1 de agosto de 2020

Cesto da Gávea

Chamarizes e perdizes

Aprendi o que era um chamariz quando era criança e ia à caça às pombas com meu pai, naquele tempo recuado um conhecido e estimado caçador de São Miguel. Quem conhece histórias do grupo de caçadores a que o Sr. Garcia da H. Vaultier pertencia, é o meu amigo e exímio caçador micaelense Dr. Gualter Furtado, na altura um jovem iniciado das lides de Santo Huberto. Lembro-me de ir aos coelhos para a Grota Funda, um vale profundo escavado nas encostas do maciço das Sete Cidades, caminhando de madrugada desde a Covoada, atrás do João “Matilheiro”, dos seus ajudantes e da matilha de uma vintena de cães treinados para esse tipo de caça. Nas pombas, às vezes colocavam uma de origem doméstica (pomba mansa, como diziam) numa terra lavrada, amarrada por um atilho a um espeque, ao lado de uns grãos de milho espalhados. As pombas bravas sobrevoavam a terra, viam a negaça a debicar os grãos e pousavam. Os atiradores pexotes como eu, treinavam a caça com a “flóber” de 9mm e chumbo miudinho, usando a negaça ou chamariz. Era outra época, havia muita agricultura, donde muito coelho e pomba.
Os coelhos, dizimou-os a mixomatose mais que a caça e as pombas bravas, comem agora restos de ração de gado que ficam nos pastos. Protegidas – e muito bem -- as espécies cinegéticas, a caça com chamariz terminou. Ou melhor, mudou de campo, avaliando pelos inúmeros chamarizes que abundam na internet e nas televisões, das redes sociais à publicidade enganosa, do discurso político virtual à aparição televisiva popularucha e ilusório. Substitui-se a banca tradicional de proximidade pelo online sem rosto, a compra na loja do Sr. José pelo clique num sítio digital que a onda publicitária nos convenceu a usar. Entretanto, o comércio tradicional, carregado de impostos, vai fechando as portas, ao mesmo tempo que o chamariz confortável dos centros comerciais encara com apreensão os hábitos que a pandemia radicará nos consumidores. Paralelamente, a “doença” da dívida pública em percentagem do PIB (que roçava 120% no pré-pandemia) sobe para 148% e atinge 330.000 milhões de dólares, enquanto o PIB desce para 222.000 milhões. Está tudo escarrapachado em US Debt Clock.org e em tempo real. Quando se anuncia que o PIB dos EUA desceu 32%, soa estranho que o mesmo “org” continue a dar apenas um rácio de 102% à dívida pública da era Trump, mas às aldrabices dessa banda estamos habituados, tão vulgares são os chamarizes daquela rapaziada. Que o façam, é com eles e o voto deles; já as negaças que colocam à vista das nossas “perdizes votantes”, para caçar votos aos portugueses, merecem atenção mais próxima, a exemplo do tão badalado plano estratégico de salvação nacional. Agitando as massas comunicacionais, o salvífico badalar mandou às urtigas a subida da dívida do Estado, das empresas e das famílias, dos bancos tipo velho-rico e novo-pobre, tudo dando a Portugal uma dívida externa, pública e privada, que andará pelos 450.000 milhões de dólares, com tendência para piorar. Mas só se fala da dívida pública, com a cumplicidade evidente das agências especializadas e da própria União Europeia. Bancos, empresas, famílias e indivíduos endividados até ao osso num país descapitalizado, são presa fácil de fundos abutres internacionais, ao que se vê pela atual polémica à volta da venda de imóveis pelo mau-banco-ex-bom do ex-BES. Nada de especial, o chamariz do futebol regressou aos palcos e as perdizes gostam do milho.
Como chegou o verão e a habitual calamidade dos incêndios florestais, o “sistema” montado no país vai alternando os chamarizes de um ou de outro tipo, adaptando-os á conveniência de serviço. Ultimamente e cá pelos Açores, a crise leiteira, os tristes rankings nacionais da Região em vários setores, nomeadamente na Educação, passaram a segundo plano face ao estrondo causado pela descoberta da pólvora: o mar, a ZEE, a plataforma dita continental e a sua possível extensão, encerram riquezas que vão ser a ponta de lança da recuperação económica nacional. Não se sabe quando, nem como, nem quanto, esta mina de ouro entrará em exploração, nem como poderá ser explorada, nem quanta riqueza contem, mas o chamariz foi posto no terreno. Os fundos internacionais sem rosto, a quem só importa o lucro que tiram, muito provavelmente estarão a movimentar-se nos bastidores, esperando a altura propícia para fazer vultuosos e rendosos investimentos. As consequências ambientais serão convenientemente minimizadas perante a opinião pública, através de personalidades de peso convenientemente escolhidas. Para evitar este saque marinho, só temos que conhecer o nosso mar melhor que os outros. Tarefa difícil, mas não impossível, conforme demonstra o adquirido científico da Universidade dos Açores ao longo de quase 45 anos. Sem chamarizes, nem perdizes.
Nota final: Pela enésima vez, em entrevista de domingo passado a este jornal, abordei a imperiosa necessidade de substituição do N/I “Arquipélago”, agora anunciada pelo Presidente Vasco Cordeiro. Vindo de quem vem, quero acreditar que se não fique pelo chamariz.
 

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Categorias: Opinião

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