15 de agosto de 2020

Cesto da Gávea

Perde-ganha pandémico

O antigo deputado regional social-democrata açoriano Cláudio Lopes, publicou em 2015 um texto em que recordava os tempos de adolescência, quando aprendeu a jogar às damas. Escreveu na altura que, além do jogo normal, em que o vencedor ganhava (ganha-ganha) existe a versão contrária, o ganha-perde, em que vencia quem fizesse tudo para perder. Talvez por isso goste mais de jogar xadrez, um jogo igualmente de tabuleiro onde o xeque-mate é o objetivo, nunca tendo jogado às damas no modo perde-ganha. Cláudio Lopes terá razão no campo político, pois parece que agora é moda ganhar o poder, mesmo perdendo eleições, através de arranjos tipo “geringonça”. Que, diga-se em abono da verdade, só revelam inteligência de quem os faz. 
Esta inteligência, quando aliada a um sentido apurado para o negócio, revela-se no seu esplendor máximo em épocas de crise como a pandemia que nos inferniza a vida. Aproveitando a atenção dos políticos mundiais para com os tremendos problemas sociais (perdas de horas/trabalho equivalentes a 400 milhões de empregos full-time) e económicos (quebra de 8% do PIB global) causados pela pandemia, obrigando a injeções nunca vistas de dinheiros públicos pelos governos e instituições internacionais, há quem esteja a ganhar como nunca. A pandemia exige gigantescos investimentos na área da saúde, começando pela indústria biotecnológico-farmacêutica, onde existem mais de 150 empresas na corrida às vacinas. A competição é feroz, numa luta onde vale tudo, bem à medida dos chorudos lucros para os primeiros a cortar a meta. Atentos, os fundos de investimento apostam nas ações em bolsa de possíveis vencedores: a Moderna Therapeutics americana viu os seus stocks acionistas valorizar 325% nos últimos 6 meses, especialmente após Stéphane Bancel, o seu CEO francês, ter convencido o Presidente Trump em Março passado que teriam uma vacina disponível “dentro de poucos meses”. O resultado foram mais 500 milhões de dólares em fundos federais para os ensaios pré-clínicos e a subida das ações cotadas na NYSE, a bolsa de New York. Ou seja, quanto mais os EUA perdem vidas e economia devido à pandemia, mais esta e outras companhias de ponta ganham valor.
Este perde-ganha não é único dos Estados Unidos, nem das suas empresas tecnológicas de ponta, embora se torne mais visível dada a liderança mundial das grandes corporações americanas, a exemplo das GAFA-Google, Amazon, Facebook, Apple, para quem o aumento da atividade digital num mundo confinado abriu cofres inesperados. Daí que não surpreenda a notícia da agência Bloomberg, anunciando que a fortuna pessoal de Jeff Bezos, patrão da Amazon, tenha somado mais quase 70.000 milhões de dólares. Entretanto, mais 100 milhões de pessoas se juntaram aos 736 milhões que viviam no planeta com menos de 1,9 USD/dia, prometendo a conta dos Bezos deste mundo continuar a engordar ao ritmo da subida da pobreza e da desigualdade globais. Veremos o que acontecerá quando existirem vacinas e antivirais eficazes, depois de acalmarem os ventos e clamores causados pelos anúncios bombásticos de novas vacinas. Vladimir Putin sabe como ser oportuno, mas se o que diz sobre a vacina russa é verdade, vai causar danos estrondosos no perde-ganha ocidental. E a OMS e seus porta-vozes que se cuidem no que afirmam, não vá o tiro sair-lhes pela culatra. Quem não arrisca neste negócio de titãs são as 7 principais empresas mundiais dedicadas à investigação, desenvolvimento e fabrico de vacinas anti-covidianas, cujo investimento somado já ultrapassou os 2.500 milhões de dólares, estando a preparar aproximadamente 2.200 milhões de doses, praticamente todas sob encomenda. Para além destas 7 empresas, outro tanto se estima terem as compras dos governos na mira, envolvendo um “bolo” de 10.000 milhões USD e 4.000 milhões de doses. Simultaneamente, desde que a chuva aparentemente ilimitada de dinheiros estatais teve início, num compreensível esforço para aguentar as economias, verificou-se que boa parte do dinheiro vai para os lucrativos investimentos em ações farmacêuticas, empresas biotecnológicas, fabricantes de material de proteção individual (máscaras, luvas, desinfetantes e equipamentos médicos) deixando definhar a “outra” economia. Um fabricante tailandês de luvas latex viu multiplicar por 4 o valor bolsita das ações e o índex acionista S&P 500 subiu desde janeiro, quando toda ou quase toda a economia desvalorizou a pique. A resposta está no índex NASDAQ das tecnológicas, que ganhou mais de 50% desde Março, quando tudo parecia ir desabar. 
Aqui chegados, será altura de preparar nos Açores a economia, a administração pública, as estruturas sociais, governamentais e empresariais, para as profundas alterações que o porvir dá mostras de exigir. Tudo deve começar pela Educação, manifestamente impreparada para o desafio, apesar de há muito se saber pelos indicadores que era urgente mudar de estratégia, se é que houve alguma. O ganha-perde pandémico indica-nos o caminho. 
 

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Categorias: Opinião

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