José Franco fala da sua vida enquanto fotógrafo e formador

“A fotografia é a minha vida e a minha vida é a fotografia”

Correio dos Açores: O que é para ti a fotografia?
José Franco: A fotografia para mim e cingindo-me à técnica é essencialmente o registo da luz e o seu domínio, mas claro que isto é muito pouco, a fotografia é um modo de vida, uma forma de estar no mundo, de eternizar os momentos e as emoções. De uma forma simplificada também é para registar vivências, e momentos especiais como aniversários, casamentos e outras situações. A fotografia de autor é captar a alma do outro, melhor dizendo, é captar a alma do outro através da minha, através do meu olhar sobre o outro. A fotografia é sempre um autoretrato.

Quando foi que ocorreu o primeiro contato com a fotografia?
É engraçado que todos os Açorianos têm grande parte da família nos Estados Unidos, e eu, em miúdo, à semelhança de todos nós, recebia familiares e amigos que, vinham sempre carregados de tecnologia, entre muitas coisas, traziam sempre as câmaras de filmar e de fotografar e este tipo de equipamento sempre me fascinou muito. Este foi certamente o meu primeiro contato com o mundo da fotografia. Tinha eu cerca de 15 anos quando a minha família foi aos USA, éramos tantos que o avião era quase todo nosso, mais parecia um ato de emigração, do que uma viagem de férias em família. Eu levei para esta viagem dois objetivos: comprar uma câmara fotográfica reflex e uns óculos de sol RayBan. Tinha algumas economias, que fui guardando enquanto estudava e trabalhava na loja do meu Tio e, pensava que eram o suficiente para concretizar os meus sonhos. O certo é que o dinheiro, que eu julgava ser muito, não dava nem para uma das duas coisas. A família ao ver-me triste por não ter conseguido os meus objetivos juntou-se e angariou os valores necessários para concretizar os meus dois sonhos. Regressei aos Açores como sendo a criança mais feliz deste mundo, agora já podia sair à rua para fotografar e de óculos escuros de marca. Este foi o meu começo no mundo da fotografia. Naquele tempo eram muito poucos os que tinham câmaras fotográficas e eu aproveitava para tirar fotografias de casamentos, batizados, comunhões, trabalhando com afinco de tal forma que antes dos profissionais terem os seus portefólios prontos, já estava eu junto dos pais das crianças para entregar o meu trabalho, diga-se de passagem, que era bem acolhido e assim ganhava um dinheiro extra que investia na fotografia.
Como é que a fotografia mudou a tua vida?
A fotografia mudou a minha vida de diferentes formas. Estou convencido que os fotógrafos vêem o mundo de uma forma diferente. Olhamos as pessoas, a natureza, e tudo o que nos rodeia, por uma perspetiva diferente, obtendo e registando o mais natural possível, procurando a essência de cada coisa, de cada lugar, sem o aspeto crítico ou de posse. Vou-te contar em primeira mão uma história que me aconteceu, que nunca revelei em público e que poderia ter mudado o rumo da minha vida. Aos 18 anos, concorri para o lugar de operador de câmara para a RTP Açores, vaga que poderia preencher com facilidade já que tinha todos os requisitos exigidos no concurso. Estranhei o fato de nunca ter sido contatado, tendo-me deslocado até aos serviços de pessoal e questionado sobre o resultado do mesmo. Foi-me dito, de uma forma sigilosa, que eu era o mais bem qualificado, mas que por influência de um familiar meu, foi movida uma cunha para eu não ser chamado a ocupar a vaga disponível, ficando assim livre e obrigado a ficar ligado aos negócios da família. Face a esta situação desenvolvi a minha vida profissional no mundo do pronto-a-vestir até 2008, altura em que se dá o crash da bolsa de New York, que afetou a economia em todo o mundo. Eu fui apanhado por esta crise levando-me a uma falência tremenda. Neste momento a minha vida mudou radicalmente, voltei a fazer a tempo inteiro aquilo que mais amo – a fotografia. Deixei de ser empresário puro e duro, atento aos números, às contas para pagar, aos funcionários, e a pressão. Em cada dia que terminava, já pensava no dia seguinte e no outro e assim sucessivamente. Tudo o que fiz e faço na vida é com paixão e entrega total e agora mais do que nunca, porque, “quem corre por gosto não cansa”, como diz o ditado, mas nem sempre é fácil. Gosto mais da vida que tenho hoje, apesar de não ser tarefa fácil, mas a energia que jorra todos os dias quando acordo e digo para comigo: mais um bonito dia para fotografar, dar formação ou viajar com amantes da fotografia; faz com que eu me sinta vivo.

