15 de agosto de 2020

A finta curta

Gosto muito do Severiano, que para os mais novos que não o saibam, foi um excelente guarda-redes e um exímio lançador de peso, enfim um desportista nato. A expressão do título deste artigo é da sua autoria e ela foi a chave que abriu a memória de outros tempos, porque ao contrário do que vulgarmente se diz, o passado não está atrás de nós, está sempre à nossa frente.
O grande Ted Smith foi meu treinador no Santa Clara e tinha sido treinador do Benfica, tendo ganho o primeiro troféu internacional do clube (hoje Liga dos Campeões), numa épica final contra o Bordéus de França.
Quando eu me preparava, com os meus formosos vinte anos para ir para Coimbra estudar Direito, ele disse-me quando nos encontramos por acaso no restaurante Nacional, em Ponta Delgada, “doctor you can be great in world soccer, let de law out”.
Fui para Coimbra e levado para os juniores da Academica então treinada por Crispim, que tinha sido um extemo-direito de eleição na história da Academica.
Lá, em Coimbra, senti na pele o que na gíria futebolista se chama “queimar” um jogador,
Eu , no primeiro treino contra a primeira categoria durante cerca de vinte minutos mal toquei na bola e o Serrano, vendo que os meus colegas me queriam queimar e não me passavam a bola de propósito para eu não poder mostrar nada, disse-me que não me ia apertar e que eu quando  apanhasse a bola  fizesse a mesma coisa , não lhes passasse a bola, fizesse de brinca na areia, como dizem os brasileiros.
E foi aí que a tal finta curta do meu amigo Severiano me salvou; peguei na bola a meio-campo, e desato numa correria louca com ela sempre controlada nos dois pés, fazendo varios tuneis e cabritos aos defesas. No final do treino o treinador Crispim veio dar-me os parabéns e disse-me “nunca na Académica, com excepção do Antonio Bentes, apareceu um jogador com esse tipo de finta.
Fiquei de peito inchado, até porque aqui, no Santa Clara, onde me iniciei como jogador, o treinador de saudosa memória Henrique Ben-David, me censurava por ter essa maneira de jogar, embora, honra seja feita à sua memória, foi ele que me lançou no futebol. Mas eu fazia aquilo tudo por instinto, fintava curto por instinto, não aprendi com ninguém.
Hoje, racionalizando a questão, vejo a coisa do seguinte modo:
No futebol atual e mesmo no mais antigo os jogadores de finta curta  continuam a ser excepções; o extremo mal sente a pressão do defesa contrário ou atrasa a bola ou lateraliza; não vai como devia ir para cima do marcador direto.
E porquê? Porque tem a finta larga.
Pode fazer o primeiro drible, mas como é finta larga, passa o primeiro defesa mas não passa o segundo, que vem na dobra, como lhe compete.
Mas se tivesse finta curta saia do primeiro drible com a bola colada ao pé e deste modo o defesa que viesse dobrar o colega era “comido” com outra finta curta.
Ora, pelo que me disseram, o Antonio Bentes, extremo-esquerdo da Académica há 75 anos era assim como eu, como me disse o Crispim.
E quando um jogador é assim leva patadas de ferir lume dos adversários: os adversários fazem obstrução, empurram-no, rasteiram-no, dão-lhe cotoveladas pontapés, tudo por causa da finta curta.
Eu para o futebol fiquei com a alcunha de Melão, ele, o Antonio Bentes, de Rato Atómico.
Outra coisa que o Bentes tinha em comum comigo era o portentoso remate com o pé esquerdo.
O extremo, apesar de jogar junto à linha lateral, não deve ir sempre ganhar a linha para cruzar; deve, muitas vezes, fletir para dentro do terreno e se tem poder de remate, alvejar a baliza contraria.
Eu tinha um pontapé fulminante com os dois pés, pelo que me contam ,  Bentes tinha apenas com o pé esquerdo esse poder; isto não quer dizer que eu fosse melhor do que ele foi; acho que ele tinha mais velocidade  o que eu, não sei.
Agora, ele começou mais cedo num futebol mais evoluído do que aquele que se jogava nos Açores no meu tempo; era pequenino também como eu, depois ele foi professor primário, teve imensas propostas para sair da Académica mas nunca saiu, jurou sempre amor eterno a Coimbra e à Académica, tal como eu que, salvo o período curto nos juniores da Académica, optei sempre pelo Santa Clara.
O Bentes chegou à selção nacional, eu não mas, vergonha das vergonhas, quando entrou a substituir Rogerio Pippi do Benfica, foi assobiado.
Porquê? Porque Lisboa era o centro de tudo no tempo dele, e os jogadores dos grandes da capital eram Benfica, Sporting, que tinham lugar cativo na seleção nacional; até o Porto na altura era considerado um clube de província.
Portanto, a oportunidade era curta, como curta era a finta do Bentes e a minha. Então aqui nos Açores era tudo muito curto e reparem que, mesmo com a autonomia política, muitas coisas continuam curtas, imaginem há cinquenta anos atrás.
O futebol actual está a ficar chato; até dá para bater uma boa soneca durante os jogos.
Isto acontece porque a táctica está a sobrepor-se à criatividade, a finta longa está a vingar sobre a finta curta e com isso o espectáculo perde magia, encanto e grande parte do seu interesse.
Por isso é que o Jorge Jesus é neste momento o melhor treinador do mundo.
Joga para a frente, com vontade de ganhar e sem medo de perder, e tem a tal nota artistica.
O futebol arte por oposição ao futebol científico; o artista é o mago da bola, é para o ver que as pessoas pagam bilhete, a paixão nasce da finta curta do toque de calcanhar do remate acrobático que, ao fim ao cabo, nasce da arte de jogar livremente.
Nenhum treinador, e tive muitos e bons, me ensinou a fintar; aliás, como disse atrás, até alguns não queriam que eu fintasse; porque a finta  é um dom, uma dádiva dos deuses da bola.
E é um estimulo para quem a faz e para quem a vê porque no fundo é ela que nos dá o sonho ou a ilusão de que podemos fintar a vida, ou melhor, o destino.

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Categorias: Opinião

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