Filarmónicas das Furnas e da Maia continuam sem ensaios e sem data prevista para a retoma da actividade

Como o prometido é devido, voltamos ao Concelho da Povoação para percebermos como está a filarmónica da Freguesia das Furnas, a Harmónica Furnense, a viver estes tempos atípicos em consequência da Pandemia de Covid-19. Convém ainda referir que contactamos a outra Banda do Concelho que tinha ‘escapado’ na nossa ida à Povoação, a Filarmónica de São Paulo, da Ribeira Quente, que se encontra desactivada desde o início deste ano.  

Sociedade Harmónica Furnense
Fundada em 1864 com o alto patrocínio do Marquês da Praia e Monforte, a Banda Filarmónica Sociedade Harmónica Furnense foi criada na sequência de um grupo de jovens que já se tinha organizado dois anos antes, em 1862, tal como nos contou o Presidente em funções, José Medeiros Santos.
Retomando a sua história, em 1914 foram organizados os primeiros institutos e em 1916, sob a regência de Francisco Lacerda, a Filarmónica venceu o seu primeiro prémio num festival de bandas que teve lugar em Ponta Delgada.
Nos anos 80, Benjamim Rodrigues, militar, passou pela Harmónica Furnense e compôs muitas obras, “desde marchas fúnebres a hinos que estão um pouco por todas as bandas da ilha”, destaca José Medeiros Santos. O filho, Vítor Rodrigues, foi o responsável pela gravação do primeiro CD da filarmónica. O Presidente da filarmónica das Furnas explica ainda que muita da história e dos documentos que contavam a vida da banda foram apreendidas no tempo da ditadura.
“Há partes da nossa história, na altura da ditadura, sobre a qual não sabemos muito porque despareceram muitos documentos. Isto passou-se no tempo do Senhor Benjamim Rodrigues. Ele era militar e contra o regime. Foram apreendidos documentos que faziam parte da vida dele e ficaram apenas as obras musicais”, conta. 
Depois de idas a outras ilhas dos Açores como Santa Maria e o Pico, a Banda teve a oportunidade de actuar nos Estados Unidos da América, mas já neste século a Filarmónica passou por um período de menor fulgor.
“Neste percurso de mais de 150 anos, há altos e baixos e épocas em que a Filarmónica está mais fraca ou melhor. Em 2004 ou 2005 aquilo ficou um bocadinho em baixo, com a banda quase sem actividades. Em 2010 formamos a escola de música outra vez e eu fui convidado” relembra José Medeiros Santos que recorda com alegria os primeiros tempos depois da reactivação da Banda.
“Sou Presidente desde 2010 e quando reabrimos a escola de música fiquei surpreendido porque entraram quase 40 elementos “, afirma.
Virando a conversa para os nossos dias, é obrigatório falar sobre a Pandemia de Covid-19 e sobre as consequências que esta trouxe ao normal funcionamento destas instituições, nomeadamente com o cancelamento de alguns dos projectos que a Harmónica Furnense tinha previsto para este ano.
“Se não fosse agora esta pandemia, íamos este ano a França. Íamos conseguindo fazer essas actividades todas com os nossos jovens, mas agora ficamos sem nada”, lamenta José Medeiros Santos.
Com uma média de 30 elementos e 3 ou 4 alunos na Escola de Música, o Presidente da Filarmónica Harmónica Furnense confirma que a Banda não retomou ainda a sua actividade normal, nomeadamente a realização de ensaios.
“Estivemos e estamos fechados. Fizemos alguns ensaios por grupos, mas muito poucos e estamos parados. Não há actividades, procissões, concertos, não há nada. Para quê fazer ensaios e estar a mobilizar essa gente toda? Há gastos associados e para colmatar isso não é fácil”, realça.  
José Medeiros Santos mostra-se desanimado perante o cenário actual e pede às autoridades que pensem um pouco mais nas bandas filarmónicas e na possibilidade destas poderem realizar algumas das suas actividades.
“Ficamos tristes porque gostávamos de ter uma actividade e nem digo como tínhamos antes, mas vejo outros eventos que têm autorização e vamos ficando para trás. Já chegou até nós o plano de contingência mas penso que devíamos estar um pouco mais à vontade e se a Câmara quiser der autorização que dê autorização. Há para uns e não para outros. Não percebo”, lamenta.
José Medeiros Santos teme portanto que, se esta situação se arrastar por muito mais tempo, a banda possa vir a ter problemas no futuro.
“As crianças e os jovens que estão ligados as filarmónicas não têm uma continuação, ficam desmotivados e começam a desmoralizar. Quando vier a reabertura e voltarmos aos ensaios com certeza ainda vai faltar mais gente e se isto durar muito mais tempo acabamos por ficar com a filarmónica sem actividade”, afirma.
Sobre a situação financeira, o seu Presidente esclarece que a mesma é estável mas que não dará para aguentar muito mais tempo.
“A nível financeiro tínhamos juntado um dinheirinho mas isto não vai prevalecer muito tempo. Pode ter certeza que vai ser complicado e que vai ser difícil aguentar outro ano assim”, avisa.
Para José Medeiros Santos é necessário que as entidades governativas apoiem as bandas filarmónicas de uma forma mais concreta.
“Vi que a Câmara de Vila Franca do Campo vai dar 10.000 euros, isso ajuda. Mas é preciso que todas as autarquias e mesmo o Governo dêem um apoio. De Câmara para Câmara variam muitos os valores atribuídos. Ainda não recebemos nada este ano mas eles (Município) costumam apoiar em 1500, 2000 euros. Este ano ainda ninguém falou em apoio especial e não sabemos como vão ser as coisas. Não sei se para além do valor que costumam dar se vão olhar para nós de uma forma diferente”, afirma o Presidente da Sociedade Harmónica Furnense. 
  
