15 de agosto de 2020

Chá da Cesta - 42

Chá em Portugal Continental: Experiências de Joaquim Manuel de Araújo Correia de Morais - III

A 4 de Setembro de 1871, uma terceira carta. Desta feita, era mais propriamente um rascunho de carta de Sebastião do Canto e Castro Mascarenhas, escrita em Lisboa, para Joaquim Morais, em Ponte de Lima. Joaquim Morais estava, pessoalmente, a tentar obter mais sementes e plantas de chá no Minho. Pelo menos, já em finais de Agosto, Morais andava pelo Minho: “(p. 56) Recebo a sua carta datada do dia 30 do mês passado [Agosto].” O Sub-Administrador Geral da Casa de Bragança, Augusto César Falcão da Fonseca (?-1877), iria ter ao Minho com Morais, mas só quando fechasse o Parlamento. Augusto Falcão fazia parte da equipa do chá. Transmontano de Chaves, entrou como amanuense da Casa de Bragança em 1855 e, por morte de Sebastião Mascarenhas (20 de Dezembro de 1875), ocupou o seu lugar. Depois de 1875, desapareceu da ribalta política, possivelmente, já afectado pela doença que o vitimaria a 24 de Março de 1877. Desde 1870, está ligado ao Partido Regenerador, tal como Sebastião Mascarenhas. Foi deputado a partir de 1865. Seguiram-se outras legislaturas: 1868, 1869, 1870, 1971 e 1874. Aí esteve intimamente ligado a questões agrícolas.1

Segundo Sebastião Mascarenhas, Morais, no Minho, 

“est(ava) animado das melhores esperanças.” E com muita energia e empenhamento: “(…) admiro é a sua muita força de vontade; pois que só com ela se poderiam alcançar os esclarecimentos, que a muitos parecia coisa quase impossível o poder realizar.”2 

