31 de julho de 2020

Chá da Cesta - 40

Chá em Portugal Continental:

Entre os anos 1855 e 1861, portanto, antes da experiência micaelense (da SPAM, de 1878, mas, no mínimo, contemporânea da experiência de sócios dela, pois, já em inícios da década de sessenta José e Ernesto do Canto e José Jácome Correia, desenvolviam as suas), Joaquim Manuel de Araújo Correia de Morais, “que foi Professor do Real Colégio da Missão Portuguesa de Pequim,” em Portugal, apresentou-se na Corte de D. Pedro V [rei entre 1853 a 1861] a promover um projeto da cultura do chá, propondo-se divulgar conhecimentos que adquirira, e sugerindo a importação de sementes de onde fosse possível (Minho e Brasil, sobretudo).1 Dizia-se conhecedor da planta do chá (e do seu fabrico), que cultivara, talvez no Bombarral, após o falecimento do Bispo eleito de Pequim, em Outubro de 1852. Pouco se sabe da vida de Morais, além do que já foi dito: quando e onde nasceu? Quando e onde faleceu? Sabe-se que, em 1871, tinha pelo menos um filho, que moraria em Almada e que, em 1881, era já professor jubilado.2 Talvez se pudesse saber mais através dos arquivos (a existirem, onde estarão?) do Real Colégio da Missão Portuguesa de Pequim,” em Portugal.
Na medida em que Morais segue, pela imprensa, enquanto descreve detalhadamente a sua experiência com o chá, as experiências desenvolvidas na ilha de S. Miguel, o contrário não parece suceder, pelo menos nas notas de que dispomos, e porque reclama a primazia das suas em detrimento das experiências da Ilha, ao ponto de acusar os da Ilha de “plágio” e de roubo, vamos segui-lo com cuidada atenção. É, sem dúvida, um episódio que interessa à História do Chá em Portugal.
Após esta declaração inicial, vamos ver o que escreveu o próprio Morais sobre o assunto: “(…) (p.42) Quando o autor foi ocupar a cadeira de Filosofia do Real Colégio da Missão Portuguesa, fundado pelo Bispo eleito de Pequim; achou ali arrancados uns arbustos, que lhe disserem ser de chá da China; dos quais o defunto bispo [D. Veríssimo Monteiro Serra faleceu no Bombarral em 9 de Outubro de 1852.] tirava chá do seu uso, desprezando o do comércio, embora o mandasse comprar para o gasto do Colégio.”3 Morais, de seguida, não diz exactamente quando plantou (mas depois de 9 de Outubro de 1852) “(p. 44) (…) os arbustos que não estavam mortos de todo, conseguindo uma boa porção de sementes que produziram alguns milheiros de arbustozinhos; os quais, sendo transferidos para uma quinta de terreno semelhante ao em que os primeiros tinham sido criados, adquiriram bom tamanho, e davam boas esperanças.4 Ora, para produzir semente, e para estas produzirem arbustozinhos, nunca menos de um ano a dois, portanto, em 1854 ou 1855. E para estes arbustozinhos crescerem bem, mais um ano, o que apontaria para 1855 ou 1856.
Continuemos a segui-lo, com continuada atenção, no que diz respeito a esta sua alegada (não temos contraditório) experiência inicial.5 Assinalam-se, desde logo, dois erros bastante primários para quem afirmava perceber de chá: presumira que o estado de desenvolvimento da folha dos arbustos não era essencial, diz ele, “crente, por estes factos, no que tinha lido nalguns autores, os quais afirmam que as folhas dos arbustos do chá não têm qualidades especiais,” admitia, no entanto, que utlizara um processo incorrecto de fabrico de chá, que “o sabor estítico e agradável, de que são dotadas, é obra dos que as preparam.” O conhecimento de Morais era livresco, seguindo a sugestão de autores ultrapassados. Mais tarde refere Frei Leandro do Sacramento. Pela sua imperícia, tirou uma conclusão:”(…) assentou que devia desistir da empresa começada, ou procurar quem o auxiliasse nela em benefício do país.6 
