8 de agosto de 2020

Cesto da Gávea

Estivação

O milagre da vida, assente em milhões de anos de evolução natural, levou os seres vivos, em particular os animais, a desenvolver estratégias de sobrevivência face a condições adversas do meio que espantam cientistas, naturalistas e todos quantos se interessam pelos diversos ramos da biologia e da ecologia. Aconteceu comigo nos estudos sobre migração de joaninhas, nos Alpes da Provença, quando as simpáticas bichinhas migravam no verão para o cimo das montanhas e entravam em estivação debaixo da frescura das pedras e fendas rochosas. Quando vinha o frio e a neve, a estivação dava lugar a uma dormência mais profunda, uma hibernação que durava até ao raiar da próxima primavera. A geração seguinte prosseguia o milagroso ciclo vital, no mesmo ritmo multimilenar, objeto de minuciosas observações e teses académicas. O fenómeno da hibernação era conhecido e estudado em mamíferos, a estivação em peixes pulmonados e caracóis, mas a estivo-hibernação ligada à migração, teve a sua glória com as joaninhas francesas dos Alpes Marítimos.
Tudo começava com o calorzinho de verão, alertando para o descanso no fresquinho, à semelhança do que é habitual na classe política e na generalidade da sociedade civil portuguesa e europeia. Começava, porque a covidiana pandemia veio alterar tudo, incluindo a repousante estivação política, que os fãs dos média costumam batizar de “silly season”, algo que traduzido à letra pode significar “estação tonta”, se formos amáveis, ou “estação idiota”, quando mais corrosivos. No nosso enquadramento açoriano, com a espada de Dâmocles da pandemia ameaçando a recuperação turística e a economia em geral, desta vez a estivação parece estar votada a uma profunda alteração fisiológica, agravada pelo calendário eleitoral. Mal os Açores se preparavam para estivar, reduzindo a sua atividade metabólica ao mínimo indispensável, entrou em cena a aprovação pela Assembleia da República da Lei do Mar, suscitando votos contra de uma dúzia de deputados socialistas e a abstenção das bancadas da oposição. Há pouco mais de uma semana, aproveitando a inauguração da Escola do Mar, o Presidente Vasco Cordeiro apelava na Horta à promulgação do diploma pelo Presidente da República, contrariando a posição daqueles deputados do PS que solicitaram o veto presidencial. E que, ao que li nalguma imprensa nacional, foram 12 a votar contra no plenário, mas 17 a assinar a declaração de voto. O que, a ser verdade, é sinal de alguma “malaise”, justificando a manchete do semanário Sol: “Mar abre guerra entre lóbis no PS”. Seja ou não, se o lóbi socialista açoriano ganhar, valeu a pena a luta.
Embora a pandemia continue a ameaçar o mundo, devemos aproveitar a calmaria estival para ler e recuperar forças para o embate que se prevê, antes da chegada maciça de antivirais e vacinas que abram caminho a maior estabilidade social e económica. O regresso aos negócios do costume, fomentando monstruosas vigarices que a pandemia facilitou desnudar (a incómoda lista vai da rapina do BES, ao inconcebível desleixo das ferrovias portuguesas), suscita inquietações que a leitura pode esclarecer. Dois livros, um da autoria do Dr. José Pinheiro da Silva – “A Educação e o Futuro de Angola (1970)” – publicado em 2009, e outro – “Açores, uma íntima ligação” -- de Julho passado, edição pessoal do Dr. Alberto Sampaio da Nóvoa, antigo Ministro da República para os Açores (1997-2003) mereceram a minha atenção. Conheci os autores, Pinheiro da Silva em Angola nos anos 60/70 e Sampaio da Nóvoa nos Açores, entre 1997/2003. Em Angola, Pinheiro da Silva era Secretário Provincial da Educação e eu, assistente do Instituto de Investigação Científica. Nos Açores, Sampaio da Nóvoa era Ministro da República quando fui Reitor da nossa Universidade. De ambos respiguei diferenças, mas sobretudo muitas ideias ainda hoje atuais, das quais não resisto citar uma, de cada um deles. Do historiador Pinheiro da Silva, recordo o que escreveu sobre a importância das fábricas de Braço de Prata, da OGMA, da Sorefame e dos Estaleiros Navais, visita obrigatória dos professores que a Secretaria da Educação angolana enviava a Portugal, para estudo da realidade “metropolitana”. Interessante, quando 50 anos depois se fala tanto em reindustrializar. Do magistrado Sampaio da Nóvoa, o capítulo 8 do seu livro, inteiramente dedicado à Universidade dos Açores, da qual destaca “ a grande dinâmica da e a valia científica de tudo aquilo que ela tem vindo a conseguir, com grande interesse para a Região Autónoma dos Açores”.
No capítulo do livro dedicado às Forças Armadas nos Açores, o Dr. Sampaio da Nóvoa refere que no ano 2000 estava prevista a construção de 12 navios-patrulha oceânicos, “dos quais certamente dois -- ou talvez mais – seriam atribuídos em permanência aos Açores”, expondo as razões do seu desapontamento e comprovando que não é só nos bichos que há estivação.
NdA: Os livros dos Drs. Pinheiro da Silva e Sampaio da Nóvoa merecerão crónica especial, o primeiro a título póstumo, o segundo em homenagem devida. “Cesto da gávea” está atento à portugalidade, dignificando a açorianidade.

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Categorias: Opinião

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