À conversa com o padre João Luciano

“Ser padre é abraçar e viver integralmente uma missão por vocação e convicção”

Fale-me um pouco de si, também da sua ordenação e o seu percurso como pároco.
Falar de mim não me é fácil. Por duas razões, porque com a intenção de não fugir à verdade, poderei exagerar nas referências que possa fazer pelo que prefiro deixar às pessoas que me conhecem que se encarreguem de o fazer, sem ter quaisquer receios das suas críticas, pois serão certamente mais justas nas suas análises.
Como já o referi em outra entrevista para o Correio dos Açores, sou natural de Ponta Garça, freguesia rural, onde nasci em 28 de Novembro de 1941, numa família católica, sou o terceiro de sete irmãos, 4 raparigas e 3 rapazes. Foi lá que vivi e fui criado, onde fiz a instrução primária. Como uma criança normal inserida numa família católica, recebi de meus pais uma educação alicerçada em valores morais e cívicos que privilegiavam a honradez, a amizade, a fraternidade, a verdade e o respeito pelos mais velhos, princípios, esses que sempre nortearam toda a minha vida e que me ajudaram a granjear amizades que ainda perduram. Aos 11 anos fiz exame de admissão ao Liceu e frequentei o Externato de Vila Franca do Campo até ao quarto ano, tendo ficado a residir durante o ano escolar na Vila, vindo a casa só nas férias e dias festivos.
Em 21 de Setembro de 1958 fui para o Seminário já com 16 anos para uma turma de 26 rapazes dos quais, era o mais velho, tendo sido inicialmente muito difícil aceitar o ambiente fechado e de extrema disciplina imposta no Seminário que chocava com meu espírito jovem e liberal, habituado que estava a uma vida liceal mais livre, que nos primeiros tempos, despertou em mim um espírito de desobediência não tolerada e punida que, por exemplo, me levavam a que nos passeios não usasse o chapéu, o que era obrigatório. 
Foi no Seminário que criei laços de amizade e companheirismo que ao longo destes anos tenho compartilhado com os meus colegas de então. 
Foi na Sé de Angra que ocorreu a minha ordenação sacerdotal, em 2 de Junho de1968. Depois, fui convidado pelo senhor padre José Garcia para estagiar no post seminário na Igreja da Sé de Angra e um ano mais tarde, em 23 de Maio de 1969 fui nomeado Vigário Cooperador da Sé Catedral de Angra.
Fui seguidamente; Vigário Cooperador de São José, em Ponta Delgada, Pároco da Lomba da Fazenda no Nordeste, Pároco da Relva, Pároco da Covoada, Pároco da Saúde nos Arrifes. Administrador das Sete Cidades, Vigário Paroquial de São José, Vigário Paroquial do Curato de Lajedo na, Igreja N. S. de Fátima e finalmente, em 12 de Maio de 2013, fui nomeado primeiro pároco da nova Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, no Lagedo, na cidade de Ponta Delgada.
Devo referir, que ao longo da minha vida sacerdotal, por respeito e obediência filial, nunca solicitei, assim como nunca recusei, junto dos diversos Bispos que estiveram à frente da nossa Diocese, qualquer nomeação ou serviço para a qual tivesse sido incumbido.

Não tendo paróquia está no entanto em todas, porque a sua missão não termina e é contínua. Quer comentar?
Sim, é como diz. Procurei também, sempre em colaboração com as comunidades onde fui colocado, estar atento e dar resposta às suas necessidades espirituais e, por isso, privilegiei também, estar sempre disponível no atendimento e na escuta das pessoas que me procuraram como daquelas a quem fui ao encontro.
Somos padres para sempre, e em todos os lugares. Ser padre é ser-se sempre enviado de Cristo. Não se muda de estatuto de uma hora para a outra como quem muda de uniforme. Ser padre é abraçar e viver integralmente uma missão por vocação e convicção. Procuro manter-me fiel ao meu compromisso, à minha fé e vocação e por isso dou graças a Deus. Agradeço também aos meus colegas sacerdotes, que me têm convidado a colaborar nas sua paróquias permitindo assim que continue sentir-me útil e valorizado ao serviço do Povo de Deus obrigando-me a continuar a estudar e a preparar as minhas homilias.
A vida de padre nunca foi fácil e muito menos nos nossos dias. Há muitos momentos de frustração, de alegria, e lágrimas e solidão. Muitas vezes apenas Deus é o nosso confidente. Não é fácil. E, por essa razão que muitos não conseguem ser fiéis ao seu compromisso vocacional se alguns o tiveram…
Para além dos seus problemas, o padre tem de saber escutar e ouvir, ponderar e aconselhar e orientar aqueles que o procuram. São tragédias muitas vezes que nos são colocadas e que, apenas à luz da fé podem, ser entendidas e minimizadas quando o são possíveis”.

