessoas idosas ou dependentes fossem cada vez mais integradas na sociedade, que a família, os amigos e os vizinhos os viessem visitar. Mas depois tivemos que entrar numa acção completamente diferente e contrária a esta”, conta, insistindo para que não fossem realizadas visitas.
De momento, refere, foram retomadas as visitas embora não no seu padrão “normal”, mantendo-se a restrição de uma visita por semana e durante poucos minutos “para dar oportunidade para que outros possam receber as suas visitas”.
Para António Bento Barcelos, embora esta seja uma limitação à liberdade e dos demais direitos sociais e humanos, interessa perceber que “há uma causa maior que é defender a saúde de cada um. Neste caso defender os seniores da doença da Covid-19 e defender a vida”, adianta.
“Em bom rigor a sociedade vive uma dualidade: Para tomar as medidas de protecção relativamente a este efeito tão devastador de uma pandemia que pode levar à doença e à morte, tem que se pôr em causa aquelas que eram as convivências normalíssimas da relação entre as pessoas, mesmo entre amigos e famílias”, conclui.

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