Nos últimos anos, a tua vida tem dependido unicamente da fotografia. É fácil viver da fotografia?
É muito difícil viver unicamente da fotografia, muito mais agora, por causa da pandemia que afetou tremendamente a economia mundial, causando pânico na sociedade. Todos os dias é um inventar, criar, inovar, mas isso é o que faz um fotógrafo. É certo que se tivesse seguido o caminho do fotojornalismo, ou de registo de eventos, como por exemplo: casamento, batizados, sempre teria uma fonte de receita mais estável. No começo enveredei por este caminho, mas chega-se a uma determinada idade, depois de tudo o que já fiz na vida e pela forma como sou tido no campo da fotografia, principalmente nos Açores, que sinto a responsabilidade de ser aquilo que sou e de fazer só aquilo em que acredito. Quando se tem uma imagem de marca própria, quando criamos uma linha própria de pensamento, que se retrata nos meus trabalhos, que não são propriamente comerciais, mas sim, fotografia de autor, interventiva, crítica, bem representativa do que sinto, do que já vivi, do que já amei, do que já perdi, do que penso, não se consegue ser diferente. Sou demasiado agarrado aos meus princípios, e por defendê-los já perdi muito, mas não consigo abdicar da minha verticalidade. Esta é a minha forma de estar no mundo e pretendo mantê-la enquanto tiver forças e achar que é este o caminho certo, que me faz sentir feliz e que me traz paz e tranquilidade. A minha linha fotográfica até pode não dizer muito a muita gente, mas é assim que eu vejo a fotografia e o mundo, porque ela é uma parte de mim mesmo, e do que pretendo para a sua eternização. Quem sabe se no futuro o meu modo de estar no mundo e na fotografia poderá influenciar os vindouros, como outros tantos fotógrafos e artistas do passado influenciaram os do presente.

A pandemia que se vive no mundo e em especial nos Açores e com todos os constrangimentos associados, até que ponto afetou a tua atividade como fotografo e formador?
Nos últimos anos a minha principal fonte de receita tem sido através da formação, tendo já ministrado formação em fotografia em quase todas as ilhas do Arquipélago dos Açores e no continente, para além disso a outra fonte de rendimento é as viagens pelo mundo com fotógrafos. A pandemia veio mudar muito a minha vida, porque com os constrangimentos provocados pelas normas de confinamento, pela crise social e económica, pelo medo ou receio do que estará para vir, todos os programas de viagens previstos para este ano foram suspensos, o que me trouxe prejuízo e quebra de rendimento, fazendo com que uma vez mais tivesse de reinventar a minha vida. Com o surgimento das novas tecnologias, provocadas pela necessidade de manter as pessoas em contato, passei a dar formação através das plataformas digitais, o que me deixou muito surpreso pela positiva. As pessoas estão em casa, confinadas, isoladas e assim foi uma forma de se manterem ligadas ao mundo e com a mais-valia de ser ao mundo que gostam, a fotografia. Por outro lado, apercebi-me que os resultados obtidos pela formação on-line são muito melhores que os presenciais, as pessoas estão mais focados, no seu ambiente familiar, caseiro, até de pijamas, o que se traduz numa melhor aprendizagem. Curiosamente eu já estava habituado a trabalhar com plataformas digitais e a partir de casa, utilizo este modo de trabalho há mais de 10 anos, pelo que me foi fácil adaptar a esta nova realidade. Por parte do público é que notei ao princípio, uma certa resistência; o Homem por natureza é sempre muito resistente à mudança e às coisas novas, mas depois veio-se a revelar num autêntico sucesso por parte dos meus formandos. Neste momento, já estou novamente a dar as aulas práticas presenciais, como ocorreu na semana passa em Ponta Delgada, onde foi nítido a necessidade de conviver, de sair, de estar juntamente com pessoas, de modo físico, em grupo. Facto este que me leva a dar continuidade à formação on-line e manter a formação prática no terreno, por outro lado, comecei a lançar uns pacotes de viagens pelo nosso Portugal, onde o risco de contágio é reduzido, de modo a que as pessoas possam gradualmente voltar á normalidade. Por que a vida não terminou e temos de nos habituar a esta nova realidade mundial, até que uma vacina esteja disponível.

