4 de agosto de 2020

Verão em São Miguel


Inspirei-me para esta crónica um pensamento de José Tolentino Mendonça. No seu poema os caminhos do verão, o Cardeal poeta diz o seguinte: “Penso no verão como esse lugar onde as horas estendem, para cada um, uma sombra mais leve. Somos crianças feitas para grandes férias. É um verso de Ruy Belo que a nossa alma sabe. Vem o sol, avança sobre os dias uma claridade que já quase ignorávamos, o calor estende-se longamente como um gato preguiçoso, é julho, quase agosto, e mesmo de gravata e afazeres ainda apertados ao pescoço sabemos isso: que somos feitos para outros modos, que pertencemos a outros lugares. Não tem de ser necessariamente uma deslocação para outro país ou uma cidade diferente da nossa. Às vezes tudo o que nos falta é simplesmente caminhar com outro passo. É abrir a janela devagar, tendo consciência de que a abrimos. É reaprender outra qualidade para um quotidiano talvez demasiado deixado às rotinas e aos seus automatismos. É, no fundo, degustar o sabor das coisas mais simples”.
No entanto, na minha idade, a roda do tempo ganha uma outra velocidade e cá estamos nós em mais um época de estio, em que as férias de alguns se viraram completamente ao avesso, já que não podem sair da ilha e rumar até locais paradisíacos. Pelo contrário, com o Covid 19 a roubar-nos a folia própria do verão, fica muita gente refém do confinamento da ilha. 
Mas este tempo deve ser uma ocasião encarada como um convite à nossa capacidade para olharmos para nós próprios e acertarmos a rota e termos, porventura, uma outra atitude e uma outra disponibilidade perante a vida e perante a forma de a encararmos, olhando para o futuro com a máscara desta terrífica pandemia, que assola todos os cantos do Mundo. 
É nesta época do ano que temos capacidade de quebrar as rotinas do dia a dia e é também uma excelente oportunidade para de forma mais relaxada, física e mentalmente, fazermos propósitos para a nova etapa que se avizinha que se quer o mais longa possível.
Gosto do verão, porque os dias são maiores, mas apesar de menos luminosos devido a este vírus, são dias de encontro da família alargada e podemos passear pelos verdejantes campos destas ilhas. Já tive este ano a oportunidade de percorrer alguns trilhos e caminhos, que me fascinaram, não apenas pela profusão da paisagem luxuriante micaelense, como pela descoberta de recantos inimagináveis. Contudo, desta vez não encontrei muita gente e não se ouviu linguagens diferentes de países distantes, como já nos tínhamos habituado a escutar.
Apesar de tudo, gosto mesmo desta altura do ano e o ansioso verão está aí em pleno e, com ele, os soalheiros meses, que são sobretudo altura que nos desobriga da rotina e da tensão constante dos gestos do dia a dia. É bom fazer um prolongado serão sadio e acordar um pouco mais tarde, saboreando o céu estrelado e o luar especialíssimo destas noites.
Como estamos no verão, mesmo em tempo de pandemia, há tantas coisas que pode fazer e que ajudarão a passar sadiamente o tempo e dele desfrutar para benefício próprio.
Como ocupação sadia podemos, como por exemplo, sair de casa e tirar umas fotografias a plantas, pessoas, flores e até mesmo algumas texturas que achar interessante, pois para tal não é preciso ser um expert para captar as coisas bonitas que a natureza nos oferece e temos tantos recantos deslumbrantes à nossa volta que poderão prender mais a nossa atenção.
Ler nas férias de verão é uma atividade ótima que propiciará viagens por esse mundo fora, sem sairmos da nossa casa, ou mesmo ir à biblioteca ou a uma livraria e verá que vale a pena este contato com o mundo admirável dos livros. Vá a sua biblioteca ou livraria e contate com uma nova série de livros. 
Importa, igualmente, deixar um alerta para a necessidade de se continuar a investir e muito na sensibilização ecológica das populações, pois não é raro encontrar pequenas lixeiras, que pululam por vários pontos desta ilha do Arcanjo, fora dos aglomerados. É penoso constatar ainda alguma poluição deste relicário natural que é S. Miguel, maculado com lixos espalhados sem consciência da obrigação de cidadania de deixarmos os espaços por onde passamos limpos e asseados.
Numa terra de sonho, temos muito ainda a fazer para que a nossa sumptuosa paisagem continue a impressionar-nos e a emocionarmo-nos, não pelo sol, mas pela gratuidade perene da natureza que nos envolve.
 

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Categorias: Opinião

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