CE- É um dos mais antigos profissionais do turismo a exercer funções nos Açores. Como caracteriza o atual momento do sector na Região?
LC- É o momento mais difícil e preocupante do turismo açoriano. Apesar de já começarmos a ter clientes, a incerteza em relação ao que aí vem, bem como a consciência de que, mesmo fazendo tudo o que nos parece possível e eficaz, não conseguimos obter resultados que nos devolvam à normalidade de antes da pandemia.
CE- Em Março, disse-nos que a grande preocupação era garantir o regresso de todos os seus clientes aos seus locais de origem. Foi um trabalho difícil. E desde então tem sido confrontado com o aumento do número de cancelamentos.
O trabalho das agências de viagens tem sido muito complicado?
LC- O trabalho de repatriar todos os clientes que estavam nos Açores foi muito exigente e por vezes desmotivante, especialmente com algumas companhias aéreas que queriam aplicar taxas por alteração da data de partida. Tem que se dizer em abono da verdade que a Sata/Azores Airlines foi muito cooperante desde o início. Algumas unidades hoteleiras também puseram inicialmente alguns problemas, mas depois foram sendo resolvidos. Se dúvidas houvesse, fiquei com a prova da qualidade e eficiência da nossa equipa que, em contra-relógio e não preocupadas com o horário, tudo fez para minimizar o desconforto e preocupação dos clientes.
CE- Na sua opinião quanto tempo vamos levar para recuperar os índices até 2019?
LC- Não acredito que haja alguém que possa, com segurança, responder a esta pergunta.
CE- Como analisa o comportamento do Governo dos Açores face ao cenário de crise que foi declarada?
LC- O Governo dos Açores teve uma postura correctíssima. O governo português, infelizmente, tomou uma atitude neocolonialista, com medo de que, se a TAP não continuasse a voar para cá, os Açores poderiam ficar independentes. A única coisa que há a apontar é em relação à informação dada por alguns funcionários da Secretaria da Saúde envolvidos no apoio aos clientes, nomeadamente em relação à resposta ao resultado do 2º teste. Essa informação não é sempre a mesma. Compreende-se que são muitos os casos e que as directrizes podem ser interpretadas de forma diferente, mas não podemos, depois de um óptimo trabalho global a lidar com uma situação como uma pandemia, dar uma má imagem dos Açores. Já demos notas destes casos a quem de direito e esperamos que situações deste tipo não se repitam, ou seja:
- Muito tempo de resposta do 1 teste; não há consenso se o resultado via telefone é válido ou não; e não há resposta por email.
Temos muitos clientes que regressam ao seu país de origem sem tem resposta do teste feito nos Açores.
CE- A vossa empresa aposta muito no mercado alemão, onde representa o maior operador para o mercado português, o operador Olimar. Que “feedback” tem tido junto deste seu interlocutor privilegiado?
LC- A Olimar teve, e continua a ter, um cuidado muito grande na informação que dá aos seus clientes, dos procedimentos nos vários destinos que programa. Temos tido, desde a primeira hora, um contacto estreito com a Administração da OLIMAR e com o staff que trata com os Açores.
CE- É uma pessoa muito experiente e conhecedora da realidade do sector do turismo em termos globais. O que resta para os Açores?
LC- Os Açores tiveram globalmente uma atitude exemplar em relação à pandemia. Mesmo o Reino Unido, ao colocar Portugal na lista negra, ressalvou os Açores e a Madeira como destinos seguros. Infelizmente, mesmo com essa ressalva, não autorizou viagens para as nossas ilhas. Resta-nos continuar a reagir com eficácia, como é o exemplo das atitudes tomadas pelo Governo dos Açores, em relação à descoberta de uma cadeia de transmissão em São Miguel, aplicando medidas restritivas. A motivação de viajar para os Açores não pode ser prejudicada por haver uma sensação de insegurança. A fidúcia é muito importante em todo este processo.
CE- Vamos assistir a uma mudança de paradigma nos hábitos dos turistas?
LC- A sensação generalizada é que nada será como dantes, pelo menos nos próximos tempos.
CE- Tem mais de 40 anos de ligação ao sector do turismo. Esta foi a maior das muitas crises estruturais porque passou?
LC- Indiscutivelmente a maior e com mais efeitos negativos na economia. As catástrofes são muito más para o turismo. Guerras, terramotos, quedas de aviões, etc. são extremamente prejudiciais para a nossa indústria.
Quando houve o sismo no Faial em Julho de 1998, o Reino Unido desaconselhou a vinda de turistas para os Açores o que provocou o cancelamento de grupos e de individuais. Curiosamente tinha agendado uma visita de inspecção de um operador turístico alemão e telefonei à pessoa pensando que ela quereria adiar a visita. A verdade é que, dois dias depois do sismo estávamos na Horta a visitar unidades hoteleiras, apesar da devastação que se via um pouco por todo o lado. Mas nada que se compare em termos de consequências negativas como esta pandemia, ou Peste Nova, como alguns lhe chamam.