Como é visto um fotógrafo como tu aos olhos da sociedade?
Isto é coisa que não me preocupa. Sei que há quem goste e aprecie a minha forma de ser, de estar no mundo e na vida, outros talvez por que queriam ser como eu, criticam-me, mas é como tudo na vida, “os cães ladram e caravana passa”. Sou o que sou, e tento ser o mais genuíno possível, firme nas minhas convicções, embora por vezes isso possa levantar algumas discussões e ser criticado, mas acho que devemos ser íntegros, firmes, e quando descobrir que não estou correto, terei a humildade de mudar e retratar-me.

O que sentes ao dar formação?
É curiosa esta pergunta, porque nem sempre soube bem o que era este sentimento. Ao longo da minha ativa como fotógrafo e não só, fiz muita formação, até que um dia e com base na minha acreditação como formador, ou seja, sou portador do CAP que me permite dar formação com validação e certificação, surgiu a possibilidade de eu passara dar formação. Descobrindo que formar, é mais do que falar de fotografia, é falar da vida que nos rodeia, das pessoas e da forma como interagimos com elas e elas connosco. Nem sempre o problema está nos outros, por vezes somos o problema. Por que, por mais que formar em fotografia, o importante é formar as pessoas em pessoas, seres vivos críticos e participativos na sociedade onde estão inseridos, e esta é a minha forma de estar no mundo, pelo mundo e pelas pessoas.

Até que ponto a formação em fotografia poderá alterar os comportamentos das pessoas e da sociedade?
A formação em fotografia pode em muito mudar os comportamentos das pessoas e a forma como elas vêem o mundo e até entender melhor determinadas notícias, pessoas e acontecimentos. Hoje vivemos rodeados de fotografia, são os outdoors, as revistas, os jornais, as redes sociais, tudo no fundo é fotografia e a fotografia tem uma força enorme de mudar a nossa opinião e até a forma de pensar e agir. Quem nunca viu uma fotografia de um ator famoso e quis ser como ele, ou comprar aquela peça de roupa para se sentir como ele. Hoje, todos nós somos fotógrafos, porque os nossos telemóveis, portadores de uma câmara fotográfica, permitem que a cada momento possamos tirar uma fotografia e colocá-la nas redes sociais e é aqui que reside o maior problema, é que nem sempre podemos divulgar tudo o que fotografamos. A fotografia, salvo muito raras exceções, deve sempre ser no sentido de valorizar o sujeito e devemos ter muito cuidado quando a notícia a publicar for negativa, porque corremos o risco de estar a passar uma mensagem errada ou a fazer chegar a alguém uma notícia forte e triste, sem que esta pessoa esteja preparada. Nós fotógrafos podemos fotografar tudo, mas nem tudo o que fotografamos poderá ser mostrado.

Após uma formação, os formandos estarão aptos e podemos designar que já são fotógrafos?
Não, não diria isso, porque ser fotógrafo é muito mais do que tirar fotografias. Ser fotógrafo é criar, inventar, construir, valorizar. Grande parte dos meus formandos não têm alma de fotógrafo, querem saber um pouco mais, ou porque têm um bom equipamento, ou porque é uma forma de conhecer pessoas e fazer novas amizades, ou porque querem ter um rendimento extra. Hoje em dia quase que se pode dizer que todos nós, em regra geral, somos fotógrafos, porque passamos o dia a tirar fotografias pelo telemóvel e a publicar nas redes sociais, embora muitas vezes sem a devida consciência de ser correto ou não, o que estamos a publicar, quer do ponto de vista ético ou legal, porque nem tudo pode ser publicado, como já acima tinha referido. Ser fotógrafo, é muito mais do que saber e dominar a técnica na obtenção da fotografia, ser fotógrafo é todos os dias tirar uma fotografia, na esperança que aquela seja a fotografia da vida dele, dai que o fotógrafo está em constante evolução e crescimento, quer ao nível técnico quer ao nível intelectual. Ser fotógrafo é um modo de estar na vida.

Os telemóveis serão de certa forma elementos competitivos com as câmaras fotográficas?
Acho que não existe competição entre um telemóvel e uma câmara, porque ambos fazem e praticam o mesmo princípio, que é o registo da imagem. Certo é que os telemóveis ainda estão muito aquém das funcionalidades de um equipamento REFLEX, quer pela sua qualidade, quer pela sua operacionalidade. Já vi excelentes fotografias feitas por telemóvel. O telemóvel tem a particularidade de estar sempre connosco e permitir registar momentos únicos. A utilização da câmara Reflex cria uma ligação de proximidade, diria de intimidade entre o autor, o equipamento e o sujeito, passamos a ser apenas um, é a extensão da nossa visão, da nossa alma, enquanto que o uso do telemóvel, cria um distanciamento físico. Creio que cada um tem o seu espaço e condicionalismos. Obviamente que no futuro teremos smartphones tão bons como, as vulgares câmaras Reflex, é apenas uma questão de tempo, até porque a tecnologia, caminha para que tenhamos a nossa vida na palma da mão.