Vinte e dois dias depois da última carta, a 26 de Setembro de 1871, estranhando o silêncio de Joaquim Morais, Sebastião Mascarenhas volta a escrever-lhe para Ponte de Lima. Dá-lhe uma boa nova: “(…) Vi hoje no meu quintal a planta do chá, que está lindíssima, e bem abotoada. As outras, pouco desenvolvimento têm tido.”3 Diz-lhe que partia “No dia 5 do mês que vem [Outubro] (…) com o Sr. Falcão para Vila Nova de Ourém, e dali para o Distrito do Porto. Aqui acabarei o meu serviço, lá para o dia 14, e depois deste dia ficará o Sr. Falcão desembaraçado para partir para essa terra [Minho].” Sebastião estava preocupado com o silêncio de Joaquim Morais: como estaria ele a desembaraçar-se da missão? Por isso, não podendo ir, mandou o seu segundo na hierarquia da administração da Casa de Bragança: Augusto César Falcão da Fonseca.
A carta seguinte conhecida é de 6 de Novembro daquele ano de 1871. É de Augusto Falcão da Fonseca, que entretanto, estava em Ponte de Lima, para Joaquim Manuel de Araújo Correia de Morais, que já se encontrava de volta a Almada. Que se passou? A última carta de que dispomos data de 26 de Setembro. Augusto Fonseca dirigira-se ao Norte do país, em princípio, como combinado, a 5 de Outubro. Por ela ficamos, talvez, a conhecer, uma das razões da morosidade da tarefa atribuída a Morais no Minho: “Saberá que Mr. Fiuza, e o Brasileiro assinaram a escritura de remissão, acabando as decrépitas e aguerridas questões.”4  Por ela, também ficamos a saber que Joaquim Morais, entre 26 de Setembro e 6 de Novembro, enviara plantas de chá do Minho. Augusto Fonseca di-lo assim: “(…) (p.58) Sei pelo nosso amigo o Sr. Canto [Sebastião do Canto e Castro Mascarenhas] que chegaram sem transtorno os 8 caixotes.” E querendo elogiar o serviço, acrescenta: “não admira, porque foram escorados debaixo das vistas de V. Ex.ª. (…).” Depois, aduz uma informação preciosa, a de que entre finais de Setembro e Novembro, talvez em Outubro, as plantas haviam sido plantadas do modo seguinte: “(…) no quintal do nosso amigo Sr. Canto. (…) Parece-me que o Sr. Canto vai mandá-las para algumas das nossas propriedades, e estou que em parte delas os nossos lindos arbustos hão-de (p.59) simpatizar com o terreno, e com o clima. Terra húmida e abrigo é do que elas mais precisam.” 5 Esteve o tempo no Minho adequado à recolha? E durante o transporte? Estaria o tempo propício à plantação? Seriam os terrenos escolhidos bons para o chá? Estariam os jardineiros à altura da tarefa? Vamos ver que algumas destas questões não poderão ser afirmativas. O mesmo já não se passava na Ilha de São Miguel. Pouco mais de dois anos após a carta de 6 de Novembro de 1871, em que ponto estaria o chá da Sereníssima Casa de Bragança? Durante este espaço de tempo, caso o chá tivesse medrado bem, as plantas transferidas do Minho (dependendo da idade e da qualidade) estariam prontas ou quase prontas para delas se poder tirar a folha. E as sementes? 
A carta de 4 de Janeiro, escrita por Sebastião de Mascarenhas, de Lisboa, a Joaquim Manuel Araújo Correia de Morais, talvez para Almada, viria a ser a última que este receberia ou conservaria. O assunto era bastante quente. Tivera-a como resposta ao relatório que Morais enviara a Mascarenhas, onde relatava por escrito: “(…) (p.23) com exactidão tudo o que se passara [falhanço das pretendidas plantações da Sereníssima Casa de Bragança], e o estado actual da cultura (p.24).” Enquanto redigia o relatório, Morais “(p.24) mandava preparar as amostras das folhas dos arbustos que trouxera do [seu]quintal.”6 E, na volta do correio, pelo portador do relatório, Sebastião Mascarenhas mandou-lhe a carta e um exemplar de jornal. Oiçamo-lo: “(…) (p.59) No Diário Ilustrado, n.º 500, de 7 do corrente [Lapso? A carta é de 4 e o jornal é de 7] - A Sociedade de Agricultura de Ponta Delgada [sic] vai mandar vir (p.60) um indivíduo chinês para ensinar a exercer a indústria da preparação  do chá na Ilha de São Miguel, onde a experiência tem mostrado que a cultura da planta do chá se dá perfeitamente.”7 Apanhados de surpresa, ao que parece (o desconhecimento parece ter sido mútuo. A Ilha não saberia nada dos esforços do Continente), a notícia caiu que nem uma bomba. Sem delongas, Sebastião desabafa a sua surpresa: “(…) (p.59) Quando li esta notícia, se por um lado me satisfaz a ideia de tornar em o nosso país uma realidade dos sonhos de Vossa Excelência de mais de 20 anos, pelo outro me contrista por ver frustrados todos os seus trabalhos pela iniciativa anunciada.”8 Era forçoso, por conseguinte, reconhecer o feito dos de São Miguel, nos Açores: “Em vista do anúncio parece que já ali deve haver plantação em grande escala, e que só falta o homem para ensinar como se fabrica.”9 
Não deixo de ver neste trecho a prova da desilusão de Sebastião Mascarenhas acerca das capacidades de Joaquim de Morais. Não querendo ofender Morais, não o diz abertamente, mas, ao ler nas entrelinhas da missiva, assim no-lo parece. Provavelmente, querendo resguardar-se de quaisquer polémicas, Sebastião tenta manipular Morais. Sebastião já padeceria da doença que o havia de vitimar, além do mais, era uma figura pública conhecida, pertencia ao grupo político de alguns influentes da Ilha de São Miguel, ainda assim, tudo somado, não poderia esquivar-se em demonstrar, em privado, a sua solidariedade para com Morais. Encorajava sibilinamente Morais a fazê-lo publicamente, com tacto mas firmeza: 

“Julgo que tudo se poderá conciliar escrevendo Vossa Senhoria ao Presidente da Sociedade, oferecendo-se para lhe dar esclarecimentos, que eles vão pedir ao Celeste Império; e impondo-lhe as suas condições.”10 

