Apesar das quebras, empresários das Portas do Mar esperam conseguir manter ritmo de negócio

No complexo das Portas do Mar, devido às suas características muito próprias e ainda mais no momento atípico que se atravessa, nem sempre a vida é fácil para os empresários que ali desenvolvem a sua actividade.
Se, em tempos “normais” as noites de Verão levavam milhares de pessoas até ali, seja para jantar, passear ou para conviver com amigos, por outro lado no Inverno poucos se aventuravam a passar ali, deixando aquele local quase deserto mesmo numa época em que a sazonalidade já se começava a esbater, antes da chegada do novo vírus à Região.
Para Fatima del Mar Quiroga, proprietária do Atlantic Bowling e também do restaurante Açores Grill – que embora não esteja situado no complexo Portas do Mar não se encontra longe dali –, mesmo prevendo que a restauração dos Açores poderia vir a sofrer impactos com a questão da pandemia, nunca pensara que pudessem ser tão danosos.
“Não contávamos com isto, o ano tinha começado a correr muito bem porque normalmente os meses de Janeiro são os mais fracos, mas neste ano estávamos a trabalhar bastante bem. Todos os anos melhorava, mas este ano notou-se uma grande diferença, havia mais movimento e mais volume de turismo mesmo nas épocas baixas”, diz.
Inicialmente, no Atlantic Bowling adianta que os clientes regressaram rapidamente porque, tendo em conta as características do espaço e o tipo de serviço que presta, as pessoas tinham uma grande necessidade de conviverem umas com as outras. No entanto, continuavam a existir quebras de 80% quando em comparação com o período homólogo.
Mais recentemente, explica a empresária, foi notável que os clientes começaram a ganhar confiança e a sair mais, o que permite que agora a empresária registe quebras de 50%, valor este que espera manter nos próximos meses, porque “obviamente não vamos recuperar o Verão”, mas salienta que tudo dependerá da evolução da pandemia nos Açores e no mundo.
Em relação ao futuro, mesmo reconhecendo que este é “uma incógnita”, a empresária espanhola acredita que muitos restaurantes e espaços em geral “acabarão por fechar porque há pessoas que não têm capacidade para suportar esta situação. Não penso que restaurantes pequenos, cafés e bares que vivem mais do turismo do que dos locais consigam suportar a situação, principalmente se isto continuar assim até ao final do ano, que é a previsão”, refere.
Como sinais de alguma retoma indica o surgimento de mais alguns turistas, adiantando que já é possível ver e ouvir alguns ingleses e franceses. Porém, a maioria dos clientes são, neste momento, os locais, que continuam a ter ainda algum receio apesar de “a vida continuar e haver que continuar a sair, a trabalhar e a viajar”.
Para Francisco Pires, proprietário do Porto de Espada, este é mais um momento difícil para registar neste ano, uma vez que desde que reabriu o espaço ao público depois de terminado o estado de emergência apresenta quebras significativas no seu volume de negócios, superando os 80%.
Fechar o restaurante, embora entendido desde cedo pelo próprio como um mal necessário, não foi de todo uma decisão fácil tendo em conta os encargos continuaram a existir, como o pagamento da renda, e que tinham que ser pagos mensalmente.
De uma forma geral, este empresário acredita que os progressos realizados nos últimos dois anos se perderam, considerando por isso que regressou à estaca zero.
Para além disso, a retoma de clientes ocorre num ritmo lento, o que é provocado quer pelas pessoas que desmarcaram as suas férias, pelos hotéis que continuam fechados, pelo receio que algumas pessoas ainda sentem ao ir a um restaurante ou também pelo facto de alguns trabalhadores da função pública continuarem ainda em teletrabalho.
Por esse motivo, e uma vez que são os restaurantes e o comércio local que mais se ressente face a isto, Francisco Pires refere estar a pensar em reinventar o seu negócio, à semelhança daquilo que acredita que muitos empresários vão ter que acabar por fazer no futuro.
“Estou já a equacionar uma mudança e vou tentar fazer outro tipo de negócio, sempre ligado às comidas e bebidas mas talvez num conceito de “Grab and Go”. A minha vontade inclui mudar de conceito, mudar de sítio, porque mesmo sendo muito bonito e muito agradável, com uma esplanada que não funciona neste momento, este é um beco sem saída e as pessoas não se vão meter aqui”, diz.
Apesar de ser tudo muito incerto no momento, o empresário natural de Porto de Espada sabe que deseja permanecer em Ponta Delgada, desde que encontre um sítio que lhe permita “desenhar o seu negócio com sucesso”, e que lhe permita também aumentar a facturação mesmo em momentos de maior crise.
Porém, a ocorrer, esta será uma opção difícil de tomar, uma vez que “para além de gostar do espaço onde estou inserido e de todo o ambiente envolvente, tenho que tomar uma opção para poder prosseguir e, no fundo, conseguir que o meu negócio vá para a frente, porque se eu não tomar essa opção não vou conseguir perdurar o meu negócio no tempo”, adianta.
Em parte, esta dificuldade provém também do facto de não haver tanta abundância de turistas como antes, salientando o empresário que se parece estar a assistir a um novo paradigma no tipo de turista que visita a ilha de São Miguel.
“Creio que as pessoas que têm vindo mudaram muito, porque agora chegam pessoas de mochila às costas, uma classe um bocadinho diferente daquela que vinha, e são pessoas que fazem outro tipo de consumos. São, por norma, casais portugueses com dois filhos que estão confinados há três ou quatro meses e que decidiram vir para São Miguel por ainda ser um sítio seguro para darem oportunidade aos seus filhos para saírem um bocadinho”, explica.
Para Nuno Pacheco, proprietário do Restaurante Ramires, a pandemia foi sinónimo de relativo sucesso, uma vez que a equipa não parou de trabalhar devido à possibilidade de investirem no take away e nas entregas ao domicílio efectuadas quer pelo restaurante quer pela Uber Eats.
Depois de abertas as portas oficialmente, a 29 de Maio, o empresário que admite ter tido quebras na ordem dos 40%, salienta que o regresso dos clientes foi feito um pouco a medo, embora tenha melhorado com o passar do tempo.
“A primeira quinzena de Junho foi complicada em termos de clientes, havia muito medo e desconhecimento de algumas regras em vigor nos restaurantes, tivemos que trabalhar um bocadinho nesse sentido, na segunda quinzena já melhorou e assim continuou a pouco e pouco”, realça.
Tal como em todos os outros restaurantes de uma forma geral, também o Restaurante Ramires se encontra a trabalhar essencialmente com público local, correspondendo a cerca de 90% dos clientes, embora não com o mesmo volume a que estavam habituados no passado por esta altura do ano.
Em acréscimo, dá-se também o facto de estes preferirem os restaurantes com preços mais acessíveis, tendo em conta “todas as limitações que existem” actualmente ao nível financeiro, por parte da população que ou se encontra em lay off ou no desemprego.
“Passámos uma crise desde 2008 até 2015 em que o cliente começou a exigir mais em relação à restauração e a querer pagar um valor justo. Temos um cliente já educado nesse sentido e com esta nova crise o cliente continua educado e escolhe o seu target e onde comer com outra maneira de pensar”, diz Nuno Pacheco.
Quanto ao turista, acredita que “não há margem suficiente para estar a avaliar o turista que está a vir. Temos tido alguns turistas continentais na sua maioria que têm também algumas reservas em termos económicos, que se calhar já tinham as passagens marcadas e vieram na mesma, e que se calhar também tiveram alguma dificuldade na sua terra natal, mas ainda é muito cedo para apurar que tipo de turismo temos.
Talvez possamos fazer esse balanço no final de Outubro ou Novembro. O número de turistas que temos aqui é muito reduzido neste momento para termos uma amostra”, conclui.

