Os responsáveis da empresa consideram que “é com orgulho e sentido de responsabilidade” que recebem a distinção de reconhecimento global, de Observação Responsável de Cetáceos, pela World Cetacean Alliance, um movimento associativo de mais de 100 organizações, de mais de 40 países, trabalhando colaborativamente para proteger os cetáceos e o seu habitat.
Com esta certificação, pretende-se garantir que os operadores de Observação de Cetáceos certificados cumpram critérios “rigorosos de qualidade na experiência do cliente, e, principalmente, numa operação responsável para com os animais, meio ambiente e as comunidades visando, acima de tudo, minimizar os impactos na vida selvagem”.
A Futurismo demonstra também “o maior orgulho no crescimento” deste movimento associativo que é a WCA, à qual pertence ainda antes do seu início formal, em 2013, tendo participado já em projectos anteriores, como o Planet Whale.
Sublinha a Futurismo que, junto com outros associados, “pugnou sempre por um turismo responsável e uma actividade de observação de cetáceos que siga orientações definidas pela ciência.
Este foi um processo no qual “aproveitamos para, com tempo e sentido crítico, trabalhar em conjunto com parceiros internacionais para não só obter a certificação como um fim, mas antes pensar já em melhorias no que concerne aos seus elementos constituintes, tendo-se debatido profundamente a prática e a legislação açoriana quando em comparação com outros exemplos mundiais”.
A Futurismo considera que “foi um dos precursores na transformação socioeconómica e cultural na relação com os cetáceos nos Açores. Honramos essa relação antropológica tão marcante para o açoriano, que nos moldou e molda o espírito, contribuindo para a valorização dos cetáceos, para o seu estudo e do meio que os envolve”, referem os responsáveis da empresa.
Para a Futurismo, as certificações, mais do que um fim, “são por nós encaradas como um meio promotor de valores éticos. Sempre com a noção da nossa essência, açorianos apaixonados pelas nossas ilhas, pela nossa cultura e pelas nossas gentes, dos quais somos parte, fizemos um bonito percurso de debate e clarificação durante o processo de certificação, comparando práticas e retirando ensinamentos para o futuro”.
Neste percurso de 30 anos que a Futurismo completa este ano, “a promoção cultural e a ligação da ciência ao turismo, como ponto de valorização e de dinâmica educacional, foram sempre vectores estratégicos”. Durante as viagens de observação de baleias e golfinhos, a equipa de biólogos marinhos da empresa recolhe informações dos avistamentos e outros dados científicos.
Estes dados são partilhados com universidades e outras instituições de todo o mundo. O objectivo destes estudos “é desenvolver políticas para proteger cada vez mais os animais marinhos e os oceanos.
Ainda no campo da investigação, centenas de jovens portugueses e estrangeiros têm passado pela Futurismo para “poderem connosco completar e enriquecer as suas teses de doutoramento e mestrados”.
No que toca à educação, principalmente com escolas regionais e com as gerações mais novas, a empresa tem vindo a fazer “um trabalho crescente, que nos orgulha, ao longo dos anos. Quer nas nossas instalações, nas nossas embarcações, ou nas escolas, os jovens e a Futurismo tem-se cruzado para momentos de partilha e aprendizagem sobre temas como sustentabilidade, ambiente, ecologia e oceanos”.
Uma certificação que é encarada pela Futurismo como “mais um passo, mais um marco que demonstra, acreditamos que inequivocamente, que podemos fazer bem, cada vez melhor, equilibrando o factor económico com o factor ambiental, social e cultural”.
O que representa para a Futurismo esta certificação?
Rúben Rodrigues (sócio gerente da Futurismo) - Tendo sido o fundador da Futurismo e desta actividade Whale Watching em São Miguel, para nós representa o culminar de uma estratégia que assumimos desde muito cedo, desde 1994, quando nos pediram para fazer um projecto de reabilitação da fábrica da baleia nas Capelas que assentava em 4 pilares, um dos quais era a recuperação do património. Outro era a criação de uma unidade extensa e alargada de educação ambiental para trabalhar com as escolas de toda a ilha. Um terceiro pilar era o da investigação científica e apoio a investigação científica de investigadores de fora da Região que mostraram interesse em vir para cá e ter uma oportunidade de poder ir para o mar e estudar os cetáceos. E, por último, um quarto pilar que era o da nossa actividade propriamente dita.
Desde 1994, quando começámos com a actividade de Whale Watching em São Miguel, embora já existíssemos desde 1990, que sempre pensámos na modalidade Whale Watching e também na necessidade de investigação científica e da recolha de dados das observações que fazíamos justamente como um meio para valorizar o produto que tínhamos e de ver que também era uma oportunidade para sabermos o que é que se passa aqui à volta porque, rigorosamente, apenas existem uns dados dispersos.
Antigamente havia uns dados da caça à baleia e, ainda hoje, sabe-se muito pouco sobre o que é que existe aqui à volta de São Miguel, porque não foram feitos estudo. Há um estudo ou outro que já foi feito. E, curiosamente, existe um estudo mais aprofundado que vai mais longe sobre aquilo que se passa aqui à volta, envolvendo os cetáceos mas também a biodiversidade. Este estudo foi feito por uma pessoa que há dez anos começou a trabalhar connosco, ainda continua a trabalhar connosco mas que hoje é doutora e tirou o seu doutoramento com base nos dados que nós recolhemos.