Foi o primeiro pároco da Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Que significado tem essa paróquia para si?
Como já referi em outras ocasiões, a minha vocação religiosa despertou em 12 de Maio ao assistir na minha infância a uma procissão de velas na minha Igreja de Ponta Garça e, em muitas o ocasiões da minha vida sacerdotal, certamente por mera coincidência, datas relativas a comemorações marianas fazem parte da minha vida sacerdotal.
Dar início à vida de uma nova paróquia, não é certamente o mesmo que ser colocado numa paróquia já com um percurso e uma história de comunidade católica.
Foi necessário bater à porta de muita gente, conhecer a realidade social, familiar e religiosa da nova comunidade. Ouvir, escutar e dialogar com as pessoas. Criar empatias, ir ao encontro das necessidades religiosas das mesmas. Dar corpo e sentido ao viver em comunidade, no meio de uma realidade complexa com muitas opções crenças e vivências religiosas. Certamente que não é fácil.
Não posso também deixar de referir e agradecer a colaboração, o empenho e a amizade dos párocos Fernando Teixeira meu primeiro colaborador, Norberto Brum e Francisco de Melo que constituíram a Equipa in Solidum que nos últimos quatro anos esteve ao serviço das comunidades de Nossa Senhora de Fátima e Santa Clara.
Nesta Paróquia de Nossa Senhora de Fátima o que foi bem feito foi-o por mérito das pessoas que ao longo deste tempo comigo colaboraram no serviço à comunidade e à Igreja. 
Houve coisas que correram menos bem? Certamente que sim. Cometeram-se erros? De certeza… 
Poder-se-ia ter feito mais? Sem dúvida, se tivéssemos tido engenho e arte para tal. 
Fez-se o possível, pois o impossível só a Deus é permitido. 
Ter-se-ia feito menos? Com certeza, se tivesse decidido e procurado fazer as coisas sozinho, pensando que só ao pastor é dado a responsabilidade do seu rebanho. Não foi porém esta a minha opção nem a minha forma de trabalhar, pois é, na complementaridade, no apoio e na reflexão em grupo que nos enriquecemos, decidimos e realizamos a nossa missão com menos hipóteses de erro.
Levo no meu coração o sentimento de gratidão que para sempre recordarei, do empenho, da disponibilidade e da verticalidade daqueles que comigo, se preocuparam, refletiram, criticaram e apoiaram, na procura de soluções e respostas aos problemas e desafios e, foram muitos, que foram surgindo ao longo do tempo. 
Contribuímos todos e, fizemos a história desta comunidade que de lugar passou em 2010 a Curato e vencendo dificuldades e desafios, foi ereto em 2014 a paróquia. Lutamos todos para que o sonho se tivesse tornando realidade, por isso, estamos também de parabéns esperando confiadamente no empenho e testemunho e religiosidade deste povo que contribuirá futuramente para que esta Igreja venha a ser reconhecida como Santuário Mariano e lugar de encontro reflexão e oração ao nosso Deus e a sua Mãe Santíssima, a Senhora de Fátima que nos congrega, protege e encaminha para o Pai.

Não foi há muito tempo que celebrou as bodas de ouro sacerdotais. Aliás, também foi distinguido na toponímia da cidade de Ponta Delgada, com a atribuição do seu nome a uma rua no Lagedo, próximo da Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Que lhe apraz dizer acerca desta distinção que visa perpetuar quem tanto tem feito com as suas atitudes solidárias?
Faltaria à verdade se não dissesse que a comemoração dos 50 anos da minha ordenação, não fosse o resultado de uma caminhada de entrega ao sacerdócio que se iniciou aquando da minha ordenação. Vividas no entanto com outro discernimento em função das idades que tinha nas duas ocasiões porém com o mesmo empenhamento e responsabilidade. Celebrei-as na minha igreja natal uma vez que já não tinha paróquia e em preito de homenagem aos meus conterrâneos e aos emigrantes que nunca se esqueceram deste padre, tendo-me deslocado por dezenas de vezes ao Canada e Estados Unidos da América para presidir e pregar nas festas das suas Paróquias.
Nas nossas vidas duas vezes somos crianças, na Primavera inicial da mesma e no Outono que nos leva à reflexão contemplativa. Em ambas as circunstâncias gostamos de ser mimados, outrora com guloseimas e prendas e agora com o reconhecimento e a amizade que a idade nos confere. Quiseram que eu merecesse a distinção de ter uma rua com o meu nome. Fiquei e fico agradecido porque tal distinção toponímica ficará a marcar um acontecimento - o ter sido o primeiro pároco da Igreja de Nossa Senhora de Fátima – independentemente do meu mérito se alguma vez o tive ou tenho. Fico agradecido pela distinção.

Ao que sabemos, um dos seus sonhos era paroquiar em Ponta Garça, sua terra natal. Não aconteceu. Ficou-lhe alguma mágoa?
Há um ditado que diz que “ninguém é profeta na sua terra”. E como já referi, nunca pedi para ser colocado em qualquer igreja, razão pela qual se calhar, nunca lá fui colocado. Convém aproveitar a oportunidade da sua pergunta para esclarecer que de há muitos anos que venho prestando colaboração na Paróquia de Ponta Garça, onde sempre fui bem recebido e acolhido pela população e pelos diversos párocos.
 
De todas as paróquias que conhece, identifica-se mais com alguma delas, ou todas são diferentes e iguais?
Estive em paróquias rurais e citadinas com, vivências, formações e características sociais, culturais e católicas totalmente diferentes, onde sempre encontrei bons colaboradores que me ajudaram na minha missão de sacerdote. A eles devo todo o resultado da acção, por isso também o meu agradecimento.
Em todas as paróquias houve o objectivo prioritário – transmitir com verdade a mensagem que Jesus Cristo veio anunciar à humanidade.
 
Que mensagem gostaria de transmitir aos nossos leitores, nestes tempos que já conheceram melhores dias? 
No decorrer da vida os homens com mais ou menos dificuldade ultrapassaram pandemias, guerras e as mais variadas crises, porque é que não venceremos esta pandemia?
Vamos crer na ajuda divina e que os homens com os seus comportamentos sociais contribuam para tal.
 
Passagem da Bíblia que mais gosta?
Eu sou o Bom Pastor, nada me faltará. Salmo 23.

 

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