14 de agosto de 2020

Em resposta ao esclarecimento da EDA

 Quem leu o artigo que ontem saiu neste jornal sob a introdução “Vários clientes da EDA sentem-se lesados com contas acima dos 100 e dos 200 euros sem se ter em conta a prescrição de dívidas”, página 7, e a seguir leu o “Esclarecimento da Empresa de Eletricidade dos Açores”, na mesma página, claramente percebe, na transição de leituras, a incongruência que sobressai da argumentação dada.
A insinuação de que estou em dívida para com a EDA é não só caluniosa como revela má-fé pela cortina de fumo que procura lançar sobre o cerne da questão. 
Sublinhemos então o fulcro da reclamação, que é comum a tantos clientes que se sentem legitimamente lesados: a EDA não tem legitimidade para, passado mais de meio ano, cobrar acertos que se acumulam em dívidas ocultas, que os consumidores desconhecem, e que se acumulam em montantes que prejudicam em muito os orçamentos das famílias. Uma empresa organizada teria certamente fechado contas a 31 de dezembro: não se pode onerar as famílias pelas falhas de uma empresa, quer por falta de organização, quer por falta de funcionários que se desloquem aos domicílios para leitura dos contadores. 
Na verdade, esta contenda surge precisamente por falta de leitura atempada. É neste argumento que a EDA fundamenta o seu esclarecimento ao problema. É um argumento muito fraco para uma empresa tão poderosa como é a EDA. Se as leituras são assim tão essenciais, o leitor da EDA teria de se deslocar com regularidade aos domicílios. No meu caso, de janeiro até junho, só veio duas vezes, sendo que, na primeira vez, não me encontrou em casa, o que é natural num agregado de pessoas que trabalham. O argumento dos meses de confinamento não colhe. Se não conseguiu estabelecer contacto comigo pessoalmente ou por email a solicitar leituras, a alternativa mais viável e mais certa teria sido o contacto telefónico. Nunca me chegou ao conhecimento a impreteribilidade da leitura ao ponto de incorrer, como a EDA refere no seu esclarecimento, na possibilidade de me cortarem o fornecimento de energia elétrica! 
Não fazia ideia de que um cliente, como eu, que cumpre regularmente o pagamento das suas contas mensais - entre 60 a 80 e tal euros de consumo por mês, chegando, num dos últimos meses, a pagar 120 euros, o que é muito bem pago para uma casa de família de três pessoas! - corria ainda este risco. Na verdade, nunca foi preocupação o fornecimento de leituras, tão simplesmente porque não sabíamos interpretar o contador que fornece três leituras, mas, sobretudo, porque a relação de confiança com a empresa nunca foi quebrada até ao momento. 
Quer então a EDA fazer passar a imagem de que é uma empresa caridosa e com preocupações sociais, pois sugere, no seu esclarecimento, que só não suspendeu o fornecimento de eletricidade devido à pandemia, propondo ainda o pagamento da suposta dívida em prestações. Pergunto: as preocupações sociais da EDA estão presentes quando apresentam às famílias açorianas faturas mensais já de si pesadas e hipocritamente suavizadas com planos de pagamento? A resposta deverá ser dada pelos inúmeros consumidores, lesados, que estão a receber faturas com consumos do ano passado. Não teriam eles também aberto a porta aos leitores da EDA? O mecanismo da estimativa de consumos não pode servir para isto. Pretende ser facilitador, mas, na verdade, está a servir para cavar um buraco nos orçamentos das famílias que têm confiado na EDA. Ingenuidade nossa.
O sentido social da EDA está bem revelado no esclarecimento dado a este jornal. Oculta a lei da prescrição da dívida destes valores igualmente ocultos que, com mais de seis meses, reaparecem em parcelas que somam um rombo nas contas das famílias açorianas. 
Eis a consciência social da EDA capciosamente iluminada. 
 Paula Cabral

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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