Existe um projecto dos Açores, feito por uma pessoa que esteve cá em 1996, na sequência de um congresso em que participamos em Bruxelas. Concebemos um plano vasto para a indústria do Whale Watching, onde a investigação científica está referenciada e com passos muito concretos a ligar as universidades de vários países, Açores, Lisboa, Madrid, Inglaterra, Escócia, Suécia, e Noruega, que fazem parte da rota suposta dos cachalotes machos quando emigram para o Norte. Queríamos que as universidades dos países por onde, supostamente, passam esses cachalotes, pudessem estudar o seu movimento e quando e como ocorre. Sabe-se que os animais vão para a Noruega, passam lá uns anos e depois voltam para Sul, para os Açores, Madeira e Canárias para a fase de reprodução e depois ficam alguns por aqui.
Por exemplo, temos aqui um caso que chamamos o Mr. Liebel que é um macho cachalote que praticamente passa aqui todo o ano e que contamos vê-lo em certas épocas praticamente todos os dias. Mas ele está cá todo o ano, mais ou menos afastado, na costa norte ou na costa sul de São Miguel. É interessante começar a perceber essas motivações e o que é que se passa aqui à nossa volta. Esta sempre foi uma preocupação que tivemos desde o início e sempre estivemos também e temos uma ligação muito forte hoje em dia com universidades e institutos. Por exemplo, alunos da Universidade do Algarve vêm cá fazer as suas teses de final de curso. Temos protocolos com a universidade do Algarve, Vigo e de Barcelona.
Esta certificação foi feita por um organismo do qual somos também fundadores, em 2013 e já antes estávamos ligados a uma outra organização que é precursora dessa, a World Cetacian Aliance, que era o Planet Whale, o Whale Festival em Brighton na Inglaterra. Aliás, fomos três anos e patrocinávamos esse festival. Chegamos a ter, em dois deles, uma espécie de whale watching virtual. Tínhamos um barco, as pessoas que entravam dentro do barco. Era projectado numa tela uma saída nossa aqui nos Açores e, portanto, as pessoas lá tinham uma experiência virtual do que era o whale watching aqui nos Açores. Eu diria que esta certificação corresponde a uma preocupação que temos tido sempre que é valorizar o produto e ter sempre noção de que esta actividade existe mas tem de ter preocupações de interferir o menos possível com os animais.
Ora, a certificação é o reconhecimento de um trabalho que, para nós, começou há muitos anos de ter nos Açores uma actividade sustentável, amiga do ambiente, amiga dos animais. Temos esta exploração a pensar na sustentabilidade e na sua continuidade para o futuro.
Tem alguma moralidade para falar sobre o que tem sido a observação de baleias e golfinhos em redor de São Miguel Toda a actividade que se tem desenvolvido tem sido amiga dos cetáceos? Há casos em que isso não acontece?
É sempre necessário melhorar e aperfeiçoar. É sempre necessário ter uma postura certa para evoluirmos para outros patamares de qualidade no Whale Watching. Ainda temos margem para evolução e, portanto, entendo que estamos no bom caminho. Há mais empresas cuja acção também é já reconhecida e certificada. Esperámos que possamos servir de exemplo a outros que possam também fazer uma evolução mais rápida no sentido de qualificar o seu produto para que os Açores sejam, globalmente reconhecidos, como uma área cuja actividade de Whale Watching é de qualidade e é sustentável na defesa os animais.
Este é um ano atípico. Qual o impacto da pandemia do Covid-19 na Futurismo?
Está a ter um impacto muitíssimo significativo. Ou seja, reduzimos a nossa facturação, até este momento, em cerca de 90% e a previsão é para ter uma actividade acima da que tivemos em Julho que não foi nada especial. Mas será uma actividade que nos vai conduzir a uma perda de receitas superior a 80%. Eu não tenho dúvida. Neste momento já vamos em um milhão e meio de euros de perda. Julho, Agosto e Setembro são os três meses onde a empresa costuma facturar uma percentagem muito elevada das suas receitas.
Sente uma maior adesão dos locais ao Whale Watching?
Sim, temos sentido. Os turistas nacionais já são uma presença normal. Criamos um outro tipo de actividades como os passeios de costa e temos tido uma adesão assinalável. Abrimos as portas da Futurismo, dos seus equipamentos – não só no mar mas também nas Sete Cidades com os caiaques – à população local. Estamos a facultar, de uma forma mais fácil, à população local a oportunidade de usufruir daquilo que de bom temos nos Açores, a natureza, a fauna e a flora. Poder contemplar esta benesse que temos é algo de maravilhoso e de muito bom que temos aqui nos Açores e nem sempre valorizamos aquilo que temos. A nossa postura será, daqui para o futuro, facilitar ao máximo as condições para que mais locais tenha oportunidade de experienciar as nossas propostas tal como fazemos para o turismo em geral.
E o natação com golfinhos?
É uma actividade que tem uma procura crescente. Mas também é a actividade mais complexa. E, por exemplo, nesta certificação que tivemos agora, foi a actividade em que nos obrigaram a ceder mais naquilo que vimos a praticar. Ou seja, praticamente, só podemos fazer uma viagem por dia para nadar com o mesmo grupo de golfinhos. Foram muito restritivos porque também é a actividade que, supostamente, tem um impacto e interfere mais com os golfinhos.
Esta é uma actividade que tem uma procura muito interessante e está sempre a crescer. É uma actividade muito apelativa, muito atractiva e tem algum potencial.