Empresários desistem de projecto para novo restaurante devido à pandemia

 “Uma pequena notícia que colocou o mundo inteiro de joelhos”, é assim que Daniel Viana de Albuquerque define a pandemia que obrigaria a restauração e o comércio de uma forma geral a fechar as portas durante quase três meses, obrigando-o também a desistir – embora temporariamente – de um dos seus maiores objectivos: abrir um novo restaurante.
Com o nome já escolhido, o chef Viana, como é conhecido, e a esposa – sua sócia – preparavam-se para ainda este ano abrir as portas do Alma Latina, um restaurante com capacidade para mais de 200 pessoas, contrastando com o pequeno Entre Nós, que conta actualmente com lugar para 42 pessoas.
O investimento em causa, apoiado por fundos comunitários, surgia de acordo com as previsões que existiam para o ano de 2020, que se fazia adivinhar como o melhor ano de todos para os empresários da baixa de Ponta Delgada, porém, na realidade o cenário seria exactamente o oposto, levando assim a que este casal tivesse que abdicar do imóvel e do projecto.
“O Alma Latina era um projecto que estava bem alavancado e para dar seguimento, mas no qual tivemos que dar uma pausa, reflectir e repensar mais na ponta da caneta e ver que os números realmente não iriam bater certo, então optámos por entregar o imóvel. Estamos a falar de um lugar que é cinco vezes maior que o pequeno Entre Nós, um espaço que teria 230 lugares”, diz ao nosso jornal.
Tendo isto em conta, Daniel Viana de Albuquerque acredita que a crise que hoje se vive quer na restauração quer de uma forma geral seja “apenas a ponta do icebergue”, motivo este que também impulsionou o casal a “reescrever a nossa história, criar novas metas e novos objectivos não tão ousados como o Alma Latina”.
Porém, a favor dos empresários estiveram “os atrasos, os imprevistos e as burocracias” que contribuíram para a solidificação do Entre Nós e para que o prejuízo do casal não fosse tão grande como poderia vir a ser se este projecto fosse continuado.
“Tínhamos iniciado o projecto Alma Latina do bruto, tínhamos já os esgotos feitos mas estava tudo numa fase ainda muito inicial, portanto o prejuízo não foi tão grande quanto poderia vir a ser se nós tivéssemos dado continuidade ao projecto e tivéssemos o Entre Nós fechado”, explica.
Quando fala em ponta do icebergue, refere-se “a algo de muito grave que há ainda para acontecer”, suspeitando que esta crise não esteja ainda “totalmente exposta”, uma vez que “quanto mais este declínio no consumo se mantiver, mais despedimentos haverá e mais se diminuirá o consumo”, um ciclo perigoso e com muitas incertezas.
No que diz respeito à recuperação económica, este chef não acredita que esta possa acontecer em pleno até aos próximos dois anos, havendo uma margem para crescimento no futuro mas muito limitada, ou seja, “a contar as moedas como se está a fazer hoje”, diz.
Até lá, tal como a grande parte dos empresários, acredita que muitos restaurantes irão acabar por fechar e acredita também que esta será uma realidade que já começa a afectar vários sítios da ilha, mesmo aqueles que são mais visitados pelos turistas, como Furnas, Vila Franca do Campo ou Ribeira Grande, onde há já espaços que interromperam o seu funcionamento.
“Para a maioria dos empresários que se têm aguentado graças ao Governo Regional e da República os apoios vão acabar em Dezembro. Ou seja, o encargo vai vir com uma força tremenda, e lembro que a nossa facturação ainda não é aquilo que era. Está longe de ter a repercussão que tinha e a facturação que tínhamos antes da pandemia”, explica.
Em acréscimo, o mês de Agosto entra hoje na sua segunda metade, o que significa que a época baixa e o Inverno estão cada vez mais próximos. O que coloca “duas pedras no mesmo sapato” devido à redução que irá existir no turismo e na facturação das empresas e do comércio local.
Tendo em conta o tempo que a restauração foi obrigada a permanecer encerrada, o que foi “tomando proporções assustadoras”, diz o chef, os empresário ponderaram aderir aos apoios concedidos pelo Governo Regional, desistindo depois com a quantidade de burocracia exigida.
“Talvez os apoios sejam suficientes para fazer face à necessidade, mas a burocracia imposta em cada um deles tornou-os inacessíveis para a grande parte das pessoas que, como eu, não aderiram. A grande parte que não aderiu, não o fez porque não conseguiu atingir o patamar de exigências determinadas pelo Governo, pela Câmara do Comércio e por outras instituições de créditos e instituições bancárias”, diz ainda.
Actualmente, e à semelhança de muitos outros restaurantes, o estabelecimento pelo qual é responsável tem vindo a apresentar quebras de 80% da sua facturação, vindo a contar muito com a ajuda do cliente local, das outras ilhas dos Açores, da Madeira e de Portugal continental para recuperar algum do balanço.
Em relação ao medo que sente actualmente, Daniel Viana de Albuquerque refere que o maior de todos é o “ter que fechar novamente”, não acreditando no entanto que esta possa vir a ser uma realidade, uma vez que esta decisão não ajudaria os cofres do Estado “que têm sangrado para todos os lados”.
“Acredito que no futuro se faça algum tipo de reajuste, mas é difícil perceber se estamos todos preparados. De uma forma ou de outra teremos que enfrentar isto, temos que assumir a hipótese de que nós podemos fechar novamente”, embora acredite que haja medidas e equipamentos que permitem o funcionamento dos restaurantes durante uma pandemia.