Empresários com dificuldades em negociar
rendas com a Portos dos Açores

Quer Nuno Pacheco como Fatima del Mar Quiroga adiantam ter tentado chegar a um acordo com a Portos dos Açores, responsável pela gestão do complexo das Portas do Mar, para chegar a um consenso em relação ao valor das rendas praticados quer durante o estado de emergência como durante este retorno à “nova realidade”.
No entanto, adiantam que mesmo tendo sido feito este pedido não chegou até eles nenhum tipo de resposta ou parecer desta entidade, o que significa que não houve até ao momento nenhum ajuste de forma a ajudar os empresários que ali desenvolvem as suas actividades.
De acordo com Fatima del Mar Quiroga, o objectivo não seria deixar de pagar a renda, uma vez que mesmo encerrado ao público há despesas com o lugar e máquinas que continuam a funcionar que justificam o pagamento de uma renda. O intuito seria, tal como facultado pela EDA, “negociar algum tipo de redução” uma vez que esta é a maior despesa.
No caso de Nuno Pacheco, este adianta que tentou o mesmo através de um pedido oficial, para que os preços praticados ali no que à renda diz respeito fossem os mesmos que são praticados no Inverno.
“Por iniciativa própria tentei negociar algo simples, no sentido de este Verão serem praticados preços de renda de Inverno e não obtive ainda nenhuma resposta. Compreendo que seja complicado que os conselhos de administração se reúnam neste momento, são diferentes elementos de diferentes ilhas (…), mas acho que a Portos dos Açores deveria ter em atenção estas situações, porque nem todos nas Portas do Mar estão com saldo positivo”, salienta o empresário.
Em acréscimo, o proprietário do Restaurante Ramires adianta que deveria ser dada uma resposta mais rápida para estas situações e que deveria também existir uma maior acção “no sentido de se segurar o que há” para evitar que as Portas do Mar vejam o seu comércio e restauração a meio gás.

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