Relatório “Blue Azores – o segredo mais bem guardado dos Açores”

Ecossistema marinho açoriano é “vibrante e diversificado”, mas está sob grande pressão de numerosas ameaças humanas

O relatório científico intitulado “Blue Azores – o segredo mais bem guardado dos Açores”, datado de 2019, começa por dar conta de que “as águas em redor do Arquipélago dos Açores contêm alguns dos mais importantes ambientes insulares, de mar aberto e de oceano profundo do Atlântico. Apesar da sua relevância, este inestimável, frágil e insubstituível capital natural azul está ameaçado e precisa de ser protegido”.
Segundo os investigadores que assinam o documento (Friedlander AM, Afonso P, Morato T, Carreiro-Silva M, Fontes J, Abecasis D, Ballesteros E, Botelho AZ, Diaz D, Das D, Dominguez-Carrió C, Caselle J, Estep A, Goodell W, Milla D, Ocaña O, Pham C, Pipa T, Rose P, Salinas de León P, Schmiing M, Silva C, Taranto G, Tempera F, Thompson C, Verdura J, Sala E, Gonçalves EJ) “o Programa Blue Azores tem como visão contribuir para que os Açores sejam uma economia modelo para uma sociedade azul onde o capital natural é protegido, valorizado e promovido. Esta economia é baseada no uso sustentável do capital natural por empresas e sectores da sociedade civil associados ao mar, com acções de conservação efectivas abrangendo todo o ambiente marinho”. E foi nesse sentido que, segundo o relatório, “o Governo dos Açores estabeleceu uma parceria com a Fundação Oceano Azul e a Waitt Foundation para implementar esta visão. O Programa Pristine Seas da National Geographic é também parceiro, juntamente com a Universidade dos Açores, o IMAR - Instituto do Mar, o Instituto Hidrográfico, a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental e muitas outras instituições e investigadores de todo o mundo. Foram organizadas duas expedições científicas, uma, em 2016, ao grupo oriental e outra, em 2018, aos grupos Central e Ocidental. Os resultados destas expedições, juntamente com informação resultante dos esforços de investigação em curso nos Açores, mostram um ecossistema marinho vibrante e diversificado, mas que está sob grande pressão de numerosas ameaças humanas”.

Mero, uma espécie em perigo
No que respeita a comunidades intertidais, relatam os cientistas, “as poças de maré são habitats essenciais para inúmeros peixes e invertebrados nos Açores, incluindo juvenis do mero, Epinephelus marginatus, uma espécie em perigo segundo a UICN. Estes habitats estão sob crescente pressão e precisam de ser protegidos. As lapas Patella candei (intertidal) e P. aspera (principalmente infralitoral) são espécies-chave comercialmente importantes, que têm sido intensamente exploradas e cujas populações quase colapsaram”.
Referem os cientistas também que no que toca a comunidades bentónicas,  “as comunidades de algas nas zonas mais profundas (~ 20 m) são dominadas pela alga castanha Zonaria tournefortii, enquanto a profundidades mais baixas (~ 10 m) essas comunidades são mais variáveis, com a importância relativa das diferentes espécies a diferir consoante o local. O Banco Princesa Alice é o mais distinto biologicamente em relação às ilhas. O Faial apresenta uma comunidade bentónica distinta, sendo as algas em tufo (turf) e a areia mais abundantes. As macroalgas eretas foram mais abundantes no Corvo, Flores e Pico. As Formigas e Santa Maria são semelhantes com base nos grupos funcionais bentónicos. As Formigas apresentaram a maior biomassa de algas, consistindo principalmente de densas florestas de macroalgas, Cystoseira e Sargassum. Em águas mais profundas (> 45m) deste monte submarino, encontra-se descrita a ocorrência de florestas de kelp (Laminaria ochroleuca). Algumas espécies de algas invasoras, incluindo do género Asparagopsis, são abundantes em todo o arquipélago”.  
No referente ao número de peixes de recifes costeiros variou entre as ilhas, os cientistas sublinham que a maior riqueza específica observada nas Formigas e no Faial e a mais baixa nas Flores e no Corvo. A biomassa de peixes também foi maior nas Formigas e no Faial e menor nas Flores e em São Miguel. Os valores mais elevados de biomassa foram observados nas Formigas e dentro da reserva voluntária do Corvo, que são ambas áreas marinhas (AMPs) fortemente protegidas. A biomassa total de peixes nos Açores é comparável a áreas intensamente exploradas no arquipélago da Madeira e nas Ilhas Canárias”.
Dizem os autores do relatório que foram “observados muito poucos predadores de topo. A pressão sobre os recursos costeiros parece ser a principal causa destes baixos valores de biomassa, com o uso de redes disseminado nas zonas costeiras de algumas ilhas. Para estudar o movimento dos meros (E. marginatus), uma espécie «Em Perigo» segundo a UICN, ao redor da Ilha do Corvo, foram capturados sete peixes dentro da reserva voluntária, que foram marcados com emissores acústicos e libertados. Todos os meros permaneceram dentro desta pequena reserva por um período de dois meses, mostrando a eficácia das AMPs de proteção total para a conservação desta espécie. Foram documentadas ocorrências junto à costa de tubarão-martelo (Sphyrna zygaena) e de cação (Galeorhinus galeus) por meio de telemetria acústica, sistemas remotos de vídeo subaquático e entrevistas com pescadores e investigadores. Os tubarões-martelo são avistados durante os meses de Verão, com pequenos grupos de juvenis, na costa sul da Ilha das Flores. No Faial, Graciosa e Santa Maria (geralmente na costa norte), observaram-se grupos maiores desta espécie com agregações de até 20 indivíduos de aproximadamente 1-1,5 m de comprimento. A telemetria mostra que residem nas ilhas durante toda a fase de juvenil. Ocasionalmente, foram também avistadas grandes fêmeas grávidas”.
Dão conta ainda os investigadores de que os ecossistemas de recife circalitoral ou mesofóticos (30-150 m) têm recebido relativamente pouca atenção devido à dificuldade em estudar estes habitats mais profundos. Utilizaram-se sistemas de vídeo subaquático remotos com isco (BRUVS) para estudar estas comunidades. Foram descobertas comunidades circalitorais desconhecidas, que abrigam espécies frágeis que formam habitats de elevado valor de conservação, como corais duros, gorgónias, hidroides da Classe Leptothecata e grandes esponjas. Surpreendentemente, não foi observado nenhum tubarão nestes recifes, que deveriam ser um refúgio para este grupo.

Falta conservação
Mais, adiantam no relatório que “os recifes circalitorais dos Açores são ricos em espécies e merecem uma atenção especial, uma vez que a maioria não se encontra abrangido por medidas de conservação eficazes, e a escassez de grandes peixes predadores nestes recifes poderá ser um sinal de impactos significativos da pesca. As comunidades pelágicas dos grupos ocidental e central dos Açores foram amostradas”, referem os investigadores, “sendo as espécies mais abundantes pequenos peixes de cardume: o apara- lápis (Macroramphosus scolompax), o pimpim (Capros aper) e o chicharro (Trachurus sp.).
Observaram-se regularmente tubarões, nomeadamente tubarões-azuis (Prionace glauca) e o rinquim (Isurus oxyrhynchos), que ocorreram em 32% e 23% dos locais, respectivamente”.
O relatório científico foi encomendado pelo Governo Regional dos Açores e é um importante instrumento de trabalho sobre o ambiente marinho açoriano e a sua complexidade, assim como que espécies por estes mares navegam e as que estão em perigo.


N.C.

 

Foto: Relatório Científico Blue Azores

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Autor: CA

Categorias: Regional

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