Rafael Andrade temeu que os
 restaurantes permanecessem 
fechados até ao final do ano

Perto do Entre Nós situa-se o restaurante O Churrasco, gerido por Rafael Andrade. Este  adianta que apesar do susto com que recebeu a notícia de que a restauração iria encerrar por tempo indeterminado, esta foi “uma decisão que tinha que ser tomada” para proteger a saúde da população açoriana.
Contudo, o empresário pensou que iria ficar fechado por mais tempo, nomeadamente até ao próximo ano, por conta “das incertezas se haveria ou não uma segunda vaga”, referindo que a haver uma segunda vaga “não fazia sentido abrir os restaurantes”, mostrando-se por isso um pouco preocupado com o número de casos positivos activos registados à data de hoje.
“Não sei se (as medidas restritivas) irão chegar de novo aos restaurantes, mas se chegarem a gente fecha e pronto. O que menos queremos é uma pandemia aqui na ilha, sendo que, claro, isso irá afectar a economia, mas o mais importante é pensarmos que quanto mais rápido nos livrarmos do vírus mais rápido voltamos a trabalhar, mas não é bom fechar porque vai dar crise”, diz.
No seu entender, seria importante que fosse dada alguma opção aos empresários do ramo da restauração que não fechar as portas novamente, mas, “de momento não temos opção nenhuma”, reforça, aproveitando ainda para salientar que os restaurantes contam já com medidas eficientes para que se evite um segundo encerramento, nomeadamente através da desinfecção, do espaço entre mesas e da redução de lugares.
Na sua perspectiva, acredita que as pessoas têm ainda “bastante medo de ir comer a um restaurante”, o que se reflecte na margem de prejuízo que o empresário afirma ter: superior a 80%.
Apesar de contar essencialmente com a presença de clientes locais n’O Churrasco, Rafael Andrade adianta que em Agosto sente também “que há mais um apoio dos turistas, (…) a boa vontade deles está a ser uma maravilha, até porque sabendo de tudo o que tem vindo a acontecer já não chegam com tanta exigência”, compreendendo, por exemplo, que ao existirem menos funcionários no activo há também alterações na forma como o serviço decorre.
No seu caso, conta que opta ainda por manter alguns funcionários em lay off, e que as linhas de crédito não foram uma opção por conta dos tempos de incerteza que se vivem: “Preferimos aderir ao lay off por agora para vermos o que virá depois, porque todos os meses estão a actualizar as medidas e está tudo muito incerto… temos que esperar, não podemos tomar uma decisão para o ano todo se nem o próprio governo sabe o que está a acontecer”, salienta.
Quanto aos aglomerados de pessoas que por vezes de juntam nas redondezas, uma vez que há ali vários bares que são frequentados essencialmente pelos locais e de onde resultaram casos positivos activos, Rafael Andrade afirma que “são as pessoas que se têm que responsabilizar porque são as pessoas que lá estão sem máscara e que fazem os aglomerados”, referindo que os responsáveis pelos espaços – na sua opinião – pouco ou nada podem fazer para impedir as pessoas de fazerem aglomerados no exterior dos estabelecimentos.
 

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