Enfermeiros açorianos querem ser tratados com justiça

O Coordenador do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses na região fez uma retrospectiva sobre a chamada fase crítica da Pandemia de Covid-19 nos Açores, apontando algumas decisões que, “apesar de compreender”, não foram as mais acertadas para estes profissionais.
Francisco Branco referiu algumas das principais preocupações que os enfermeiros fizeram chegar ao Sindicato, começando desde logo, e numa fase inicial, pela falta de equipamentos de protecção  individual, uma situação que, na opinião do sindicalista, aconteceu devido a algum pânico que se instalou junto dos enfermeiros.
“Quando se instala o pânico não há racionalidade no uso das coisas e toda a gente quer-se proteger mais do que o seu vizinho. Nesta irracionalidade da proteção por vezes pode-se exagerar no uso de equipamentos. Houve realmente aí uma fase em que os enfermeiros se queixavam que não existiam máscaras nem luvas”, afirma.
O Coordenador do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses nos Açores considera que durante este período “foram cometidas algumas asneiras”, desde logo, com a atribuição de uma carga horária muito elevada.
“Estou a falar concretamente da organização do trabalho. Houve sítios aqui na região onde se trabalhava 20 horas seguidas. Claro que depois se ficava um dia em casa mas ninguém aguenta dentro de equipamentos de proteção tanto tempo. A partir de 7 ou 8 horas a probabilidade de erro é muito maior e o cansaço é enorme”, refere.
Francisco Branco realça mesmo que esta era uma situação insustentável.
“Foi a solução encontrada mas agora já se está a perceber que não é possível. Ninguém aguenta 6 meses ou 1 ano nesse ritmo. Quinze dias em turnos de 12 horas são muito cansativos. Ainda por cima estando-se tanto tempo dentro de um fato de proteção onde se registam temperaturas altíssimas. Não faz sentido. Pelo contrário, se tivéssemos feito turnos de menor durabilidade talvez tivéssemos menos cansaço”, destaca.
O Sindicalista considera ainda que não se pode continuar a descurar a atenção dada a outras patologias, tal como sucedeu durante este período da Pandemia. Francisco Branco alerta no entanto que a responsabilidade por esse facto não pode ser imputada aos enfermeiros açorianos.
“Os enfermeiros prestadores de cuidados não têm qualquer responsabilidade nessa decisão. Isso foi uma decisão que partiu da Secretaria Regional e Saúde e da Autoridade Regional de Saúde, que por acaso até tem um enfermeiro como Director Regional. Foi naquela coisa de ter de atacar primeiro a pandemia e o resto ficou em espera. Uma coisa são 15 dias ou mês mas não pode ser eternamente assim”, salienta
O Sindicalista afirma que ainda não é possível contabilizar os danos concretos que esta prioridade direcionada para a Pandemia, causou nos doentes que sofrem de outro tipo de doenças. 
“Não temos qualquer conhecimento de quais os prejuízos efectivos e quais as mortes que podem ser imputadas a este cancelamento de toda a actividade programada. As pessoas não ficaram menos doentes. As pessoas tiveram receio e foram impedidas de ir para a urgência, para as consultas e para as cirurgias. Isto não pode continuar”, reforça
Sobre o possível prémio que está em discussão para os profissionais de saúde, Francisco Branco começa por realçar que uma pandemia sem enfermeiros “seria os caos”, mas que estes profissionais “fizeram aquilo que aprenderam na escola e aquilo que era obrigatório fazer” num cenário como este. O Coordenador nos Açores do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses afirma mesmo que este prémio não pode substituir as reivindicações de fundo que os enfermeiros açorianos reclamam há já algum tempo.
“O que nós estamos a reclamar são questões de enquadramento remuneratório de acordo com as responsabilidades que os enfermeiros têm na prestação de cuidados e não um prémio pontual. Não estamos nem a favor nem contra o prémio, mas o prémio não é aquilo que estamos a reivindicar ou reclamar. Se o prémio não existisse isso não fazia diferença nenhuma”, afirma Francisco Branco 
 Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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