1 de agosto de 2020

A descristianização da Europa

Na minha perspetiva, a descristianização da Europa constitui a maior tragédia do mundo ocidental.
As causas desta pandemia religiosa  começam no renascimento para atingirem o auge com o advento do iluminismo no sec.XvIII com  Diderot Voltaire e os enciclopedistas e posteriormente com  as consequências do pensamento do filosofo alemão Friedrich Nietsche.
Os iluministas elevaram a razão à categoria de supremo tribunal da vida humana e a liberdade obtida através do conhecimento racional.
Depois Nietsche vem proclamar a morte de Deus e qualificar a religião cristã como uma religião de escravos assim contribuindo para a desqualificação do cristianismo como o caminho a seguir na vida pelos homens de cultura e pelo rebanho dos militantes da religião cristã.
Estou a escrever esta artigo na noite de quinta-feira santa e o que me causa “prima facie” espanto e consternação é o facto incontroverso de Cristo ter derramado o seu sangue sobre as cruzes do Calvário para libertar a humanidade do pecado e a humanidade continuar a mesma escrava e a mesma iniquidade persistir na terra dos homens tornando o seu sofrimento atroz, a cruz que carregou até ao Gólgota, praticamente inútil.
Eu afino pelo mesmo diapasão do celebérrimo escritor russo Fyodor Dostoievsky que proclamava que acreditava que Cristo era a verdade, mas se, o que só por mera hipotese académica se admite, Cristo não fosse a verdade ele preferia Cristo a Verdade.
Eu creio que Cristo é a verdade, como ele próprio o disse: eu sou o caminho a verdade e a vida, quem crê em mim não morrerá jamais. Para acreditar, para crer, é preciso querer acreditar, e indispensável uma adesão  interior já que a crença, a fé, não é racionalmente demonstrável.
Cristo ao renunciar ao mundo venceu o mundo com todas as suas ilusões e seduções, porque como ele disse o seu reino não é deste mundo e, mais importante, venceu a morte, ressuscitando.
Aparentemente vencido para o mundo venceu o mundo ressuscitando da morte e ascendendo à liberdade total do espírito.
Então porque é que a Europa, o homem europeu e muitos outros não seguem o exemplo de Cisto?
A meu ver porque a sua fé não é suficientemente forte e por isso e vencida pelo mundo, pela cidade dos homens  de que falava Santo Agostinho, e por isso deixam-se prender pelo véu de Maia, isto é, pelas ilusões da vida e pela cobiça do que o mundo oferece; isto é, o homem para ser livre tem que triunfar sobre si mesmo questionando todos os dias o motivo dos seus pensamentos e acções, ou seja tem que se libertar a si próprio  vencendo a sua cobardia espiritual.
Nenhuma religião  nenhuma doutrina defende a alma, a sua imortalidade e a sua salvação a não ser a doutrina cristã; fora da fé cristã a vida é absurda e não há saída para a condição humana.
A questão que eu tenho que colocar aqui é se eu que estou a escrever e tu que me estás a ler acreditas ou não que Cristo ressuscitou da morte.
Se acredito ou não que, por causa dele e por ele, eu também vou ressuscitar da morte.
E se ressuscitando, a minha alma se salva ou se pelo contrário se perde.
Como é que se salva a nossa alma?
Creio que é pelo amor concreto ao próximo.
Se eu não tiver amor, se eu não amar, não salvo a minha alma e tu não salvas a tua,  caro leitor.
Tem que se ter sempre presente que o mundo é inimigo da alma.
Porque o mundo não se move pelo amor mas pelo egoísmo e pela cobiça.
Ora, como não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo,  tens a liberdade e a inteligência que te foi dada para escolheres: ou serves o mundo ou serves a alma.
E de que te vale ganhares o mundo se perdes a tua alma?
O mundo é insatisfatório; nada neste mundo, todo o mundo como tudo o que ele tem de mais atraente para te oferecer te vai satisfazer interiormente; vais sempre sentir-te insatisfeito depois de saciado cada prazer, depois de aforrada certa moeda, nada nem ninguém te vão satisfazer plenamente, amar inteiramente, compreender inteiramente.
O mundo é para o homem mas o homem não é para o mundo porque  o homem não é deste mundo.
O homem comum falha por ter uma vontade fraca e reflete pouco; não consegue deixar de querer, não se cansa de querer  e nunca nada o sacia, vive numa insatisfação permanente, o que ele espera o  que ele procura , o que ele mais deseja a satisfação plena, nunca alcança.
Por isso toda a sua vida é infeliz por mais bem sucedido que ele pareça ao mundo que o rodeia.
A vitória sobre a morte está na cruz de Cristo- O que foi que ele disse ao homem rico que lhe perguntou o que deveria fazer para salvar a sua alma?
Dá os teus bens aos pobres, pega na tua cruz e segue-me; o homem rico não quis. escolheu o mundo  porque foi fraco, porque era escravo do mundo em vez de ser senhor de si próprio.
Ser livre implica ser capaz de renunciar ao que é inimigo da nossa alma.
Mas isso só se consegue com uma conversão interior de cada um, implica uma luta, uma coragem, uma resistência que cada um pode alcançar porque o homem tem forças e recursos que ele próprio nem sabe que tem; a base, a basezinha, e que ele queira mesmo;