Não querendo desistir, procura quem o possa financiar. Com esse desígnio em mente, foi procurar apoio junto da Coroa Portuguesa. Caso conseguisse, seria um aliado de peso, do ponto de vista económico e político. Por esta altura, pelo que sabemos, pelo menos em relação a José do Canto, Morais estava um passo à frente no chá: “depois de ter metido numas bocetazinhas várias amostras de chá das folhas dos seus arbustos, que na aparência se não diferenciavam do chá do comércio, dirigiu-se o autor ao (p.45) Palácio das Necessidades com essas amostras e um memorial, em que relatava o estado do seu empreendimento [Onde se encontrará esse memorial? Seria um bom contributo para esclarecer este período]; pedindo ao imortal soberano, que era então el-rei D. Pedro V [Ascendeu ao trono em 1853, porém, com apenas dezasseis anos de idade, seu pai, D. Fernando II (que terá chá em Sintra), foi regente do reino até sua maioridade em 1855. D. Pedro V faleceu em 11 de Novembro de 1861.], que se dignasse de encarregar uma comissão de químicos, e de médicos, que concluíssem o que faltava, para dotar o país com a importante cultura do chá.”7 
A julgar pelo que escreveu Morais, reconhecendo o seu desconhecimento e erro, desistiu (ou foi levado a desistir pela recusa do Rei) do chá antes de Novembro de 1861, ano em que falece D. Pedro V. Anos mais tarde (infelizmente, não diz em que ano exacto), segundo ele, “estando o autor inteiramente esquecido da cultura do chá, viu no Diário de Notícias (Qual número?), um anúncio de um cavalheiro de Ponte de Lima, que dizia ter na sua quinta grande quantidade de arbustos de chá; os quais tratava.”8 Ainda assim, não dera logo importância, alegadamente “(…) por se persuadir que o anunciante estaria enganado como o autor estivera com os seus arbustos vindos da China (…).” Todavia, “passados anos [Quantos não sabemos? Finais dos anos sessenta e inícios da década seguinte?] teve a tentação de solicitar de Ponte de Lima um ramo dos arbustos anunciados, se lá se pudesse conseguir.”
Pouco tempo depois de lhe enviarem de Ponte de Lima, “(…) um caixote de formosos ramos de arbustos de chá, da mesma natureza dos que vira do Brasil.’ Morais ‘ coligiu algumas folhas, que preparou, humedecendo-as com água, para as escaldar e enrolar, obtendo delas uma infusão, que bem podia suprir a falta de alguns dos chás, que se encontram no comércio.”9 Foi a partir deste ponto que considerou ter obtido sucesso, que Morais decidiu “que o seu empreendimento (p.47) podia realizar-se com interesse de todo o país, e por isso ofereceu a sua descoberta à Sereníssima Casa de Bragança, na certeza de que esta havia de generalizá-la; porque dali costumam sair os monarcas portugueses, e a riqueza dos soberanos anda mais ligada com a de todos os súbditos do que a de qualquer companhia de comércio.”10 Por esta altura, no entanto, em S. Miguel, estava-se um passo à frente na experiência do chá.

Universidade dos Açores

Lugar Areias, Rabo de Peixe, 24 de Julho de 2020


1     Mendes Ferrão, Ob. Cit., 1992, p. 164; Entrada in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XVII, Editorial Enciclopédia, Limoada, Lisboa-Rio de Janeiro, [s/d], p.810. Aí se acrescenta que foi Professor de Filosofia no Liceu de Santarém. E dá-se nota de diversos trabalhos publicados, entre, 1838 e 1851. Não é referido o seu trabalho sobre o chá. Será a mesma pessoa?
2     Morais, Joaquim Manuel Araújo Correia de, Ob. Cit., 1881, Rascunho de Carta de Sebastião do Canto e Castro Mascarenhas, Administrador geral da Sereníssima Casa de Bragança, Lisboa, a Joaquim Morais, Ponte de Lima, 4 de Setembro de 1871.
3     Idem, p.42.
4     Idem, p.44
5     Idem
6     Idem
7     Idem, pp.44-45.
8     Morais, Joaquim Manuel Araújo Correia de, Ob. Cit., 1881, pp.46-47.
9     Idem.
10     Idem, p.47.

Mário Moura
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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