Nené: “No próximo ano tenho como objectivo afirmar-me na Primeira liga e no Santa Clara”

O jogador que realizou, ao serviço do Clube Desportivo Santa Clara, a sua primeira época no clube e no principal escalão do futebol, recorda os primeiros passos no futebol e revela as suas ambições para o futuro. Nesta grande entrevista, Nené confessa a vontade de permanecer nos Açores e de somar mais minutos na próxima temporada que terá como treinador principal do CD Santa Clara, Daniel Ramos, o homem que sucede a João Henriques e a quem o atleta, fica ”eternamente agradecido”, pela oportunidade de se estrear na Primeira Liga.      

Comecemos pelo teu “nome de guerra”, pela tua alcunha. Donde vem o nome Nené?
“O Nené vem do meu pai que também foi jogador de futebol aqui na Graciosa. Não sei porquê mas deram-lhe esse nome, penso que derivado ao jogador do Benfica. E o nome foi passando para os filhos dele e foi assim que chegou até mim”.

Lembras-te dos primeiros tempos no futebol? De veres o teu pai a jogar? São essas as tuas primeiras recordações no futebol?
“Foi ai que começou a minha paixão. Acompanhava os meus pais para os treinos já com 7 ou 8 anos e, antes de começar a jogar nos infantis do Sporting Guadalupe, já o seguia para os treinos, já o via a jogar e na altura juntava-se muita gente para ver os jogos de futebol. Era uma grande festa”.

Sempre quiseste ser jogador de futebol?
“Quando era mais pequeno não tinha a noção do que é que queria ser ainda, mas o que sabia fazer melhor era jogar futebol. Era o que mais gostava de fazer  e isso proporcionou-se. Tive a sorte de conseguir chegar a um nível assim alto. Nos tempos em que acompanhava o meu pai não tinha como ambição ser um jogador profissional. Mas depois, com o passar do tempo, comecei a ter esse objectivo e a trabalhar para ele”.

Lembras-te de quando tomaste essa decisão?
“Eu com 11 anos fui para Sintra e inscrevi-me no Sintrense. Depois, derivado a contingências da vida, a minha mãe quis voltar e foi aí que comecei mesmo a ganhar o gosto e decidi ficar. Gostava de jogar lá e abdiquei de voltar para a Graciosa, só mesmo pelo motivo de continuar a jogar futebol no Sintrense. Ainda cheguei a fazer testes no Benfica. Fui chamado, mas na altura eram centenas de miudos e só tive oprtunidade de treinar um dia, e não consegui ficar. Continuei no Sintrense e para aí com 13 anos voltei para a Graciosa. Mas passado um ano regressei a Sintra de novo com o meu pai. O treinador acreditava muito em mim, disse ao meu pai que eu tinha valor e que podia chegar longe no futebol. O meu pai deixou tudo aqui na Graciosa para eu conseguir concretizar o meu sonho”. 

E como surge o Sporting de Braga na tua história?
“Em Sintra o meu pai passou algumas dificuldades, não havia muito trabalho e estando sozinho comigo aquilo era complicado e quando eu tinha 15 anos, regressamos de novo à Graciosa. Depois, quando o treinador Luís Guerreiro veio para cá treinar, o meu pai jogava também no Guadalupe e o senhor conhecia o Agostinho Oliveira, que era director de formação do Braga. Fomos à experiência lá, o meu pai acompanhou-me de novo, treinei, consegui ficar e permaneci no clube 4 anos. Tinha 16 ou 17 anos quando fui lá à experiencia2. 

Fizeste a formação no Braga e depois veio aquela etapa que muitas vezes é complicada para os jogadores que é o salto para o futebol sénior…
“Transitei dos juniores para a equipa B. Estive lá 2 anos mas joguei muito pouco. Nesse período joguei para aí 15 jogos e o meu contrato acabou e tive de recomeçar do zero. Fui para o Montalegre, um clube que tinha subido do regional para o Campeonato Nacional de Séniores. Estive lá 1 ano e depois 2 anos no Fafe”.

A realidade no Montalegre era diferente do que estavas habituado…
“Dei um tombo grande. A realidade era completamente diferente e com condições de trabalho difíceis. Passei algumas dificuldades, longe de toda a gente, aquilo fazia fronteira com Espanha. Fiz sacrifícios, não desisti e consegui”.

Essa experiência tornou-te mais forte?
“Exactamente. Se calhar se não tivesse passado por isso não daria tanto valor às coisas como dou agora quando cheguei à Primeira Liga. Orgulho-me ter continuado sempre o mesmo, sempre humilde. Dou-me bem com toda a gente e isso é o que me deixa mais satisfeito”.