A fotografia tal como a conhecemos tem futuro?
Sim, não tenho dúvidas que sim, porque na verdade tudo ou quase tudo tem por base a fotografia. Começando pelo cinema, a fotografia tem um papel fundamental, pois é ela a responsável pelo enquadramento, pela mensagem, é o fotógrafo que irá materializar o que o realizador e o argumentista sente sobre a obra que irão passar para o cinema. A fotografia está para ficar e estamos a voltar novamente para a impressão em papel, principalmente em grandes formatos, porque para um fotógrafo de autor a fotografia só é fotografia, depois de impressa. Muitas vezes a fotografia em suporte digital, ou seja, no computador, parece ser uma excelente fotografia, até pode ter tido milhares de likes nas redes sociais e, quando impressa, por vezes, não tem impacto, força, caráter. O contrário também acontece. Ainda há pouco tempo foi vendido nos USA uma fotografia por 3 milhões de dólares. Por vezes não identificamos a fotografia como sendo arte, mas ela é arte, tão arte como um quadro de Picasso, porque ela é o que o autor vê, sente e transmite.

Se pudesses alterar ou mudar algo no teu passado o que seria?
Sabes que não consigo, ou melhor não tenho este desejo porque, o que sou hoje é fruto do que eu fui no passado. Tenho a consciência que tomei decisões difíceis e que ao tomar determinadas decisões, a minha vida mudou radicalmente, mas não me lamento de nenhuma hipotética má decisão. A pessoa que hoje sou, tanto a nível profissional, social e emocional, é fruto de todas as experiências ricas que eu vive. Viver é isto mesmo, é tomar decisões. Eu costumo dizer, mais vale uma má decisão do que nunca as ter tomado. Hoje, sinto-me uma pessoa realizada, feliz, faço o que gosto, tenho tempo para as minhas coisas ou simplesmente tempo para não fazer nada. Amanhã poderei chegar à conclusão de que afinal eu estava errado, se assim for, cá estarei para acatar com as devidas consequências, mas até lá, deixa-me ser assim, porque sou eu e sou feliz.

Viver nas Flores alterou a tua forma de ver a fotografia e de ver o mundo em que ponto?
Mudou muito, passar a viver nas Flores foi uma mudança brutal, radical, foi passar de um citadino puro e duro, para uma vivência no campo, no meio das galinhas, com porcos, com hortaliças, apaixonado pelas minhas flores, viver sem stress, na isenção total da pressão das cidades. É fantástico viver esta calmaria, para além disso é mais económico, porque viver numa cidade como Ponta Delgada, onde já não é possível sair à rua sem levar algum dinheiro na carteira, na ilha das Flores posso sair à vontade sem dinheiro porque não é imperativo. Aqui tenho boa ligação à internet, o que me permiti fazer o meu trabalho com qualidade e eficácia. Passei a dar muito mais valor a países pobres por onde tenho viajado depois de viver nas Flores, onde percebi que se consegue ser feliz com muito pouco. O dinheiro por si só não dá felicidade, contudo, a ausência dele para coisas vitais, dá muito desconforto. Aprendi, na ilha das Flores, que o luxo, o supérfluo só nos desvia de nós mesmos. A verdadeira felicidade está nas pequenas coisas, nos amigos, na família, no outro e na natureza.

O que recomendarias a quem gosta de fotografia e de fotografar?
O grande conselho que posso dar é que, devem fotografar, fotografar muito, insistir, ser exigente, porque grande parte do que se fotografa é lixo. Devemos criar projetos, desafiarmos a nós próprios. Quando mostramos a alguém uma fotografia e a mesma é alvo de crítica por ser muito diferente, porque não ser compreendida pelos comuns mortais, isto significa que estamos no caminho certo, no caminho da fotografia de autor, no caminho da arte. Tenham a coragem de fotografar com a vossa alma, fotografar o que sentem independentemente do que é politicamente correto.

O que diz o teu coração?
O meu coração diz-me que não devemos ter medo de sermos felizes, por vezes não é tarefa fácil, por vezes temos de passar por um árduo caminho, porque a inveja também impede de alcançarmos a felicidade. As opções e decisões a tomar são por vezes difíceis e é mais fácil desistir, mas o sabor da felicidade é único, pessoal e intransmissível. Façam um favor a vocês: sejam felizes!
Pinhal da Paz, 1 de agosto de 2020

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