Quando se quer mesmo com toda força da nossa alma consegue-se, porque a cruz não é maior do que o homem e Deus nunca dá uma cruz a quem sabe de antemão que nunca poderá carregá-la até ao Calvário
Há poder acima do que o homem pode, pelo que o homem se não exerce o seu poder a sua soberania, então não espere que Deus o ajude; há uma parte que compete ao homem e é para cumprir essa parte que lhe é dado o poder e a liberdade de o exercer num ou noutro sentido da sua consciência moral.
Voltando à Europa, digamos que ela ao abandonar o cristianismo vendeu a alma ao diabo.
No lugar de Deus colocou o dinheiro e no lugar da religião cristã colocou o mercado. Ou seja afinou pelo mesmo diapasão dos Estados Unidos da América do Norte que coloca os valores materiais acima dos valores espirituais.
Ou seja a Europa adoptou um modo de pensar e de viver absolutamente contrários ao cristianismo.
Ora e nisso Karl Marx estava absolutamente certo, a infra-estrutura económica determina a superestrutura cultural.
O homem europeu depois do iluminismo (que ironicamente advogava a auto libertação pelo conhecimento científico racional) passou a pensar e a agir em função da economia de mercado e do dinheiro louvado na ideia de que não se prega moral a barrigas vazias, antepôs as necessidades materiais da vida humana acima das necessidades espirituais do homem; o marxismo e o capitalismo enterraram a  moral e a metafísica e ignoraram a natureza espiritual do ser humano.
Para Marx a religião é o ópio do povo. E então o habito de jogar na bolsa, a avidez do lucro, o luxo, a ambição de poder sem limites não são  um ópio infernal sem fim à vista
E a ideia estúpida de que o progresso justifica o progresso, que o progresso é infinito e linear, que o indivíduo é um meio e não um fim em si mesmo, que se pode usar como mercadoria que se pode descartar e deitar para o lixo quando deixa de ser útil não é o mais condenável, execrável e ignominioso dos actos que um homem pode fazer no mundo?
O capitalismo faz isso; o marxismo afundou-se por si mesmo mas não é pior do que o capitalismo, apenas tem uma concepção do homem paradoxalmente idealista.
Ou seja aquilo  que são as estruturas do pecado do mundo, tal como foram acima descritas, tem que ser destruídas; o verdadeiro cristão tem que denunciar e combater activamente essas estruturas de pecado do mundo.
E como se faz isso?
Utilizando todos os meios ao seu alcance para se opor às flagrantes, atrozes e chocantes injustiças e crueldades que são a consequência inevitável da natureza profunda dessa estruturas.
Essas estruturas escravizam o ser humano, violam a sua liberdade moral, impedem-na de ser pessoa em vez de um número de contribuinte e de uma mercadoria descartável, no fundo constituem um retrocesso civilizacional e uma doença mortal para a alma. Clamando que o dinheiro e a acumulação de bens materiais não são a finalidade da vida humana, que o mercado tem que ser regulado pelo estado para que não oprima os condenados da terra, os pobres, os miseráveis, os desamparados, os excluídos do domínio.
Alertando que a pessoa (entelequia na linguagem Kantiana) é um fim em si mesma e que não há dignidade humana sem liberdade económica política e moral. Portanto urge combater este sistema económico de capitalismo selvagem gerador  de uma nova barbárie mundial, baseado na exploração do homem pelo homem, por uma economia em que Estado tem que ser ético e intervir combatendo o enriquecimento ilícito,  os lucros obscenos de bancos e multinacionais, que subordine a economia a política humanista tendo sempre em vista os deserdados da terra, os infelizes, os abandonados, os frágies sem ninguém que lhes valha, fazendo aquilo que fez em tempo de pandemia covid, como se estivesse sempre em pandemia atacando os múltiplos vírus que condenam a pobre humanidade ao sofrimento e a morte.
Substituir competição feroz por solidariedade entre irmãos, por cooperação fraterna. Cristo foi um revolucionário; ele disse eu vim para trazer não a paz mas a luta; ele veio à terra para inquietar, para revolucionar para libertar e com que fundamento?
Com o fundamento do amor.
Sofreu a morte por amor aos homens e ressuscitou da morte por amor aos homens.
O amor é a maior força universal e está na base da criação e de tudo o que existe;
Tanto quanto entendo, o maior e uma força universal capaz que dá sentido a vida é a criação de tudo o que existe e só um ser que seja essencialmente amor tem o poder de criar e de dar a vida a outros seres humanos e não humanos,; e o homem é uma essência vivente e uma essência pensante porque participa da essência vivente e pensante do seu criador. O verdadeiro revolucionário é aquele que é profundamente tocado pela força de um grande amor pelos homens e por quem os criou e nesse amor encontra a energia e o sentido moral profundo para combater, tendo por finalidade instalar esse amor nas relações entre os homens neste mundo.
 

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Categorias: Opinião

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