Como surgiu a hipótese e a proposta do CD Santa Clara?
“A proposta do Santa Clara começou com o meu empresário. No segundo ano em que estive no Fafe conheci o meu empresário e ele disse-me que me ia arranjar um clube, pelo menos da 2ª Liga. Em Janeiro disse-me que eu afinal não iria para a 2ª Liga mas sim para a 1ª. Falou com o Diogo Boa Alma, gostaram de mim, o treinador também, e em Janeiro já sabia que vinha para o Santa Clara. Fiz o que restava da época já sabendo que no ano seguinte iria jogar na Primeira Divisão”.

Vieste para um clube dos Açores, a tua Região, sentes alguma pressão acrescida por seres um dos únicos açorianos da equipa?
“Não encaro isso como pressão, é mais uma responsabilidade. Por ser Açoriano eu quero demonstrar que tenho valor para estar ali também. É uma responsabilidade acrescida e eu gosto dessas responsabilidades e de ter desafios difíceis. Estou cá para encará-los e penso que as coisas me estão a correr bem”.

Lembras-te da tua estreia pelo CD Santa Clara e do que sentiste?
“Foi com o Famalicão. Antes do jogo uma pessoa sente aquele nervosinho, mas com a concentração alta tudo passa ao lado e ficamos com o foco em não facilitar e em errar o menos possível. A minha primeira ideia era essa e fazer o que o mister pediu. Depois do jogo caiu-me a ficha. Fiz a minha estreia na Primeira Liga e a partir daí vamo-nos habituando e acaba por ser normal”.

Vamos falar do João Henriques, o treinador que te lançou no principal escalão do futebol português. O que é que ele significa para ti?
“Estou-lhe eternamente agradecido e não é fácil apostar num jogador como eu que vem do Campeonato Nacional de Seniores. Ele colocou-me em jogos em que é preciso ter coragem. Ele teve essa coragem, acreditou em mim. Claro que fiz alguns jogos e queria ter feito mais. Fui paciente e tive de respeitá-lo porque foi ele que me deu a mão e me estreou na Primeira Liga. Por isso sou-lhe eternamente grato”.

Vais continuar no CD Santa Clara?
“Vou. Tenho mais dois anos de contrato”.

Esta época, jogaste 995 minutos em todas as competições. Na próxima época queres somar mais minutos?
“Claro que sim. O primeiro ano é o ano de adaptação e agora tenho como objectivo afirmar-me na primeira liga e no Santa Clara, ser um jogador importante e fazer o máximo de jogos possíveis. Sei que isso depende de muita coisa e tenho de trabalhar para corresponder sempre que for chamado”.

O próximo treinador é o Daniel Ramos. Já conversaste com ele?
“Ainda não. Não o conheço mas toda a gente fala bem dele”. 

Pensas que na próxima época o CD Santa Clara vai conseguir ultrapassar os feitos desta que agora terminou?
“Vai ser difícil mas penso que é possível. O nosso objectivo é sempre melhorar de ano para ano e afirmar o CD Santa Clara como um clube que se manterá por muitos anos na Primeira Liga. Para isso temos de ir batendo os nossos recordes e na próxima época, isso não irá fugir à regra”.

Como foi esta fase final da época fora de casa? Foi complicado estar tanto tempo longe?
“Foi muito difícil. Estivemos dois meses fechados num hotel e tivemos 2 ou 3 folgas enquanto todos os jogadores da primeira liga faziam a sua vida normal, iam para o treino e voltavam para casa e para a sua família. Estávamos ali fechados e não víamos as nossas famílias todos os dias. Nós, como temos um grupo muito bom, muito trabalhador e profissional, encaramos isto como uma coisa que tinha mesmo de ser assim, para o nosso bem e das nossas famílias”. 

No futuro, tens o sonho de dar o salto para equipas que tenham objectivos maiores?
“Todos os jogadores sonham com isso mas há que manter sempre os pés bem assentes no chão. Se aparecer, muito bem, se isso não acontecer, estou de consciência tranquila de que dei o meu melhor. O meu objectivo para a minha carreira passa por conseguir alguma estabilidade financeira para o meu futuro e para a minha futura família”.

Não fechas portanto a porta a jogar no estrangeiro?
“Não, nunca fecho a porta. Eu tenho espírito aventureiro e já estou habituado a andar longe de casa há muito tempo”. 

Qual é o teu grande sonho para o futuro enquanto jogador de futebol?
“Gostava de concretizar o sonho do meu pai de me ver jogar num ‘grande’”.     

Estás com 25 anos, ainda tens mais uns bons anos pela frente enquanto jogador. Quando um dia acabares a tua carreira como gostarias de ser lembrado enquanto jogador de futebol?
“O que me orgulho é de poder chegar à minha ilha e sentir que fui sempre o mesmo desde que saí daqui. Que não mudei perante os sucessos e insucessos e que continuei o mesmo. Enquanto jogador, como alguém que foi aguerrido, à imagem do meu clube aqui da ilha, o Sporting Guadalupe, que nunca vira a cara à luta e que dá tudo do início ao fim”.   

Luís Lobão
 

Print
Autor: CA

Categorias: Desporto

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima