No espaço de setenta anos, capturas de espadartes e tubarões quase triplicaram nos Açores e a captura do goraz diminuiu cinco vezes

“Os Açores têm uma das maiores áreas no mundo onde o arrasto é proibido e, como tal, as principais ameaças pela pesca estão relacionadas com os palangres, a sobrepesca junto à costa e actividades ilegais. As actuais áreas totalmente protegidas são muito pequenas e, portanto, a maioria dos ecossistemas são afectados principalmente pela pesca comercial”.  Esta é uma das conclusões do relatório científico “Blue Azores - o Segredo mais bem guardado do Atlântico” da responsabilidade de um grupo de investigadores ligados à Universidade dos Açores, a que já fizemos referência em edições anteriores.
Os cientistas da academia açoriana - Friedlander, Morato, Carreiro-Silva, Fontes J, Abecasis,Ballesteros, Botelho, Diaz, D, Dominguez-Carrió, Caselle, Goodell, Milla , Ocaña, Pham, Pipa, Rose, Salinas de León, Schmiing, Silva, Taranto, Tempera, Thompson, Verdura, Sala e Gonçalves - no estudo elaborado em 2019 referem que “a actividade pesqueira na ZEE dos Açores não se distribui de forma uniforme, sendo mais intensa junto às ilhas de São Miguel e Santa Maria e nos bancos Princesa Alice e Açor”.
Revelam que “o palangre de superfície é a arte de pesca predominante utilizada por navios de bandeira portuguesa e espanhola e representou 47% de todo o esforço de pesca, em 2018. Esta arte de pesca visa principalmente espadartes e tubarões pelágicos, como o tubarão azul e o rinquim”, ao que se segue “o salto e vara e o palangre de fundo, representando 34% e 15% do esforço total de pesca, respectivamente”.
Estas artes de pesca são predominantemente utilizadas pela frota regional, conforme referem os académicos, sendo que “o esforço de pesca na ZEE dos Açores é significativo e cobre a maior parte das águas da região”, pois, como registam, a pressão é alta, já que “entre as 100 e as 200 milhas náuticas da ZEE e na região exterior à ZEE, onde quase 40 navios de bandeira espanhola actuam com palangre de superfície, com uma intensidade de até 1000 dias-navio por ano”. 
No que respeita a capturas de espadartes e tubarões, os investigadores dizem que estas “quase triplicaram desde os anos 50”. E olhando para os números, lembram que “os tubarões-azuis representavam 8% da captura total do palangre na década de 1960, mas aumentaram para 70% na década de 2000, enquanto que a captura de peixes bentopelágicos, como o valioso goraz, diminuiu cinco vezes desde 1950. O marracho representava 88 % da captura de tubarão na década de 1960, mas agora representa menos de 1%”. 
Neste estudo cientfico, encomendado pelo executivo açoriano, os investigadores opinam e defendem que “estes resultados chamam a atenção para a necessidade de implementação urgente de AMPs de protecção total de grande dimensão, e de medidas de regulamentação de pesca muito mais eficazes em toda a região”. 
Os pesquisadores recordam também que durante a expedição feita em 2018, “mais de 21000 km2 de fundo marinho foi cartografado em detalhe pela primeira vez. Existem mais de 300 montes submarinos nos Açores que oferecem condições ideais para a ocorrência de corais e esponjas de profundidade, classificados como Ecossistemas Marinhos Vulneráveis. A maior parte desses montes submarinos ainda não foram estudados cientificamente, mas alguns foram já explorados por redes de arrasto de fundo no passado e foram também afectados por outras artes de pesca de fundo. Muitas destas espécies que vivem em águas profundas têm crescimento lento, vida longa e uma baixa taxa de reprodução, tornando-as extremamente vulneráveis à pesca e outros impactos humanos, com tempos de recuperação que exigem décadas ou mesmo séculos”. 
Mais, contam, “a diversidade de corais de água fria é particularmente elevada nos Açores, com 184 espécies identificadas até o momento”. 

Jamantas visitam os Açores no Verão

Nesta recolha de dados, os investigadores dão conta de que “as jamantas são animais icónicos e ameaçados que, apesar do seu grande tamanho, apresentam um comportamento esquivo que tem limitado o estudo e a conservação destas espécies. Os Açores constituem o limite mais setentrional para os mobulídeos no Atlântico e globalmente”. 
Falam os investigadores que “em 2016, foram marcadas três jamantas na Baixa do Ambrósio (Santa Maria) e no monte submarino das Formigas, usando um novo método não invasivo com um arnês colocado nos animais em movimento por um mergulhador em apneia”. 
Segundo revelam ainda, e de acordo com o que sabem,  é que “as jamantas podem mergulhar a grandes profundidades (mais de 2000 m) e visitam os montes submarinos dos Açores no Verão, viajando desde a costa da África Ocidental. Especula-se que visitem os Açores para se reproduzirem”.
Também neste relatório, os cientistas falam que “os Açores são um hotspot global para aves marinhas” sendo do conhecimento dos cientistas 10 espécies de aves marinhas que nidificam nos Açores, como  a cagarra, que é, segundo consta do relatório, a espécie de ave marinha mais abundante nos Açores. Também sabem os cientistas que esta ave marinha alimenta-se a uma distância média de 75 km das colónias em viagens curtas e até 1800 km em viagens longas. As outras aves marinhas mais populares encontradas na Região são, entre outras,  o estapagado, o frulho, o paínho-da-Madeira, o paínho-de-Monteiro, a alma-negra, o garajau-comum, o garajau-rosado, a gaivota e a gaivina. 
            

Nélia Câmara
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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