Jorge Rita reuniu com o secretário da Agricultura, João Ponte

21 produtores de São Miguel com oito milhões de litros de leite vão produzir carne, mas este número não é suficiente

 Vinte e um produtores de leite da ilha de São Miguel, equivalentes a uma produção de oito milhões de litros, aceitaram transferir a sua exploração para a produção de carne mas este número ficou aquém do objectivo de redução de 20 milhões de litros de leite.
O presidente da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, explicou ao ‘Correio dos Açores’ que não é fácil levar um agricultor que foi produtor de leite toda a vida a perceber que, pelas circunstâncias que o sector está a viver, ganha tanto ou mais dinheiro produzindo carne.
Jorge Rita exemplificou que, neste momento, existem em São Miguel produtores de leite em grande dificuldade, por não conseguirem atingir os padrões de qualidade a que estão obrigados pelas indústrias; por as explorações estarem muito subdividas em muitas parcelas; outros agricultores têm uma idade avançada e não têm sucessão na família para cuidar das vacas e não haver mão-de-obra especializada. Nestas condições, face ao actual preço do leite à produção, a sobrevivência é muito difícil para estas explorações agrícolas. E uma das soluções apontadas é mesmo a transição do leite para a carne, assegurando-se que os apoios que o produtor recebia do POSEI para a produção do leite, sejam transferidos para a sua nova actividade de produção de carne.
“A expectativa que nós temos”, afirmou Jorge Rita, “é que agora se irá fazer um trabalho mais acentuado em São Miguel para que se atinja os 100% no aproveitamento desta medida como aconteceu na Graciosa e na Terceira”.
“A expectativa legítima que temos”, reforçou, “é trabalhar neste sentido para que também se continue a olhar para a nossa ilha e se continue a haver animais, continua a haver produtores porque a agricultura não pára. E esta Região sem agricultura não será a mesma Região que todos nós conhecemos”.
Ao longo da conversa com o jornalista do ‘Correio dos Açores’, Jorge Rita quis salvaguardar um princípio. Disse que não é favorável à medida de redução da produção do leite e que ela só resulta por imposição das indústrias que, para além de baixarem o preço do leite, aplicam multas aos produtores que produzam leite a mais.
Diz compreender que os produtores de leite de São Miguel, mesmo passando por extremas dificuldades, sejam lentos a transferir a sua actividade do leite para a carne. “São modos de trabalho diferentes mas eu tenho a certeza absoluta que muitos produtores que, neste momento, terminaram a sua produção de leite em Dezembro, aderindo à reconversão, vão trabalhar menos e poderão ganhar mais do que ganha neste momento. E terá uma vida mais equilibrada em todos os sentidos”.
“A pouca adesão de São Miguel tem a ver com o facto de não termos e na ilha uma grande tradição de os produtores terem vacas aleitantes. O número de vacas aleitantes existente nem São Miguel é residual. Em contrapartida, nas outras ilhas, as vacas aleitantes têm uma grande aceitação. Por isso é que São Miguel tem grande dificuldade em dar o salto. Por isso estou convencido que, com o lançamento de um novo aviso, esta situação em São Miguel poderá ir até mais de 20 milhões de litros”, disse.
“É bom que se reforce que esta não é a vontade dos produtores mas, essencialmente, por imposição das nossas indústrias. Vamos fazer-lhes a vontade, retirar algum leite que possa ter menos qualidade”, referiu.
“É bom que se acentue que estamos a falar aqui numa redução que é imposta pela indústria. Não podem pensar que criamos todo um mecanismo que foi ao encontro de um aumento gradual da produção de leite nos Açores e que, agora, de um momento para o outro, queremos inverter a produção. Não, esta redução resulta de mecanismos que as indústrias têm anunciado de penalizar os produtores”.
“Impuseram-nos a redução e nós temos é de criar mecanismos que nos podem defender desta situação. E quais são estes mecanismos? Um deles é retirando produtores de leite e passando-os para a produção de carne. Outra forma era o abate de animais que tínhamos sugerido. Era uma forma consolidada que teria tido um impacto muito positivo. Existe uma outra forma que é a redução até 20%, de forma voluntária, no número de vacas de leite, salvaguardando todos os apoios. Esta é também uma boa medida para alguns que tiveram necessidade de reduzir a sua produção”, afirmou.
“O leite é de uma exigência tremenda. Todos nós conhecemos qual o comportamento das indústrias. Há sempre o discurso de que existem excedentes no mercado. Não só nos penalizam pelo excedente como nos penalizam pelo preço e, obviamente, que temos também de ter as nossas defesas. Sabendo que os critérios da reconversão, o primeiro de todos é o da qualidade do leite. Há produtores que têm mais dificuldade em atingir a pontuação máxima na qualidade do leite. Depois, são os produtores pequenos até 200 mil litros de leite e há um terceiro critério que tem a ver com todos que tem a ver com as idades. Isto não é uma forma de deixar de ser agricultor, é reduzir a produção de leite e transferir estes produtores para a produção da carne”, explicou.
 Os produtores que aderirem a transferir a sua actividade para a carne, têm de deixar de produzir leite a partir do dia 31 de Dezembro. “Podem até começar antes mas não têm a obrigação de ter os animais prontos em 2021. Só têm a obrigação de ter 70% dos animais no ano de 2022. Portanto, há uma margem de segurança e de confiança para irem fazendo, tranquilamente, a transição”, referiu Jorge Rita.
A medida da reconversão faz parte da reestruturação do sector agrícola, tal como aconteceu com os resgates leiteiros e se fez com as reformas antecipadas no passado. E, como anunciou Jorge Rita, vai-se retomar a reforma antecipada nos próximos dias. São todas medidas que têm vindo a ajudar a que o sector se venha a reestruturar. Por isso, salientou, “nós temos leite cada vez de melhor qualidade, temos excelentes produtores. O que é pena, e lamentamos profundamente, é que todo este trabalho não seja devidamente valorizado por aqueles que, depois, a jusante, não conseguem valorizar no mercado um produto de excelência que é o leite e os seus derivados.”
Jorge Rita deixou, a propósito, a expectativa de que o preço do leite á produção venha a subir com o chamado período de Inverno em que a produção diminui. Esta é uma “expectativa legítima”, disse, embora nenhuma indústria tenha ainda dado um sinal de aumento do preço do leite á produção.
  O presidente da Associação Agrícola de São Miguel considerou, por outro lado, uma boa medida a abertura de condições para que os filhos, jovens agricultores, possam ficar com as explorações do pai e darem continuidade à actividade que se mantém na família ao longo dos anos.

 

Print
Autor: João Paz

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima