Lutar pela sustentabilidade dos recursos marinhos

Jovem bióloga que participou em estudo sobre efeitos das alterações climáticas e da poluição nos peixes no planeta sonha regressar aos Açores

 Movida pela paixão que desde cedo desenvolveu pelo mar, pelos animais e pela natureza em geral, Isadora Moniz – também desde cedo uma ávida devoradora de documentários relacionados com a vida selvagem – optaria por estudar Biologia na Universidade dos Açores, sendo esta a base curricular que hoje lhe permite coordenar projectos de melhoria de pescas em Madrid.
Desde que se lembra, salienta ao nosso jornal, que a jovem hoje com 30 anos de idade, natural do concelho da Lagoa, sempre teve o desejo de fazer da biologia a sua especialização tendo, ao longo dos anos, desenvolvido uma especial curiosidade relativamente à fauna marinha, “um autêntico laboratório”, diz, que sentia a necessidade “de estudar para proteger”.
Da infância passada em São Miguel recorda sobretudo o privilégio de ter “como quintal” o mar, as lagoas e as imensas zonas verdes que fazem parte do habitat dos açorianos de uma forma geral, e também os tempos partilhados com os pais, quando estes se dedicavam à agricultura.
“Os meus pais dedicaram-se à agricultura durante muitos anos, e eu tive a sorte de poder passar muito tempo com eles – enquanto trabalhavam, eu brincava! Brincava com os animais (desde as formigas às vacas), andava de bicicleta pelos campos, corria descalça de um lado para o outro, dava o que eu achava ser um contributo super importante quando os meus pais “pediam ajuda” para plantar ou semear algo”, recorda entre risos.
Para além disso, relembra também os Verões passados no calhau do Cruzeiro, nas piscinas da Lagoa e nas praias, as brincadeiras com os primos que nem sempre terminavam de forma pacífica e, findo o Verão, as vindimas dos avós, nas quais participava ao pisar as uvas.
De forma tão fluida como a água, a bióloga que hoje reside no país vizinho começou então a interessar-se por temas como a conservação, especialmente depois de reparar que “os peixes em geral recebem menos interesse por parte da população, o que se traduz em medidas de gestão menos efectivas”.

O projecto de Mestrado 
e a importante descoberta
Foi desde esse momento, garante, que apesar de gostar também de outras áreas da biologia soube que desejava trabalhar na gestão dos recursos marinhos, algo que viria a colmatar a necessidade existente de se desafiar a si própria e que a levaria, por isso, a sair dos Açores para alcançar este objectivo.
“Saí pela necessidade de me desafiar a mim própria. Fiz a licenciatura em Biologia na Universidade dos Açores, a minha alma mater, mas sempre tive em mente sair de Portugal para prosseguir nas carreiras académica e profissional. Acho que quando surge a oportunidade de seguir os sonhos/objectivos, seja em que lugar for, há que agarrá-la”, diz.
Para isso, e tendo em conta que as oportunidades que existem nos Açores são mais raras, Isadora Moniz acabou por se candidatar a várias bolsas de Mestrado, tendo ganhado duas delas e escolhido “aquela que lhe proporcionaria uma experiência mais interessante”, diz.
Esta acabaria por ser a bolsa Erasmus Mundus em Ambiente e Recursos Marinhos, uma vez que o programa em questão lhe permitiria visitar quatro países diferentes, um por cada um dos semestres.
“Comecei o mestrado em 2014, passando pelas Universidades de Bordéus, País Basco e Liège, e desenvolvi o meu projecto final em Mo’orea, uma ilha na Polinésia Francesa”, conta, o que para a jovem bióloga foi “um sonho tornado realidade”.
Isto é, para além de conseguir concretizar o objectivo de estudar fora da sua zona de conforto, sempre desejou ter também aquilo que classifica como “momentos National Geographic”, nos quais os cientistas estão – por exemplo – a trabalhar em “recifes de coral rodeados de tubarões e de outros peixes de mil formas e cores”, algo também conseguiu concretizar.
No que à tese de Mestrado diz respeito, adianta que esta teve como objectivo “tentar determinar se a subida da temperatura da água do mar tinha impactos negativos no desenvolvimento, e consequentemente na sobrevivência de uma espécie de peixe de recife de coral (Acanthurustriostegus)”.
Durante este processo, conta a investigadora açoriana, acabou por se centrar no estudo dos comportamentos desta espécie de peixe quando sujeito a temperaturas de água mais elevadas, enquanto outros membros da equipa se dedicaram a estudar os efeitos que um pesticida que é frequentemente utilizado na agricultura, chlorpyrifos, teria nessa mesma espécie.
A partir desta investigação multidisciplinar foi então possível concluir que o sistema endócrino desta espécie sofreu algumas alterações, levando inclusive à sua morte devido aos problemas de desenvolvimento que se conseguiram comprovar.
“Finalmente testaram-se os efeitos destes dois “agentes” (aquecimento global e poluição) em conjunto: o resultado não foi bom, no sentido em que demonstrámos que, quando expostos a temperaturas mais elevadas e a poluentes numa fase muito inicial do seu ciclo de vida, o sistema endócrino desta espécie é negativamente afectado, o que se traduz em problemas de desenvolvimento, podendo levar a que os indivíduos deixem de ser capazes de reconhecer predadores, culminando portanto na sua morte”, explica.
Chegando então à conclusão que seria já esperada – tendo em conta tudo aquilo que se sabe até ao momento sobre o aquecimento global e os impactos da poluição na natureza –, Isadora Moniz refere que esta é uma descoberta importante porque, à semelhança do Acanthurustriostegus, há muitas outras espécies que fazem dos recifes de coral o seu habitat natural.
“Os recifes de coral são dos habitats com maior biodiversidade do mundo, e se estes factores provocarem efeitos semelhantes em várias espécies de peixe de recife de coral, isso pode afectar todo o ecossistema e consequentemente os serviços fornecidos pelo mesmo, e dos quais tanta gente depende, como por exemplo para segurança alimentar”, adianta.
Apesar de esta ser uma conclusão que parece muito remota em relação aos Açores, uma vez que foi estudado um peixe que nem habita o Atlântico, prossegue, “todos sabemos que a subida da temperatura da água do mar é um fenómeno global”, acima de tudo pelo facto de 2020 ser já considerado o ano mais quente dos últimos tempos e, também, aquele em que mais se fazem sentir os efeitos da poluição.
Assim, e tendo em conta que “nos Açores há actividade agropecuária e chuva em abundância que “lava” os terrenos, escoando invariavelmente no mar, não é assim tão descabido pensar que algo similar possa vir a acontecer na “nossa casa”, diz Isadora Moniz.

A sustentabilidade dos recursos
Após defender a tese, a jovem regressou a São Miguel, onde ficou durante cinco meses a candidatar-se a ofertas de trabalho, literalmente em todo o mundo, até que no início de 2017 voltou ao País Basco, desta vez para trabalhar em gestão de pescas, algo que considera “uma daquelas oportunidades que teve mesmo que ser agarrada”, recorda.
Há cerca de dois anos, acabaria por surgir outro desafio, desta vez em Madrid, onde reside hoje, e que lhe permite trabalhar em projectos que têm em vista a melhoria da pesca, conforme já referido, também conhecido como “Fishery Improvement Projects” (FIPs), algo que faz em colaboração com a ONG WWF-Espanha.
Segundo a própria, estes FIPs podem também ser aplicados a quase todo o tipo de actividade pesqueira, independentemente da dimensão e da zona da actividade. Para isso, aponta, “basta haver vontade das várias partes interessadas em gerir a actividade de uma maneira mais sustentável, idealmente com o objectivo de alcançar a eco-certificação dos produtos. Isto é perfeitamente exequível nos Açores”.
Ainda assim, e com os conhecimentos de que dispõe, considera que a gestão da pesca no arquipélago onde se formou “tem sido feita de modo eficaz, com modelos de gestão oportunamente adaptados às circunstâncias”, referindo que na Região “as medidas são aplicadas para garantir sustentabilidade, tanto ambiental como económica”.
Contudo, para que esta sustentabilidade seja alcançada, haverá também a necessidade de valorizar quer os recursos humanos quer os recursos naturais, e “para falar de sustentabilidade da pesca, nos Açores ou noutro sítio qualquer, há que valorizar os dois”, afirma. 
No entanto, na sua opinião “a sustentabilidade não deve ser considerada meramente como a meta, mas sim como uma maratona que vamos correndo e à qual nos vamos adaptando para melhorar ao longo do caminho”, diz. 
Por outro lado, afirma que “felizmente, a valorização dos produtos da pesca é uma prioridade para o Governo dos Açores”, já que esta será feita “de maneira holística, não deixando a primeira parte interessada fora do esquema: os pescadores. Embora o meu trabalho se foque essencialmente na sustentabilidade ambiental dos recursos, acho que a sustentabilidade social tem de ganhar mais protagonismo”, refere.
Ou seja, para que a conservação ambiental funcione, há primeiro a necessidade de trabalhar com a espécie humana para depois trabalhar com a espécie que se deseja conservar.
“Uma pessoa que se sinta desvalorizada não costuma ter motivação (muitas vezes não se pode dar ao luxo) de se preocupar com os recursos naturais, mesmo que saiba perfeitamente que a sua actividade pode estar a causar efeitos negativos. Daí que seja fundamental continuar a trabalhar com as comunidades piscatórias. 
Quanto mais se trabalhar na sustentabilidade social, mais fácil será alcançar a sustentabilidade ambiental dos recursos, que bem geridos, serão de valor acrescentado tanto para a pesca como para outros sectores, como por exemplo o turismo”, afirma ainda.
Porém, apesar de ter concretizado o objectivo de conhecer outras realidades e de ter crescido enquanto pessoa, Isadora Moniz continua a querer crescer “mas sempre pensando no regresso aos Açores”, de preferência “munida de uma experiência que possa ser uma mais-valia para a Região”, garantindo que tudo aquilo que aprende procura também poder aplicar nos Açores no futuro, uma vez que “nunca foi uma opção sair de São Miguel e não regressar”.
“A minha experiência diz-me que somos mais valorizados fora, que dentro de Portugal. Houve (e há) uma “fuga de cérebros” significativa para o exterior, mas felizmente acho que começa também a haver um regresso às origens, o que é extremamente importante e enriquece o país, já que quem regressa volta com uma “bagagem” de experiências que dificilmente poderia ter sido adquirida caso essa saída não se tivesse dado. 
Apesar de achar que nos Açores ainda há um longo caminho a percorrer relativamente à valorização, acho que também há cada vez mais oportunidades. Ou pelo menos, até este momento havia! 
A covid-19 está a colocar outro entrave aos millennials, portanto é de esperar que também tenha algum impacto neste sentido. No entanto, e sendo muito importante sermos realistas, há que ter esperança também!”, conclui.

                                       Joana Medeiros

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Autor: CA

Categorias: Regional

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