Filarmónica Lira do Espírito Santo da Maia
Já no Concelho da Ribeira Grande, visitamos a Filarmónica Lira do Espírito Santo, na Freguesia da Maia. A Banda tem como ‘data de nascimento’ o dia 3 de Abril de 1937 e como particularidade o facto de ter sido fundado pela empresa de transporte público de passageiros Caetano, Raposo e Pereira. Em 2000 e através de um despacho da Presidência da República, esta associação musical foi reconhecida como instituição de utilidade pública.
Com uma “média de 40 serviços por ano”, tal como refere Manuel da Ponte Teixeira, Presidente da Lira do Espírito Santo da Maia, a Filarmónica já realizou actuações em outras ilhas, como Santa Maria e Graciosa, tendo também participado recentemente nas Festas do Espírito Santo, em Fall River, nos Estados Unidos da América. 
Actualmente, a Lira do Espírito Santo, tem 9 elementos na Escola de Música e conta com 33 músicos efectivos apesar de, como nos explica o seu Presidente, esse número poder flutuar um pouco.
“Varia um bocadinho. Claro que quando são as saídas há sempre um ou outro que tem problemas da sua vida e falha, mas isso é normal”, esclarece Manuel Teixeira.
Sobre o momento que se vive na filarmónica a que preside, Manuel Teixeira explica que os ensaios ainda não foram retomados e especifica a razão por que isso acontece.
“Esteve e está encerrada. Devido ao confinamento e às regras que estipulam não pode haver ajuntamentos em espaços fechados e estamos sem ensaios. A nossa sala de ensaios não tem condições para mantermos o distanciamento social”, justifica.
O Presidente da Lira do Espírito Santo da Maia afirma que a paragem devido à pandemia de Covid-19 veio prejudicar bastante as Filarmónicas.
“Esta pandemia veio prejudicar toda a gente, mas no caso das filarmónicas quando não tocam perdem a sua essência e quando for para recomeçar vai ser um problema. Este ano não há nada. Nós tínhamos um projecto para ir a São Jorge, mas devido à pandemia parou tudo”, lamenta.
Manuel Teixeira revela que na Lira do Espírito Santo, onde a maioria dos músicos são jovens, há vontade de recomeçar com os ensaios e que essa intenção irá ser discutida dentro de pouco tempo.
“Eu até em jeito de brincadeira costumo dizer que aquilo não é a Banda da Maia, aquilo é a Banda da Juventude. Eles estão desejosos por recomeçar mas não podemos fazê-lo. Daqui a uns dias até vamos reunir para falarmos desta crise que estamos passando, mas será em espaço aberto para juntar todos os elementos. Eles estão ansiosos para começar mas agora até parece que a pandemia está-se a agravar-se cada vez mais… de maneira que estamos na expectativa”, afirma.
Destacando a importância da convivência social como um aspecto fundamental na vida de uma Banda, Manuel Teixeira acredita “que não existirão dificuldades em manter os músicos na Filarmónica, depois desta fase”. O Presidente da Lira da Maia, mantém igualmente alguma esperança de que seja possível realizar alguma actividade ainda este ano.
“Gostávamos que fosse possível realizar a Festa da Senhora do Rosário em Outubro. Da forma como as coisas estavam andando, com a diminuição dos infectados, tínhamos essa esperança de que se fizesse a procissão, mas não se sabe. É uma esperança que temos, mas sem garantias concretas”, afirma.
Sobre a situação financeira, Manuel Teixeira garante que, por agora, “vai dando para aguentar”.
“Esta paragem teve impacto em todas as filarmónicas. Claro que não estamos a pagar a maestros porque estamos fechados, mas as casas têm sempre despesas fixas de água e de luz. Vai dando para aguentar porque a Câmara e a Junta de Freguesia têm ajudado e vamos conseguindo ter a balança equilibrada”, garante o Presidente da Lira do Espírito Santo da Maia.    

Luís Lobão

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima