1 de agosto de 2020

Tecnologia, homem e mundo

Uma achega contra o vírus da iliteracia científica

Desde os primeiros meses deste ano vivemos num caleidoscópio de certezas absolutas sobre a Covid-19, mesmo quando num dia se afirma o contrário do afirmado na véspera. Ou da exigência dessa certeza, e em prazo curto, aos investigadores e técnicos da área. 
Compreende-se a ansiedade. Mas só contribuiremos para os melhores resultados que são possíveis se agirmos com literacia científica. Conformando-nos, pois, a noções elementares como as seguintes.
Há vários tipos de conhecimento – com destaque para o necessaríssimo senso comum! Mas, desde a Grécia Clássica, os conhecimentos melhor justificados, em cuja aplicação mais podemos confiar, são do tipo chamado “científico”.
Nos séculos XVI e XVII esse tipo de conhecimento passou por uma “Revolução Científica”. Os seus agentes assumiram um compromisso com o que se encontra no mundo, tão livres quanto possível de enviesamentos religiosos, ideológicos ou morais etc. Desde logo, no mundo material – mediante as ciências naturais. Desde o séc. XIX, no mundo social – pelas ciências sociais e humanas que tenderam a copiar as anteriores.
Os métodos de justificação, que visam eliminar os diversos enviesamentos, tiveram de se ajustar a esse compromisso.
De Aristóteles manteve-se a prática da observação direta dos fenómenos que compõem o mundo. A célebre luneta de Galileu marca porém o advento de uma observação instrumental. Que aproxima a imagem de fenómenos demasiado distantes; interpreta imediatamente fenómenos físicos (p. ex. o teste californiano às mamites na nossa lavoura); e até constrói os objetos supostamente “observados”, como no caso dos microscópios eletrónicos. Se a fiabilidade da observação natural já dependia da capacidade da nossa perceção, memória, comunicação… passou a depender também da precisão desses instrumentos.
Essas dependências complexificam a aproximação à objetividade. Além de que é possível que o que observamos diretamente seja condicionado por fenómenos que não alcançamos nessa observação (p. ex. bactérias e vírus). Em resposta, as ciências Modernas têm implementado também outros dois métodos empíricos, que porém supõem uma intervenção humana mais decisiva do que a mera mediação tecnológica.
Um deles é a experimentação: constrói-se artificialmente uma situação em que interajam os fatores que se queiram considerar, tanto quanto possível variam-se os valores de um fator enquanto se mantêm os dos restantes, e comparam-se os efeitos no conjunto. Assim se poderá reconhecer caraterísticas de um vírus.
O terceiro método é a simulação: por um lado, selecionam-se os elementos que se julgam relevantes numa “parte do mundo”, e estabelece-se a regra da sua interação, construindo um modelo do comportamento dessa parte do mundo. Por outro lado, assume-se um estado de coisas nesses elementos – as condições iniciais da simulação. “Corre-se” então o modelo a partir dessas condições e verifica-se a que estados de coisas se chega. Por exemplo, qual a evolução do contágio por um certo vírus largado num mercado chinês.
Estes dois métodos requerem enfim alguma forma de extrapolação dos respetivos resultados, obtidos em processos simplificados segundo escolhas dos investigadores, para o mundo que realmente habitamos.
A velocidade dos processos científicos, e o grau de certeza dos resultados, são sempre proporcionais às condições do(s) método(s) implementado(s).
 

Miguel Soares de Albergaria

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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