Independentemente da resposta, que pudesse obter, antes de concluir a carta, sugeria-lhe uma atitude veemente: “Aceites ou não que elas sejam, pode Vossa Senhoria em artigo para um jornal mostrar quem tem direito à paternidade da ideia.” Por outro lado, contradizendose, instava, de modo possivelmente insincero, que “não dev(ia) perder tempo em escrever,” para não parecer estar a forçar, isto “se se resolver a aceitar o conselho de quem é de Vossa Senhoria Amigo e Obrigado. Sebastião do Canto e Castro Mascarenhas.”11 
Morais, naturalmente, sopesando os prós e os contras, vendo ao que se exporia, se seguisse as sugestões de Mascarenhas, ficou quieto. Morais, só onze anos depois, em 1881, exteriorizava a raiva que sentira em Janeiro 1874, ao ler o dito anúncio, classificando-o, então, de “(p.24) maquievélico anúncio do Diário Ilustrado (…).”12 Que explicações adianta? Primeiro, devia-se, em parte, aos “(…) (p.27) seus crónicos padecimentos.” Daí se infere que, a súbita notícia contribuiu para lhe agravar antigos e crónicos males de saúde. Decidiu “(p.27) que não se devia queixar.” Tivera outra ocasião para se queixar, mas, de novo, não reagira publicamente: “(…) (p.27) não quis romper o silêncio (p.28) quando os jornais anunciaram a vinda de pessoa da Ilha para ensinar a fazer chá [Seria Rafael de Almeida, que acabaria por ficar por Lisboa? Não será improvável. A ser assim, só teria sido depois de 1879 e antes de concluir o ano de 1881].” Surgiria uma outra ocasião, mais tarde, à qual reagiu de forma idêntica: “(…) (p.28) (…) quando foi anunciado o leilão de doze milhões de arbustos que os cultivadores de chá da Ilha de São Miguel pretendiam vender da sua imponente cultura (…).” 

Mário Moura, Universidade dos Açores
Lugar Areias, Rabo de Peixe, 7 de Julho de 2020


1 Moreira, Fernando, Entrada: Augusto César Falcão da Fonseca, in Dicionário Biográfico Parlamentar, 1834-1910, vol. II (D-M), Coordenação Maria Filomena Mónica, p.187-189.
2  Morais, Joaquim Manuel Araújo Correia de, Ob. Cit., 1881, Rascunho de Carta de Sebastião do Canto e Castro Mascarenhas, Administrador geral da Sereníssima Casa de Bragança, Lisboa, a Joaquim Morais, Ponte de Lima, 4 de Setembro de 1871.
3  Idem, Rascunho de Carta de Sebastião do Canto e Castro Mascarenhas, Administrador geral da Sereníssima Casa de Bragança, Lisboa, a Joaquim Morais, Ponte de Lima, 26 de Setembro de 1871, p.55.
4  Idem, Carta de Augusto Falcão da Fonseca, Ponte de Lima, a Joaquim Manuel de Araújo Correia de Morais, Correio de Lisboa, Almada, 6 de Novembro de 1871, pp. 57-59.
5  Idem, Carta de Augusto Falcão da Fonseca, Ponte de Lima, a Joaquim Manuel de Araújo Correia de Morais, Correio de Lisboa, Almada, 6 de Novembro de 1871, pp. 57-59.
6  Idem, Carta de Augusto Falcão da Fonseca, Ponte de Lima, a Joaquim Manuel de Araújo Correia de Morais, Correio de Lisboa, Almada, 6 de Novembro de 1871, pp. 23-24.
7  Idem, Carta de Sebastião do Canto e Castro Mascarenhas, Administrador geral da Sereníssima Casa de Bragança, Lisboa, a Joaquim Morais, ?, 4 de Janeiro de 1874, p.59. Cf. Diário Ilustrado, Lisboa, N.º500, 7 de Janeiro de 1974, p.2. http://purl.pt/14328
8  Idem.
9  Idem.
10  Idem.
11  Idem.
12  Idem, Carta de Augusto Falcão da Fonseca, Ponte de Lima, a Joaquim Manuel de Araújo Correia de Morais, Correio de Lisboa, Almada, 6 de Novembro de 1871, pp. 24-25.

 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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