No passado Domingo, entre as várias publicações nas redes sociais que dão a conhecer casos de animais que tenham passado por situações de maus-tratos e que procuram uma família que os acolha, Raquel Gravito, conhecida por ser activa na protecção dos animais, foi notificada para uma situação que dava conta de um cão que estaria a passar por sérias dificuldades.
Esse cão estava, no entanto, num terreno privado na zona de São Roque – o que impede desde logo a entrada de pessoas estranhas sem a presença e respectiva autorização de uma autoridade competente tal como a GNR ou a PSP.
Preso por “uma corrente muito curta que não chegava à casota”, este cão encontrava-se também privado de água e comida, recorrendo apenas à escavação de uma cova que utilizou como forma de se proteger do calor dos últimos dias, até morrer.
Depois de averiguar esta situação, a jovem afirma ter ligado para a GNR, responsável por este tipo de resgates, sendo informada de que a equipa do SEPNA estava “a inspeccionar um animal de raça potencialmente perigosa” longe dali, e que passaria no respectivo terreno até às 16h00, “se tivesse tempo” antes do fim do turno, diz.
“Acontece que ninguém passou lá depois das 16h00 nem foi chamado o canil municipal ou a PSP”, adianta Raquel Gravito, referindo assim que acabou por pedir ajuda a um amigo para que conseguissem, a partir do muro, dar alguma comida e água ao cão até conseguirem a intervenção de uma autoridade.
Ao lá chegar, depararam-se com o cão “parado e com moscas”, levando de imediato a crer que entre a hora da denúncia, pelas 14h15, e o final daquele mesmo dia o cão havia morrido.
No entanto, a família proprietária do terreno apercebeu-se da presença dos protectores dos animais naquele local, o que levou à necessidade de chamar a PSP, tendo em conta que foram dirigidos empurrões e ameaças aos intervenientes que desejavam ser testemunhas do ocorrido até este poder ser registado pelas autoridades.
“Decidimos chamar a PSP para sermos testemunhas de que o animal estava vivo à tarde e que à noite estava morto, para não dar tempo da família enterrar o animal e não se saber mais nada. (…) Entre empurrões e ameaças, dois deles foram lá ao terreno e deduzimos que estivessem a esconder o animal o que foi confirmado quando a PSP chegou porque estivemos a conversar com eles e quando dois elementos foram lá já não havia nem cão nem corrente”, conta Raquel Gravito.
Desta história, que embora seja apenas uma, não é exemplo único, uma vez que existem outros processos e queixas que se encontram pendentes na justiça, resulta uma queixa-crime pelas ameaças que foram proferidas pelos donos do terreno aos protectores dos animais, e outra por maus tratos ao animal que acabou por perder a vida.
Quanto à GNR, Raquel Gravito admite ter sido contactada na passada Segunda-feira, no dia seguinte às ocorrências, tendo os militares adiantado na altura que tinham estado à procura do cão mas que este já não lá estava.
Desta experiência resulta ainda a angústia já conhecida naqueles que consideram ser responsáveis por fazer o trabalho que compete a outras entidades como o canil municipal ou a GNR, uma vez que esta “nada consegue fazer” quando as burocracias se sobrepõem à necessidade de intervir.
“A GNR nada consegue fazer porque é preciso muita burocracia. Para entrar num terreno é preciso uma autorização, para tirar os animais tem que ser com o veterinário municipal e é preciso que o canil tenha espaço, e quando não há espaço é preferível dizer que o animal está em boas condições, senão os animais acabam por morrer à míngua.
Não há uma entidade única que diga que o animal não está bem e que vai sair do sítio onde está para ser tratado numa clínica, porque quando um animal é resgatado é colocado no Canil Municipal de Ponta Delgada e o canil não é uma clínica que presta cuidados”, explica.
O “Correio dos Açores” contactou a GNR para obter mais informações relativamente a este caso mas não foi possível obter uma resposta oficial até ao fecho da edição.
J.M